Ciência e Tecnologia

04/02/2021 | domtotal.com

Atividade física não protege em casos graves de infecção pelo novo coronavírus

Fatores de risco como obesidade, diabetes, doenças e idade avançada são mais determinantes do que a prática de exercícios

Prática de exercícios físicos melhora condicionamento e doenças crônicas, mas afetam pouco em casos de Covid
Prática de exercícios físicos melhora condicionamento e doenças crônicas, mas afetam pouco em casos de Covid Foto (Pixabay)

Maria Fernanda Ziegler
Agência Fapesp

Estudos recentes sugerem que a prática regular de exercícios físicos pode estar associada à redução de hospitalização por Covid-19. No entanto, para indivíduos que desenvolvem a forma grave da doença, a proteção conferida pelo exercício físico deixa de funcionar, não resultando em diferenças no tempo de internação, na necessidade de ventilação mecânica ou de tratamento intensivo.

Foi o que mostrou uma pesquisa com 209 pacientes com Covid-19 grave internados no Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP) e no Hospital de Campanha do Ibirapuera, na capital paulista. Os resultados indicam que o fato de os pacientes terem o hábito de se exercitar regularmente antes da internação não foi determinante para o melhor enfrentamento da doença.

"Esse estudo serve como um sinal amarelo para a população que se exercita com regularidade e, por isso, acredita estar totalmente protegida. Não encontramos diferença de prognóstico e desfecho da doença entre os pacientes graves mais ou menos ativos. Isso mostra que os benefícios da atividade física existem, mas aparentemente vão só até um ponto da gravidade da doença", afirma Bruno Gualano, professor da USP e autor do estudo.

Os resultados da pesquisa foram divulgados em artigo publicado na plataforma medRxiv, ainda sem revisão por pares. A investigação foi conduzida em parceria com o Laboratório de Metabolismo Ósseo, coordenado por Rosa Maria Rodrigues Pereira, daUSP.

A Covid-19 é uma doença viral infecciosa que pode progredir para casos inflamatórios mais graves. Como ainda não existe um medicamento específico para combater o vírus Sars-CoV-2, o tratamento hospitalar consiste em lidar com os vários sintomas da infecção e dar suporte respiratório aos pacientes, se necessário.

Como explica Gualano, a prática de atividade física é reconhecida por seu efeito protetor contra doenças crônicas. Ela também fortalece o sistema imune, prevenindo, parcialmente, algumas doenças infecciosas respiratórias. "O exercício físico tem um efeito sistêmico. Melhora a resposta imune e as condições metabólica e cardiovasculares do indivíduo. Esses fatores podem trazer proteção contra diversos tipos de doenças crônicas e algumas infecciosas também. Mas, quando o quadro se agrava, outros preditores podem ser mais decisivos para o desfecho clínico", explica o pesquisador.

Os resultados da pesquisa indicam que para os casos graves de Covid-19 a presença de fatores de risco como obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares e idade avançada foi mais determinante no prognóstico do que a prática pregressa de exercícios.

Os mais de 200 voluntários tiveram seu histórico de atividade física no trabalho, no esporte e no lazer avaliado assim que foram hospitalizados. A informação foi obtida por meio de um questionário validado. Também tiveram o diagnóstico de Covid-19 confirmado por exame de RT-PCR, que identifica o material genético do Sars-CoV-2 em secreções do nariz ou da garganta.

Foram incluídos pacientes que apresentavam dificuldade para respirar (mais de 24 respirações por minuto) e índice de saturação de oxigênio no organismo menor do que 93%. Além disso, tinham fatores de risco para Covid-19, como idade avançada, doenças cardiovasculares, diabetes, hipertensão arterial sistêmica, neoplasias, imunossupressão, tuberculose pulmonar e obesidade.

Os dados referentes à atividade física não foram associados com nenhum dos desfechos clínicos observados, como hospitalização, necessidade de ventilação mecânica ou internamento em UTI e mortalidade.

Estudos complementares

Gualano explica que o resultado obtido na pesquisa com pacientes hospitalizados é complementar a estudos anteriores – realizados com infectados de perfil variado (incluindo casos leves e moderados).

Divulgada recentemente, uma pesquisa on-line com 938 brasileiros que contraíram Covid-19 apontou que a prevalência de hospitalização pela doença foi 34,3% menor entre os voluntários considerados ativos – que realizavam pelo menos 150 minutos por semana de atividade física aeróbica de intensidade moderada ou 75 minutos de alta intensidade.

"O nosso trabalho complementa os resultados obtidos com os casos mais leves da doença. Os estudos existentes avaliaram, principalmente, pessoas em estágios anteriores ao do nosso trabalho [em termos de progressão da doença], em que apenas a minoria dos pacientes necessitou de hospitalização", diz.

De acordo com o pesquisador, além de complementares, os dois estudos contribuem para o maior entendimento da doença e do efeito protetor da atividade física. "É tudo muito novo e ainda são poucos os estudos que relacionam Covid-19, atividade física e sistema imune. No entanto, ao analisar o que temos publicado sobre o assunto, notamos que a atividade física poderia eventualmente ser considerada um bom preditor até certo estágio de gravidade da doença, prevenindo complicações. Mas isso não se revela verdadeiro nos casos mais críticos. É um recado importante para não se fiar tanto no histórico de atividade física como um fator absoluto de proteção contra a Covid-19", ressalta Gualano.

Artigooriginalmente publicado pela Agência Fapesp


Agência Fapesp



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