Brasil

01/02/2021 | domtotal.com

Fitzcarraldo, Samarco e Brumadinho

Ignorância tem triunfado sobre séculos de civilização e cultura

Operação após tragédia de Brumadinho, que já faz 2 anos
Operação após tragédia de Brumadinho, que já faz 2 anos (Israel Defense Forces)

Ricardo Soares*

Séculos de civilização e cultura. Antropologia, filosofia, sociologia, literatura e até semiótica. Gente sabida e esquecida que vai de Bernanos a Malraux, passa por Kierkegaard, Spinoza e chega a Sartre e Marcuse, um esquecido entre os esquecidos. E aí tanta leitura em francês e alemão, em inglês ou espanhol, tanta culpa embutida no pensamento judaico cristão, tanta reflexão diluída entre nossos sábios tapuias, de Gilberto Freyre a Câmara Cascudo, passando por Sérgio Buarque de Hollanda e Caio Prado Junior. Tanta peroração, orações compostas e complexas, períodos longos e entre aspas, travessões, confusões estilísticas, debates e grupos de estudo para chegar no que? No triunfo da suprema ignorância que grassa sobretudo no Brasil, ex-varonil.

A ignorância na pátria amada passou a ser uma espécie de benção. Virou corriqueira, contumaz, entra na noite veloz, tornou-se praxe. Como os vencedores não leram sequer os salmos que evocam o saber, passou a ser um rejeito a ser expelido nos sujos rios da estupidez. Um imenso desastre da Samarco que, aliás, já completou cinco anos, segue devendo e não teme, assim como os responsáveis pelo horror de Brumadinho. A felicidade para essa gente não é kitsch. É apenas um conceito entre rosa pra meninas e azul pra meninos. Pra que, pois, tanta tese, tanto doutorado, mestrado, anos de estudos se, por fim, triunfa a ignorância e a impunidade?

O céu que protege essa gente é um ambiente abafado, que cheira a hóstia decomposta e não encontramos nada similar na Bíblia que eles se ufanam de conhecer. Dizem ser os bem-aventurados e íntegros, mas não reconhecem a alegria do outro, pois para eles só há alegria no que professam. Séculos de civilização e cultura que vieram primeiro pelos navios, depois por outros meios de transporte, e nos fizeram ser como o protagonista de Fitzcarraldo que tenta levar ?" em vão ?" uma pesada embarcação para uma margem remota. Sofrimento, atoleiro, suor e derrota. Não é que perdemos. Sem derrotismo, mas me pergunto se alguma vez ganhamos. Parece não haver a tal terceira margem do rio da qual nos fala mestre Guimarães Rosa.

Séculos de cultura e do que valeu mesmo ser alfabetizado? Pior, o que valeu ser letrado, sabido, sábio, civilizado? Sim, deixou de ser questão de ideologia. É questão de barbárie rindo da civilização. A mais completa tradução disso quando ?" repito ?" uma fanática ministra reduz tudo a uma nova era onde meninos vestem azul e meninas vestem rosa. Prefiro o mote cromático gay para dizer que "estou bege" com tudo isso. Séculos de civilização e cultura na lata do lixo.

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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