Religião

29/01/2021 | domtotal.com

A fé 'embatumada' como alimento dos 'terraplanismos'

A fé madura precisa de movimentos de autonomia e de construção pessoal, demanda um compromisso e uma vontade que não advém de um mero cumprimento de ordem

A fé embatumada é como o bolo que não cresce, não por falta de ingredientes, mas pelas condições a que é submetido
A fé embatumada é como o bolo que não cresce, não por falta de ingredientes, mas pelas condições a que é submetido (Reprodução/DR)

Gustavo Ribeiro*

Com a pandemia da Covid-19, aliás, ainda antes, com a eleição de políticos de extrema-direita (ditos ?outsiders?) em alguns países-chave, sentimos no ar o cheiro das inúmeras teorias conspiratórias, que vieram à tona, que desde há muito subsistem no submundo da internet, sobretudo.

É fato que esse movimento global não surgiu do nada, pelo contrário, ele vem sendo cultivado desde muito tempo e a "fé" é seu alimento. Salvo algumas exceções, a maioria desses grupos justifica suas teorias com discurso religioso. Como é o caso dos Q-Anon.

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Para esses movimentos se aplica a alcunha "terraplanismo", que se tornou um termo para designar toda teoria que apela para a negação de algo já estabelecido e consolidado pelos saberes científicos e acadêmicos. Não esperávamos que tanto tempo depois da comprovação da esfericidade do planeta terra, haja ainda quem a conteste, e o faça de maneira tão ingênua e fanática, apelando, inclusive, para a argumentação religiosa.

O termo deriva do movimento que acredita que a terra é plana e, de todos os modos, tentam provar suas ideias. Pitágoras, já no século 6º a.E.C ensinava que a terra era redonda. Nós, "terrabolistas", que acreditamos na ciência, achamos absurdo que em pleno século 21 ainda existam essas ideias já consideradas superadas.

E é sumamente preocupante que todos esses grupos sejam movidos por discursos religiosos. E, mais ainda, que eles encontrem respaldo na pregação de grandes lideranças religiosas, principalmente, dos líderes cristãos, que o reforçam através da leitura fundamentalista das Escrituras.

Em nosso meio, é comum dizer que deles se pode perceber uma fé infantil, que não amadureceu e, por isso, conduz a esse tipo de mentalidade e posturas controversas e até perigosas.

Não sou um teólogo de envergadura para propor novas expressões, mas quero desafiar esse status e propor que tomemos outra expressão para esse modelo de fé desenraizado e sem experiência de Deus, que muitas vezes é chamada de "infantil". Quero propor deixar a expressão infantil para outro trato e que passemos a adotar a expressão "fé embatumada". Ou seja, uma fé que não vingou, que não cresceu, ou mesmo uma fé fechada, lacrada com "betume", que não dialoga, mas que está fechada em seu interior ensimesmado.

Embatumado é a expressão brasileira para dizer que um bolo não cresceu, mas ficou superconcentrado, formando uma massa pesada, dura e difícil de ser mastigada ou digerida. A palavra "embatumar" vem de betume, ou seja, revestir com betume, que é uma espécie de asfalto natural utilizado para tingir e proteger madeiras; é uma substância bastante viscosa e escura e muito inflamável.

Preservar costumes, interditar a liberdade da experiência, impedir que o interior respire e encontre as influências externas... impermeabilizar. Assim como o bolo que não cresce, não por falta de ingredientes, mas pelas condições a que é submetido, a fé embatumada tem à sua disposição todos os elementos necessários para a boa vivência da fé cristã, porém, por uma série de condições da realidade das nossas comunidades, o indivíduo acaba por escolher os caminhos "fáceis". Isso mesmo, fáceis, porque já estão pré-determinados, não precisam de nenhum movimento crítico, mas devem ser ritualisticamente seguidos e alimentados.

Em contrário, a fé madura precisa de movimentos de autonomia e de construção pessoal, demanda um compromisso e uma vontade que não advém de um mero cumprimento de ordem...

A fé é estar possuído por aquilo que nos toca incondicionalmente (Paul Tillich) ou seja, levar isso à máxima consequência, extremar, radicalizar a experiência daquilo/daquEle que nos toca e mobiliza.

Porém, aqui há um problema, as falsas imagens de deus, ou seja, quais têm sido as forças mobilizadoras das pessoas ao que elas denominam de fé? Como pode amadurecer uma fé que está fechada em si mesma, ensimesmada, que não troca com o que há ao seu redor?

Segundo o teólogo germano-estadunidense, Paul Tilich, "hoje a palavra 'fé' causa mais desorientação do que cura. Ela confunde as pessoas, levando a extremos como ceticismo ou fanatismo, resistência pela razão ou sujeição emocional, rejeição de religião genuína ou aceitação acrítica de sucedâneos" (TILLICH, Paul. Dinâmica da Fé. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1985, p. 5).

É injusto chamar de infantil a fé de adultos que não fizeram a experiência da fé, porque as crianças possuem a experiência de Deus ao alcance das mãos, elas tocam a realidade divina. Minha grande dificuldade em tratar da fé desses que não a amadureçam com a caracterização de infantil, porque nos dá a sensação de que a fé das crianças é incompleta, do mesmo modo como percebemos socialmente as infâncias, como incompletas. As crianças são seres integrais, inteiras, completas. Não lhes falta nada para a experiência da fé. É uma experiência dentro das possibilidades e linguagens da infância, mas de nenhum modo é algo menor ou deficitário. Às crianças não falta nada para crer. Pelo contrário, à medida que crescemos é que perdemos a totalidade dessa possibilidade, dessa experiência rica que as crianças podem e devem nos ensinar.

Enquanto a fé da criança é livre e transparente, permite respirar, a fé "embatumada" é densa, fechada, não permite que exista intercâmbio entre o que está emplastado, envernizado. A fé embatumada é apegada à conservação, à manutenção, à segurança, nunca se lança à experiência.

As crianças nos ajudam a romper com os esquemas rígidos, arbóreos, e a buscar uma fé rizomática, "riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio" (Deleuze & Guattari), sistema aberto à micro conexões e experiências amplas e alimentadoras.

Neste tempo crítico que vivemos, buscar alimentar uma fé de forma madura é, justamente, fazer o caminho contrário de quase tudo, porque só a partir de uma postura crítica frente a vida e as estruturas que nos são impostas é que podemos cultivar a liberdade, dom tão importante que Deus nos deu. A crítica pela crítica também é uma armadilha, mas as ponderações aliadas às experiências do espírito devem e irão nos conduzir a um caminho não sólido, mas mais nítido, que é um convite à transformação, porque uma fé que não se compromete com a mudança é morta, ou mera repetição de fórmulas prontas e ritos vazios.

 A fé é para o "mais", para a multiplicidade, para a criatividade, para o amadurecimento dos sujeitos. Do contrário é só perda de tempo e perigo à convivência humana. Ao contrário das certezas cristalizadas dos "terraplanismos", a fé não é ter certeza, mas alimentar a esperança.

*Gustavo Ribeiro é natural de São Vicente de Minas/MG. Atualmente residindo em São José/SC, onde trabalha como Analista de Pastoral Sênior em um colégio católico. Graduado em Teologia. Graduando em Pedagogia. E pós-graduando em Gestão Escolar. Poeta nas horas vagas, que são poucas.



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