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02/02/2021 | domtotal.com

Próxima B

A fronteira final

Alpha Centauri (a estrela brilhante do lado esquerdo) e Proxima Centauri (circulada) são as estrelas mais próximas do sol. Beta Centauri (estrela brilhante à direita) está quase cem vezes mais distante
Alpha Centauri (a estrela brilhante do lado esquerdo) e Proxima Centauri (circulada) são as estrelas mais próximas do sol. Beta Centauri (estrela brilhante à direita) está quase cem vezes mais distante (Skatebiker via Wikimedia Commons, CC BY-SA)

Jose Antonio de Sousa Neto*

O professor Jonti Horner da Univeristy of Southern Queensland, em um artigo publicado em passado recente, aborda um assunto que ainda nos parece ficção científica. Um projeto de pesquisa que visa enviar uma pequena nave espacial às estrelas mais próximas. O plano é lançar essas sondas em velocidades de até um quinto da velocidade da luz. Para fazer isso, seria necessária uma enorme inovação tecnológica, mas certamente parece não está além dos limites da possibilidade. Ainda assim um quinto da velocidade da luz que é de 300 mil quilômetros por segundo (Km/s) implicaria alcançar uma velocidade de 60 mil Km/s. Quando pensamos que naves como as Voyager 1 e 2, somente após muitos anos e aproveitando o recurso conhecido como gravity assist (assistência de gravidade), conseguiram chegar a velocidades próximas de 60 mil quilômetros por hora (Km/h), vemos que há ainda um longo caminho tecnológico a ser percorrido. Ou seja, as duas naves teriam de ser 3600 vezes mais rápidas para alcançar 20% da velocidade da luz.

Animação da trajetória da Voyager 1 de 5 de setembro de 1977 a 30 de dezembro de 1981Animação da trajetória da Voyager 1 de 5 de setembro de 1977 a 30 de dezembro de 1981

Qual seria o primeiro destino? O primeiro alvo sugerido é o sistema Alpha Centauri, as estrelas mais próximas do sistema solar. Alpha Centauri é a terceira estrela mais brilhante em nosso céu noturno e na verdade faz parte de um sistema binário (Alpha e Próxima Centauri). Alpha Centauri é similar ao nosso sol e Próxima Centauri. Próxima é uma estrela anã vermelha fraca, com cerca de um oitavo da massa do sol e com a metade de sua temperatura. Esta última, por suas características físicas, terá uma vida bem mais longeva do que a de Alpha Centauri e também de nosso Sol. Além disso está atualmente um pouco mais perto do sistema solar do que Alpha Centauri e, por essa razão, mantém a distinção de ser a estrela mais próxima do sol, embora não possa ser vista a olho nu. Alpha e Próxima se movem juntas em sincronia, orbitando seu centro de massa comum aproximadamente a cada 80 anos. Como a distância entre Próxima Centauri e a terra é de 4,243 anos luz (anos viajando à velocidade da luz), isto significa que, dependendo do tempo de aceleração que será necessário para alcançar um quinto da velocidade da luz, o tempo de viagem poderá ser, com otimismo, de 25 a 30 anos.

Evidentemente, por serem as estrelas mais próximas elas têm sido um alvo óbvio para a busca de exoplanetas tentando descobrir até mesmo o mais leve indício de que o sistema possa hospedar planetas. A maior parte das buscas até um passado recente haviam sido frustrantes. Em 2016, por outro lado, a revista Nature publicou um artigosobre a possibilidade de um candidato a "planeta terrestre" em uma órbita temperada ao redor da Próxima Centauri. Em passado mais recente cientistas, incluindo pesquisadores da Universidade de Genebra (Unige), anunciaram que a existência deste planeta pôde ser confirmada. Os resultados, foram publicados na revista Astronomy & astrophysics, e revelam que o planeta em questão, batizado como Proxima B, tem uma massa de 1,17 massas terrestres e está localizado na zona habitável de sua estrela.

