Cultura

04/02/2021 | domtotal.com

O jornalismo de selfies e selinhos

Muitos jornalistas da atualidade querem ser celebridades

A coisa vai mesmo de mal a pior na maioria das redações malformadas, deformadas por uma enxurrada de ego-trips
A coisa vai mesmo de mal a pior na maioria das redações malformadas, deformadas por uma enxurrada de ego-trips (Unsplash/Sam McGhee)

Ricardo Soares*

Sou de um tempo em que a maioria dos jornalistas não queriam ser celebridades como hoje. Por isso, seja por discrição, ética ou comedimento, não se viam jornalistas posando para fotos ao lado de seus entrevistados e muito menos pedindo autógrafos a eles. A primeira vez que vi essa inversão de valores acontecer na minha frente percebi que alguma coisa estava começando a ficar terrivelmente fora da ordem com o jornalismo.

Não sei precisar em que momento o trem descarrilou de vez, mas, sem ser injusto, para isso muito contribuiu a postura de "jornalistas" que se consideravam (e consideram) "artistas de televisão" ao contrário de personagens que deveriam mostrar o mundo à sua volta e não ser o mundo em volta deles. Nomes não faltam nessa triste lista, mas alguns dos pioneiros foram, sem dúvida, Francisco José, Glória Maria e, logo após, gente do "porte" de Zeca Camarg,o que sempre se coloca como o foco principal dos seus pueris, anódinos e genéricos relatos.

Havia uma velha máxima que mais ou menos dizia que o jornalista tinha que ter a capacidade de compreender aquilo que desconhecia e resumir o que havia entendido para os seus leitores, telespectadores e assim por diante. A involução natural da espécie nos brindou com o contrário disso. Jornalistas adaptando ensinamentos e conceitos às suas próprias convicções, inclusive sensoriais, quando diante de pratos saborosos dizem algo do tipo "tá totoso" ou "hummm, isso é muito bom!". Como não ter engulhos diante disso?

A ladeira foi indo cada vez mais abaixo e a internet e todas as suas redes virtuais pululam de (pseudo) jornalistas abraçados ou até dando selinhos nos seus entrevistados na mais completa tradução da bajulação sem isenção. Pior, se ufanam das amizades com as celebridades, frequentam os mesmos espaços que elas na ilusão de que são tão pseudoimportantes quanto.

Apesar do fenômeno ser mais exacerbado na área do jornalismo de entretenimento (cultural já era mesmo), a praga se disseminou por várias editorias e não é raro o consumidor de notícias ouvir as "frenéticas" passadoras de pano do establishment nos canais privados de notícias dizerem sempre algo do tipo : "hoje eu conversei com o vice-presidente que me disse". O que pretendem as "senhouras"? Sugerirem intimidades com suas fontes? E desde quando intimidade com fonte gera isenção?

Tudo isso pra dizer que não adianta a gente tentar correr em busca do tempo perdido do jornalismo caboclo. A coisa vai mesmo de mal a pior na maioria das redações malformadas, deformadas por uma enxurrada de ego-trips. O tal "shownarlismo" triunfou e se você, jovem, que pretende ser jornalista não tiver vocação para ser celebridade inócua, corra a perseguir outra profissão. O jornalismo pátrio agoniza e é mister reinventar tudo de novo.

Ricardo Soares é diretor de tv, escritor e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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