Religião

05/02/2021 | domtotal.com

O mal a ser combatido e a superação de sua espiritualização

Textos sagrados narram simbolicamente o acontecimento-surgimento do mal no mundo e foram entendidos de modo metafísico-personalista

Em ambientes religiosos cristãos, o ato de culpabilizar o inimigo é uma constante
Em ambientes religiosos cristãos, o ato de culpabilizar o inimigo é uma constante (Unsplash/?????? ?'???????)

Felipe Magalhães Francisco*

O mal é coisa séria. Há sofrimento no mundo, e isso é uma coisa inegável. A maneira como o ser humano interpretou esse sofrimento – uma das faces do mal – ao longo de toda a sua história, variou muito, e encontrou várias nuances. O mal é um problema humano, que atravessa a vida em muitos momentos. É conteúdo de diversas narrativas mitológicas. É objeto da especulação filosófica. É problema para as diversas teologias. Mais que isso: é sentido na carne por quem está na vida; mas é sentido, sobretudo, pelos injustiçados e injustiçadas da história, por parte daqueles que dominam e oprimem. Um grande desafio é que compreendamos a essa realidade à qual chamamos mal, tendo os pés no chão, mesmo que seja um tema tão difícil e cheio de perguntas sem respostas.

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Outro dia, nas redes sociais, viralizou um trecho de uma entrevista de um famoso cantor de funk. Explicando sobre as polêmicas a respeito de um recente término de relacionamento, em que acusações muito sérias de violência foram enumeradas pela ex-namorada, o cantor teve espaço na mídia para dar sua versão dos fatos. Algumas situações do que havia sido levantado pela ex-namorada, o cantor reconheceu que aconteceram. Mas não reconheceu a situação, responsabilizando a si mesmo: o culpado por aquilo que ele, o cantor, havia feito era, segundo suas próprias palavras, coisa do inimigo.

O que foi dito pelo cantor não é uma novidade. Em ambientes religiosos cristãos, o ato de culpabilizar o inimigo é uma constante, sobretudo naqueles meios pentecostais e neopentecostais, sejam do movimento evangélico ou do catolicismo. Esse processo de culpabilização de uma "força espiritual" – verdadeira negação da ética religiosa – é consequência de um desvio narrativo importante: o que os textos sagrados do judeu-cristianismo apontavam narrativa e simbolicamente para expressar o acontecimento-surgimento do mal (como misterioso enigma) no mundo, passou a ser entendido do ponto de vista metafísico-personalista. Daí para a desresponsabilização do humano do mal moral cometido, para imputá-lo a um ente sobrenatural, foi um átimo.

Muitas vezes, em pregações ditas cristãs, as figuras de demônio, Satanás e Diabo aparecem com muito mais força e frequência que outras palavras, de teor mais positivo: tais como Jesus, Evangelho e Reino, por exemplo. Além disso, na contramão do respeito e do diálogo inter-religioso, cristãos passam a demonizar elementos sagrados de outras tradições, atribuindo-lhes elementos de seu próprio imaginário, a cosmovisões que desconhecem elementos personificados do mal. As religiões de matriz africana são as que mais sofrem com esse preconceito esdrúxulo. Tudo isso nos leva a pensar que, entre outras coisas, é preciso que a teologia enfrente uma séria disputa de narrativas: não é possível que círculos de pensamentos cristãos sérios e comprometidos não se proponham diante de cosmovisões religiosas ditas cristãs, que descaracterizem o texto bíblico, com ideologias espiritualistas e que causam danos à vivência de fé de inúmeras pessoas. O mal está aí: é preciso coragem para apontá-lo, tal como é, sem cairmos em devaneios mágicos, que só contribuem para que aquilo que deve ser combatido, continue a prevalecer. "O mundo jaz do Maligno" (1Jo 5,19): mais das vezes, o diabo somos nós; lutemos contra isso!

*Felipe Magalhães Francisco é Teólogo e Professor. Articula a editoria de religião deste portal. É co-autor do livro Teologia no século 21: novos contextos e fronteiras (Saber Criativo, 2020). Contato: felipe.francisco.teologia@gmail.com.



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