Coronavírus

29/01/2021 | domtotal.com

Secretários de Saúde pedem a construção de hospital de campanha para Manaus

Cidade vive grande crise sanitária e sofre com limitado repasse de verbas do Governo Federal

Sistema de saúde de Manaus entrou em colapso e uma mutação do novo coronavírus avançou e chegou a outros estados
Sistema de saúde de Manaus entrou em colapso e uma mutação do novo coronavírus avançou e chegou a outros estados (ABr)

Representantes de secretários de estados e municípios pediram ao Ministério da Saúde nesta quinta-feira (28), a construção de um grande hospital de campanha para receber pacientes da Covid-19 transferidos de Manaus e de outras cidades.

O presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e chefe da pasta no Maranhão, Carlos Lula, sugeriu que a estrutura seja levantada em Brasília ou São Paulo, com 300 a 400 leitos. O pedido foi feito durante reunião de gestão do SUS nesta quinta-feira, 28, que reúne representantes de estados, municípios e do Ministério da Saúde.

O secretário-executivo do Ministério da Saúde, Elcio Franco, afirmou que irá estudar a proposta. O ministro Eduardo Pazuello disse na terça-feira (26), que 1,5 mil pacientes poderiam ser removidos do Amazonas, de onde já saíram 321 pacientes para serem tratados em 12 outros estados.

O número de transferências estimadas por Pazuello preocupa os secretários. Além dos pacientes do Amazonas, 22 pessoas foram removidas de Rondônia nesta semana para hospitais de outros dois Estados. "Vai chegar um momento em que a gente não vai conseguir mais", disse Lula, que também citou São Paulo como um local possível para a construção do hospital.

O Ministério da Saúde da Saúde afirma que "equalizou" a entrega de oxigênio ao Amazonas, mas o governo local diz que a pandemia está se espalhando ao interior, o que pode exigir mais insumos. O estado segue com fila de leitos para cerca de 580 pacientes, sendo 100 de UTI. Estes pacientes estão sendo tratados em quartos não apropriados enquanto esperam as vagas.

Saúde nega omissão

Pazuello é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) por possível omissão na ajuda ao Amazonas. Escalado pelo ministro da Saúde para acompanhar a situação no estado, o general da reserva Ridauto Fernandes seguiu o discurso do chefe e disse que não há culpado pela crise. Na reunião com secretários locais, ele disse que o governo federal não poderia prever o tamanho da crise apenas pelo aviso feito pela White Martins no último dia 8 sobre falta de oxigênio. Segundo o militar da reserva, o ofício da empresa foi "suave".

"Quem está vendo gente morrendo pra cima e pra baixo em Manaus, vai ler o ofício (da White Martins) e dizer: 'Poxa, nem parece que ele tá dizendo que tá faltando, com a gravidade que tá faltando'. Foi responsabilidade da empresa? Não. Senhores, não tem culpado. O culpado se chama coronavírus", disse Fernandes.

Mais cedo, em reunião com deputados federais, o general da reserva disse que no fim de dezembro já havia "indícios" de aumento de contaminação em Manaus, mas que não era possível saber se "aquela ligeira elevação" ia ou não se manter. "Não temos bola de cristal", disse.

Repasse do Governo

O dinheiro do governo federal repassado a Manaus para combater a Covid-19 não acompanhou o mesmo ritmo do avanço de casos e mortes pela doença. A cidade foi a quinta capital brasileira no índice de letalidade pela doença em 2020, mas a 26.ª no repasse de recursos proporcionais ao tamanho da população. O sistema de saúde de Manaus entrou em colapso e uma mutação do novo coronavírus avançou e chegou a outros estados, como São Paulo.

Após pacientes começarem a morrer por falta de oxigênio, o presidente Jair Bolsonaro argumentou que o governo federal fez tudo o que podia em relação a recursos financeiros e apoio. Ele também publicou uma imagem nas redes sociais indicando que repassou R$ 8,91 bilhões para estado e municípios . O número, porém, representa todas as transferências da União, e não apenas os recursos da Covid-19. Ontem, retomou o discurso. "Nós demos dinheiro, recursos e meios. Não fomos oficiados por ninguém do estado na questão do oxigênio", disse, ao chegar ao Palácio da Alvorada. Segundo ele, foi a White Martins, principal fornecedora de oxigênio no Amazonas, que informou o problema na sexta-feira, 8 de janeiro. "E na segunda estava lá o ministro", disse ele, em referência ao ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Dados da Inteligov, plataforma de monitoramento legislativo e informações públicas, apontam um descompasso nas transferências da União. E a mesma situação é observada em outras capitais também ameaçadas por um colapso, como Belém, São Luís e Fortaleza.

