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02/02/2021 | domtotal.com

BBB: entre a desconstrução e o cancelamento

Jogo da discórdia acirra os ânimos na casa

Caio conversa com 'brothers' perto da piscina
Caio conversa com 'brothers' perto da piscina (Reprodução/ Globoplay)

Alexis Parrot*

Finalmente a Globo deixou de enxergar negros e negras como cota em sua programação e, pelo menos no Big Brother, montou um elenco de diversidade étnica que não é para inglês ver. O programa está há apenas uma semana no ar e a nova fórmula já se revelou inflamável.

Sinal dos tempos, o maior fantasma que ronda os participantes desta vez não é o paredão, o monstro ou o quarto branco, mas o cancelamento nas redes sociais. Em uma nova regra tácita e balizadora do jogo, os homens estão botando as barbas de molho e o pé atrás, dispostos a aprender com o discurso feminista e desconstruir o machismo e preconceitos que assumem possuir.   

Com humildade louvável (e talvez calculada), os personagens mais chucros da casa – como o sertanejo Rodolffo e seu capanga Caio – mostram-se os mais interessados no processo. Se buscam de fato uma epifania ou apenas uma multiplicação de seguidores no Instagram, o tempo dirá.

Soa falso o quanto dizem que estão ali para aprender, mas incomoda igualmente a atitude não raro arrogante daqueles e daquelas que foram entronizados (alguns deles sem ninguém pedir ou sem o mínimo de autoridade para tanto, como Fiuk) no papel de professores de civilização. Muitos dos brothers e sisters vieram com o objetivo claro de se tornar o Babu da vez.  

Lucas Penteado tornou-se o epicentro de um terremoto inédito na história do programa. Dando provas de sério desequilíbrio (psicológico, espiritual ou de personalidade), conseguiu já na largada causar um rebuliço tão grande a ponto de atrair a inimizade tanto da turma da pipoca quanto do camarote, indiscriminadamente.

Não satisfeito com a confusão do cupido com Kerline (que custará à cearense a eliminação no paredão de hoje à noite) e com o vai não vai sobre a decisão de abandonar a competição, foi propor uma estratégia em que os companheiros negros votariam apenas nos brancos. A cada dia, o ex-ator da Malhação e líder das ocupações estudantis paulistanas em 2016 vai cavando mais fundo o próprio buraco em que se meteu.

Sim, ele não está interessado em escutar ninguém, é inconveniente e imaturo, mas nada justifica a atitude de Karol Conká com ele. A humilhação pública e a ridicularização que a cantora vem imputando a Lucas é coisa de se abrir processo na justiça com direito a indenização. A reação desproporcional e incapacidade de empatia, ou no mínimo compaixão, fez com que perdesse completamente a razão – além de quase cem mil seguidores, indignados com o comportamento deplorável da mulher que tombava e acabou tombando a si própria. 

Mesmo com a blindagem que a Globo está fornecendo (deixando de mostrar momentos mais desabonadores de sua performance e permitindo absurdos como o que foi visto ao vivo no programa de ontem – chamando Lucas de "merda" e "abusador") a história não acabará bem para a cantora. Será eliminada com gosto na primeira oportunidade e virá para o mundo real catar os cacos do que tiver sobrado de sua imagem pública.

O extremo oposto disso foi a enquadrada que o Projota deu no rapaz: histórica; papo reto como não se costuma ver neste tipo de programa. Sincero e carinhoso, mas sem condescendência, aproveitou a deixa para condenar a tentativa de jogar negros contra brancos, acreditando que esta diferença não existiria ali dentro. 

Porém, na contramão do que vê o rapper, a escolha de Nego Di para a festa do líder e a cozinha VIP não deixa dúvidas sobre o muro que separa os jogadores. Outros surgirão com o andar da competição – e o jogo da discórdia de ontem à noite é o prenúncio inequívoco de que muita água e cabeças ainda vão rolar naquele gramado. 

A militância ferrenha de Lumena pelo que acredita e a maneira agressiva com que se coloca têm surtido um efeito devastador no público (quando ela arregala os olhos, sai de baixo!). A intenção educativa que a psicóloga abraça declaradamente dentro da casa tem soado como arrogância e os seguidores já estão a lhe escorrer pelos dedos.

Nesta última segunda-feira, quando Thiago Leifert pediu para que cada um dos concorrentes indicasse quem eram os dois maiores canceladores da casa ("cancelador é aquele que o céu se abre e ele desce para ensinar você, de cima para baixo, como você deve viver sua vida, o que você deve fazer, e por que ele é melhor que você", nas palavras do próprio Leifert).

Revoltada por ter sido escolhida, Lumena perdeu o rebolado (além da verve) e só conseguiu devolver a acusação, espumando de raiva pela afronta e indicando como canceladores justamente os que a cancelaram, Rodolffo e Sarah. Mais tarde, em conversa com o sertanejo, disse entender que ele é uma figura pública além de, humílima, não querer estragar sua carreira.

Mal sabe ela que a batata assando nos tribunais da internet é a sua. É a velha história: não julgueis para não serdes julgado, não canceleis para não serdes cancelado – e o mundo é um moinho.

Ao contrário da assessoria de Lucas que, covardemente, o dispensou de seu cast, as equipes que cuidam das redes sociais de Karol e de Lumena publicaram pedidos de desculpas em nome delas; uma tentativa de estancar o sangue que jorra pelo Insta e Twitter afora.

O feito levanta outra questão bastante discutível: a profissionalização dos participantes (ou mesmo postulantes) do BBB. Karol Conká ter assessoria ainda vá lá, mas e Lumena? Ou Arcrebiano e Arthur, que foram avisados das idiossincrasias do jogo pelo assessor de imagem que, "por acaso", agencia a carreira de modelo de ambos.

Ou, o mais deprimente, Fiuk, que contratou aulas com duas historiadoras para aprender sobre feminismo, racismo e preconceito – para não passar vergonha. Tanto trabalho só para chegar na hora do programa e, como acusam as próprias professoras, distorcer tudo o que foi ensinado. Se fosse mesmo uma prova, já teria sido reprovado.

Como o Globoplay, instável e inacessível na maior parte da noite de ontem, após o programa ter ido ao ar na Globo. Um aviso de servidores sobrecarregados impedia até mesmo o login no site. É sabido que de todos os serviços de streaming disponíveis no mercado, o Globoplay é o pior para se navegar e o que mais trava, mas com o advento do BBB, a situação está ficando ridícula. Impressiona o amadorismo do conglomerado dos Marinho neste caso: se quer mesmo brincar de Netflix, seria bom brincar direito e com mais respeito aos assinantes.

Frase da semana

De Caio, no BBB:

"Esses dias atrás eu tava lá na roça parecendo um bobo... olha onde que eu tô hoje: parecendo um bobo, mas aqui dentro, né?"

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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