Mas se isso por si só já seria muito interessante, um novo fato aumentou mais ainda a curiosidade sobre Próxima Centauri e talvez sobre Próxima B. Em um breve artigopublicado no site The conversation, no dia 4 de janeiro deste ano, o presidente de astrofísica e diretor do Jodrell Bank Center for Astrophysics da Universidade de Manchester, Sir Bernard Lovell, comenta que "através do projeto Breakthrough Listen Initiative, custeado pelo bilionário, investidor em tecnologia e ciência Yuri Milner e sua esposa Julia, foi identificado um misterioso sinal de rádio que parece vir da estrela mais próxima do Sol - Proxima Centauri. Isso gerou uma onda de entusiasmo na imprensa e entre os próprios cientistas. A descoberta, que foi relatadapelo The guardian, mas ainda não foi publicada em um jornal científico, pode eventualmente levar a busca por um primeiro potencialmente promissor sinal de inteligência extraterrestre (Seti). Foi apelidado de Breakthrough Listen Candidate 1 ou simplesmente BLC-1".

Sir Bernard Lovell também chama a atenção para o fato de que "embora a equipe Breakthrough Listen ainda esteja trabalhando nos dados, sabemos que o sinal de rádio foi detectado pelo telescópio Parkes na Austrália enquanto apontava para Proxima Centauri, que se acredita estar orbitando pelo menos um planeta habitável. O sinal esteve presente para a observação completa, que durou várias horas. Também estava ausente quando o telescópio apontava para uma direção diferente".

Se o BLC-1 finalmente emergir como um verdadeiro candidato a sinal Seti, será o primeiro desde o "Sinal Uau!" ("Wow! signal"), sinal "gravado em 1977. Este último é talvez o exemplo mais famoso de um candidato Seti inconclusivo - nunca foi observado novamente. Mas se estes possíveis novos sinais aparentemente vindos de Próxima Centauri se mostrarem inconclusivos ou vierem a ser descartados como possível evidência de sinal com algum nível de inteligência, qual seria então nosso interesse por priorizar uma ida até lá? Bem, em primeiro lugar, enviar nossas primeiras sondas para Alpha e Próxima Centauri significaria que teríamos nossa primeira visão aproximada de outras estrelas, muito mais cedo do que para quaisquer outras estrelas conhecidas. Nós obteríamos potencialmente uma grande quantidade de dados sobre Próxima Centauri. Não poderíamos chegar tão perto, no entanto, uma vez que essas espaçonaves estarão viajando a uma altíssima velocidade.

E se houver planetas ao redor dessas estrelas, nós os veremos. Na verdade, se houver planetas lá, eles provavelmente serão encontrados antes que nossos minúsculos exploradores alcancem a área (dada a taxa em que nossas técnicas e telescópios estão melhorando). E depois? Qual poderia ser o próximo destino? Um alvo possível seria Epsilon Eridani que ainda é uma das estrelas mais próximas e está a "apenas" 10,5 anos-luz de distância, um tempo de viagem de "meros" 60 a 70 anos para nossas naves exploradoras. Epsilon Eridani é uma estrela solitária, assim como o nosso Sol. Um pouco menor e mais tênue do que nossa estrela e é conhecido por também ter dois discos de destroços orbitando ao seu redor ao modo do nosso Sol. O disco interno se parece um pouco com o nosso cinturão de asteroides, mais ou menos na mesma distância e quase do mesmo tamanho. As observações também revelaram a presença de pelo menos um planeta massivo no sistema, movendo-se em uma órbita fora do cinturão de asteroides interno. Assim como Júpiter em nosso sistema solar. Pode muito bem haver outros, espreitando e aguardando para serem descobertos.

O espaço é, no final das contas, o nosso inevitável destino final. Ou como aparece sempre nas chamadas da série de ficção científica Star Trek, "Space, the final frontier" .

*José Antonio de Sousa Neto é professor da EMGE (Escola de Engenharia e Computação)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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