Em 2020, a União transferiu um total de R$ 341 milhões para Manaus em recursos diretamente relacionados à Covid-19, incluindo o socorro financeiro para estados e municípios e o auxílio emergencial a trabalhadores informais e desempregados. A capital registrou 3.975 mortes pelo novo coronavírus no período. O repasse de recursos, porém, só acompanhou proporcionalmente o crescimento dos casos a partir de julho, conforme a Inteligov.

No início da pandemia, em abril, a capital foi a primeira a ver seu sistema de saúde entrar em colapso em função da doença. De abril até junho, o volume de transferências dobrou, mas o número de mortes aumentou quase 18 vezes. Em comparação, Curitiba teve um aumento semelhante de repasses financeiros, mas com o número de mortes aumentando em dez vezes. "No caso de Manaus, é como se o número de bombeiros suficientes para combater um incêndio só chegasse depois que a linha do fogo já se espalhou", afirmou o CEO da Inteligov, Raphael Caldas.

Capital

Manaus recebeu R$ 156,30 por habitante ao longo do ano para combater a doença. Foi a segunda capital do país com o menor volume de transferências em relação ao tamanho da população, perdendo só para o Rio (R$ 149,45). Nessa comparação, a cidade ficou abaixo da média do Estado do Amazonas (R$ 298,36) e mais ainda da média das outras capitais (R$ 421,49). Manaus foi a quinta capital no índice de letalidade que mede o número de óbitos em relação aos casos positivos. "Os dados sugerem que esse descompasso da transferência de recursos e a desigualdade em relação a outras capitais podem ter sido fatores para a situação em Manaus estar mais grave", afirma o diretor de operações da Inteligov, Diogo Jodar.

O socorro financeiro do governo federal foi uma demanda de estados e municípios após o impacto da Covid-19. "A questão financeira foi bem otimizada, mas a pandemia nos trouxe um desafio muito grande, não tínhamos um protocolo no começo e durante o ano aprendemos a conviver com ela", afirmou o presidente do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems), Wilames Freire Bezerra.

De acordo com o economista e especialista em saúde coletiva Adilson Soares, professor do Programa de Pós Graduação em Ciências da Secretaria de Saúde de São Paulo, o governo federal priorizou nos primeiros meses investimentos em leitos e estrutura hospitalar, e não em ações preventivas. "Tardou na execução dos recursos, que foram insuficientes, e não adotou critérios epidemiológicos na sua aplicação. Os recursos foram carreados para os entes federados com maior capacidade assistencial instalada, justamente os que historicamente recebem os maiores porcentuais dos recursos disponíveis, em detrimento de investimentos onde a demanda é mais sentida, como no caso de Manaus."

Sem vínculo

Procurado, o governo do Amazonas afirmou "que não há recomendação da União sobre a aplicação de recursos vinculada ao número de casos de Covid-19 e que os recursos recebidos foram aplicados de um modo geral na ampliação da capacidade da rede estadual de assistência à saúde". Já o Ministério da Saúde e a prefeitura de Manaus não comentaram.

Descompasso entre recursos e óbitos

- Números: Em 2020, a União transferiu R$ 341 milhões para Manaus. A capital registrou 3.975 mortes pelo coronavírus no período. O repasse de recursos, porém, só acompanhou proporcionalmente o crescimento dos casos a partir de julho.

- Todo o possível: O presidente Jair Bolsonaro tem reiterado que o governo federal enviou todos os recursos e meios disponíveis. E não foi informado com antecedência da falta de oxigênio. Assim que isso ocorreu, o ministro Pazuello foi ao estado.

- Desde a primeira vez: No início da pandemia, em abril, a capital foi a primeira a ver seu sistema de saúde entrar em colapso em função da doença. De abril até junho, o volume de transferências dobrou, mas o número de mortes aumentou quase 18 vezes.


Agência Estado



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