Religião

07/02/2021 | domtotal.com

Bispos consideram mulheres e leigos como resposta à crise de abuso clerical

Relatório sobre Igreja da Alemanha descobriu que mais de 4% do clero supostamente cometeu abusos sexuais

Dom Koch, arcebispo de Berlim, fala em entrevista coletiva do relatório 'Abuso sexual de menores por padres católicos, diáconos e religiosos na área da Arquidiocese de Berlim desde 1946' no Conference Center Catholic Academy em 29 de janeiro
Dom Koch, arcebispo de Berlim, fala em entrevista coletiva do relatório 'Abuso sexual de menores por padres católicos, diáconos e religiosos na área da Arquidiocese de Berlim desde 1946' no Conference Center Catholic Academy em 29 de janeiro (AFP/Bernd von Jutrczenka)

Claire Giangrave*
NCR

Os bispos católicos da Alemanha retomaram as discussões esta semana para planejar o Caminho Sinodal, um conjunto de conferências programadas para abordar questões polêmicas como o papel das mulheres e a aceitação de pessoas LGBTQ, embora o país enfrente mais um escândalo de abuso sexual pelo clero.

Muitos religiosos acreditam que as questões sociais e a crise dos abusos estão relacionadas. "A crise dos abusos fere profundamente a Igreja", o padre Martin Maier, um sacerdote jesuíta e ex-editor da revista católica alemã Vozes do tempo (Stimmen der zeit), disse que "uma das consequências mais dolorosas é a perda da confiança. Um dos objetivos do Caminho Sinodal é restaurar a confiança, que é crucial e vital".

Iniciado em 2019 e com duração prevista de dois anos, o Caminho Sinodal foi suspenso em setembro de 2020 como resultado da pandemia Covid-19. Seu objetivo é debater questões de estruturas de poder na Igreja Católica, vida sacerdotal, moral sexual e o papel da mulher na Igreja.

Embora a cúpula dos bispos considere oficialmente apenas as dioceses e paróquias locais da Alemanha, as discussões e decisões provavelmente terão consequências em toda a Igreja global. Bispos da Austrália à América do Sul e Irlanda estão lutando com o impacto devastador que a crise dos abusos sexuais teve, bem como com a secularização crescente que esgotou a participação nas igrejas e as vocações.

Em 31 de janeiro, o papa Francisco exortou a Igreja Católica na Itália a convocar seu próprio sínodo nacional, de acordo com sua defesa de longo prazo da "sinodalidade" – que significa uma abordagem mais descentralizada e subsidiária para a tomada de decisões e estruturas de poder.

Na Alemanha, os pesquisadores analisaram a resposta aos casos de abuso sexual do clero em 27 dioceses do país de 1946 a 2014. Seu relatório de 2018, conhecido como estudo de Mannheim, Heidelberg e Gießen, ou MHG, descobriu que mais de 4% do clero supostamente cometeu abusos sexuais e contabilizou 3.677 menores como supostas vítimas.

O relatório do MHG apontou para questões sistêmicas subjacentes à crise dos abusos sexuais na Igreja Católica, principalmente o poder excessivo atribuído ao clero e problemas relacionados com a forma como os padres são formados.

"Não é apenas a pandemia, mas a situação desastrosa de nossa Igreja e como lidamos com o escândalo de abuso sexual que faz as pessoas realmente fugirem", disse Claudia Lücking-Michel, teóloga e ex-parlamentar da Alemanha, que assumiu um papel ativo no Caminho Sinodal, em uma entrevista em 27 de janeiro.

Católica fiel e representante leiga no fórum do Caminho Sinodal sobre as estruturas de poder na Igreja alemã, Lücking espera que a cúpula traga reformas e restaure a credibilidade na Igreja Católica.

De acordo com o meio de comunicação católico alemão KNA, as mais de 200 mil pessoas que deixaram a Igreja Católica entre 2018-2019 foram motivadas principalmente pelos escândalos de abuso sexual.

Para piorar as coisas, um caso de abuso sexual na diocese de Colônia, Alemanha, reabriu velhas feridas e sublinhou as questões existentes com a responsabilidade da Igreja e transparência sobre o abuso sexual.

O cardeal Rainer Maria Woelki, arcebispo da Arquidiocese de Colônia e um crítico ferrenho do Caminho Sinodal, foi convidado a renunciar depois de se recusar a compartilhar o conteúdo de um relatório concluído no ano passado detalhando o histórico de abuso sexual de sua diocese.

