Cultura

29/01/2021 | domtotal.com

A moça e o leite

Notícias da falta e do excesso

O choro é livre; quem não chora não mama, dizem os ditados
O choro é livre; quem não chora não mama, dizem os ditados (Unsplash/averie woodard)

Fernando Fabbrini*

A falta de assunto nas redes às vezes atinge os limites do ridículo. Por conta desse vácuo – já que da pandemia ninguém aguenta mais ouvir notícias – os factoides predominam. Semana passada surgiu um vídeo icônico e assustador. Uma jovem atriz, na flor da idade, porém de aparência exausta e indignada, gastou alguns minutos gravando uma coleção de palavrões e impropérios. Ela lamenta-se de sua vida "agora insuportável", já que fecharam as torneiras de onde jorrava seu farto sustento de dinheiro público.

Parênteses: as referências desenvoltas e despudoradas às próprias partes íntimas que a moça disparou em público me deixaram ligeiramente chocado. Sim, sou meio sensível quando deparo-me com trato desrespeitoso e nomenclatura chula dessas partes pudendas, como diziam meus avós. Mas deixa pra lá. Fecho parênteses.

Intrigado, um curioso jornalista que também visualizou tal produção raivosa resolveu pesquisar a vida pregressa da atriz – e descobriu farta documentação publicada nos diários oficiais. Nesses estão registrados repasses milionários à pessoa jurídica da talentosa profissional. Os valores foram destinados à suas produções culturais – novelas, filmes e participações artísticas. No total, a atriz recebeu cerca de R$ 10 milhões entre os anos de 2013 a 2018, segundo levantamento do jornalista. Pela contabilidade, entrou em caixa, em média, mais de R$ 1 milhão por ano, o que daria uma boa grana todo mês, concordam?

Artista vive de seu gênio e dos aplausos. Arte de sucesso é aquela que agrada ao público (seja ele qual for), enche teatros, cinemas, galerias. E dá dinheiro ao seu autor, por justiça. Aqui, na terra dos jeitinhos, alguns artistas podiam contar com o seletivo apoio do governo; um pacto paternalista. Em primeiro lugar, o postulante deveria professar afinidade ideológica com o grupo no poder. O resto era mole: caindo na simpatia dos poderosos, ganhando um empurrãozinho dos colegas da mesma caterva, um dia aparecia a grana do patrocínio. E dela ele vivia feliz e em paz, independentemente da qualidade de sua produção, do valor artístico daquilo que criava, de seu público, dos aplausos, do reconhecimento da crítica. Comenta-se que até as prestações de contas eram superficiais e tolerantes. A teta do dinheiro público, farta e generosa, ganhava adeptos de milhares de amigos da mãe-vaca.

E por falar em teta, o episódio do leite condensado também ganhou manchetes na falta de melhor assunto. Ora: qualquer gestor que tenha conhecimento primário de logística alimentar sabe que o leite em pó e o leite condensado têm larga durabilidade, muito superior à dos leites de caixinha, que só aguentam 4 meses sem refrigeração. Assim, leite em pó e leite condensado são comprados há décadas pelas administrações públicas do mundo inteiro para programas assistenciais, contemplando comunidades carentes, entidades filantrópicas, merendas escolares e tantos outros. Aqui também foram adquiridos para isso, despesa burocrática, tradicional e regulamentar – mas virou fofoca. E olhem que os valores de tal compra – aprovada no orçamento da União – não ficam longe daqueles entregues de mão-beijada à atriz hoje saudosa de sua vida de cidadã brasileira especial e privilegiada.

O choro é livre; quem não chora não mama, dizem os ditados. Mas há também muita gente manhosa e birrenta esperneando por tolices que não valeriam nem uma linha de jornal.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas às sextas-feiras no Dom Total.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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