Religião

02/02/2021 | domtotal.com

Miséria acima dos pobres. E os cristãos?

Não ouvir o grito dos que sofrem equivale a negar a audição para a palavra de Deus

Cestas da reforma agrária são entregues pelo MST para famílias atingidas pela enchente em Curitiba
Cestas da reforma agrária são entregues pelo MST para famílias atingidas pela enchente em Curitiba (Ednubia Ghisi / MST Paraná)

Tânia da Silva Mayer*

Não é preciso ser doutor em teologia para compreender a mensagem de Jesus. Ele próprio sempre contou com a audiência dos entendidos da lei e da religião e das mulheres e homens que se abriam para compreender os sinais do Reino nos acontecimentos cotidianos. Por sua vez, as pessoas simples foram as destinatárias da novidade que esse mesmo Reino realiza na vida e na história dos que se deixam encontrar por Jesus e decidem segui-lo. Por isso, a ética cristã é realizada tendo o Senhor como o horizonte que inaugura e gera toda ação a ser vivida e imitada pelos fiéis na atualidade. Nesse sentido, não há dúvidas de que os cristãos e as cristãs devem, ainda hoje, atentar-se aos menores da sociedade, a fim de que suas ações os alcancem de modo que suas vidas não sejam subtraídas e nem colocadas em risco.

Sabendo que o cristianismo extrapola as compreensões catolicistas ou evangelistas, concretizando-se na prática ético-espiritual de quem segue a Jesus, é importante relembrar que a fé cristã se dá numa lógica da horizontalidade. Sem o reconhecimento do outro e de suas pelejas e alegrias, o próprio Deus se torna pedagogicamente inacessível, para sempre um mistério escondido. Nesse aspecto, Jesus ensina que tudo quanto são os esforços e as ações que fazemos em favor dos desfavorecidos deste mundo o alcança irremediavelmente, e colocam o fiel em relação direta com o próprio Cristo. Por isso mesmo, afirmar-se cristão ou cristã hoje deve provocar a reflexão acerca da fraternidade, da solidariedade e da misericórdia para com os sofredores deste nosso tempo e não apenas o modo como nos dirigimos a Deus em muitos monólogos religiosos verticalizados que ensurdecem ao próprio Deus e, também, a nós.

Posto isso, é de escandalizar qualquer eucaristia celebrada o fato de convivermos numa sociedade que exerce, tal como no tempo de Jesus, uma força opressora sobre os pequenos e humildes. Essa força escandalosa rouba a roupa, a saúde, a liberdade, o alimento, a esperança das pessoas por uma vida com dignidade. Uma vez subtraída a dignidade de uma pessoa, é a própria dignidade de Deus, que se fez humano no corpo e na carne de Jesus, que está sendo ofendida. Nesse sentido, é imprescindível considerar que a fé não pode se vestir de silêncio enquanto os gritos dos que sofrem ressoarem estridente em nossos ouvidos. Não os ouvir é o mesmo que negar a audição para a palavra de Deus que conclama os cristãos e cristãs a um posicionamento claro de acolhimento e promoção da vida dos que a têm ameaçada.

No contexto social, econômico e político que vivemos hoje em nosso país, é tarefa dos cristãos e cristãs, se quiserem ainda ostentar o nome de um crucificado pela maldade humana, velar para que a fé seja vivida como fraternidade e solidariedade. Os cristãos e cristãs são reconhecidos por sua caridade. O quanto amaram e se doaram em favor dos menores do povo é o que os marca como propriedade do Deus de Jesus. No entanto, a caridade é a vivência na horizontalidade da fé e, nesse sentido, não pode ser vivida pela metade. Ela precisa oferecer o pão e, ainda, denunciar os esquemas mundanos que fazem persistir uma sociedade de miseráveis, de alimento e amor.

Por essa razão, não se pode considerar crente aquele que não dá o passo completo em direção ao Senhor, precisamente ao socorrer aos pobres, oprimidos e sofredores e se enfileirar junto aos que atuam na defesa dos direitos e vida digna dos menores. Por isso mesmo, num momento cujo lema da República se consolida como "mercado e dinheiro acima de tudo e miséria acima dos pobres", os crentes precisam se mobilizar em socorro das vítimas. E, para além disso, não devem se associar ao silêncio covarde dos carrascos que enquadram os humildes na desesperança de um dia poderem viver com a segurança do teto e do pão, mas devem se unir ao uníssono plural dos que reivindicam outro mundo melhor e mais possível para todas as pessoas, sem miséria e sem fome.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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