Em declarações públicas na véspera de Natal, o cardeal ofereceu um pedido de desculpas mal escrito que deixou muitos jornalistas e vítimas furiosos. Woelki afirmava que o relatório não agiu de forma independente e destacou a importância de proteger a identidade das vítimas.

A situação devastou Colônia, a maior diocese do país, e levou à renúncia de dois membros do conselho consultivo das vítimas. Em um esforço para restaurar a confiança, os bispos alemães concordaram em aumentar o valor das indenizações para as vítimas, normalmente US$ 5 mil, para US$ 60 mil por caso.

"A maneira como a diocese de Colônia lidou com o resultado da pesquisa mostra que não se pode confiar nela, que não é transparente", disse Lücking, acrescentando que os presidentes do Caminho Sinodal provavelmente abordarão a questão diretamente no próximo encontro online.

Os bispos alemães têm discutido a necessidade de mais envolvimento dos leigos na Igreja, acreditando que o controle clerical está na raiz do abuso sexual do clero.

Coincidentemente, embora a pandemia tenha apresentado sérios desafios para a Igreja alemã, também abriu possibilidades para homens e mulheres leigos assumirem a liderança. "Agora, há tão poucos encontros oficiais e eucaristias que as pessoas começaram a se organizar", disse Lücking, apontando para as restrições às reuniões religiosas impostas no auge da pandemia.

"Eu nunca poderia ter imaginado isso antes. Há mulheres liderando cultos, pregando, fazendo o que podem", disse a leiga.

A questão do envolvimento das mulheres na Igreja é uma questão chave para o Caminho Sinodal, já que os bispos alemães há muito lideram o ataque ao abordar as questões teológicas que impedem as ordenações femininas. O bispo de Limburg, Georg Bätzing, presidente da Conferência Episcopal Alemã que está liderando o Caminho Sinodal, disse recentemente que os argumentos contra a ordenação de mulheres "estão se tornando cada vez menos convincentes".

De acordo com Lücking, as mulheres alemãs que viveram por 15 anos sob a líder do país, a chanceler Angela Merkel, não vão se candidatar a uma igreja que não oferece igualdade para as mulheres. "Na Igreja, elas ouvem que você não tem permissão para ser ordenada apenas porque é mulher", apontou Lücking. "Esse tipo de conversa não vai vencer".

"Ou eles mudam ou as mulheres vão embora", disse.

Bätzing, em entrevista à revista alemã Herder Korrespondenz, adiantou a possibilidade de abençoar o casamento daqueles que não podem se casar na Igreja, incluindo pessoas LGBTQ.

Lücking acredita que a Igreja não pode se dar ao luxo de "perder mais tempo" para trazer mudanças.

"Como posso ser um democrata de segunda a sexta-feira, enquanto sábado e domingo sou um católico obediente que se esqueceu de que no mundo exterior existem diferentes estruturas de organização do poder na sociedade e na comunidade?" Lücking pergunta.

A Igreja Católica na Alemanha está entre as mais ricas do mundo, em grande parte devido a um imposto religioso que permite que os cidadãos reservem o pagamento de impostos para sua religião professada. Isso permite que a Igreja Alemã financie inúmeras bolsas de estudo, iniciativas de caridade e outras organizações, tornando-a uma das principais empregadoras do país.

Também promoveu educação de alto nível para membros do clero e leigos, tornando os teólogos alemães entre os mais respeitados na Igreja.

"É verdade que a teologia na Alemanha tem um status especial nas universidades", disse Maier. "Isso pode explicar em parte por que a teologia alemã é respeitada e de alguma forma também é influente fora da Alemanha."

Enquanto o papa Francisco promove uma abordagem sinodal nos assuntos da Igreja, a Santa Sé também se preocupa em manter a unidade.

Em uma carta aos católicos alemães em 2019, o papa pediu paciência para abordar os temas levantados pelo Caminho Sinodal, alertando contra a tentação de buscar "resultados imediatos que gerem consequências rápidas e imediatas".

Maier disse que algumas das principais dúvidas em relação ao Caminho Sinodal vêm da Congregação para os Bispos do Vaticano. "O medo de algumas pessoas, e isso parece ser um fato no Vaticano, é que a autoridade dos bispos possa ser questionada e limitada", disse o papa.

Por isso, acrescentou, é importante que a Igreja alemã continue seu diálogo com os diferentes poderes do Vaticano. O próximo sínodo global de bispos, programado para 2022, deve se concentrar na noção de sinodalidade. Segundo Maier, o esforço alemão pode servir de modelo.

Ignorando a ideia de cisma, Maier disse que as crises atuais na sociedade, na saúde e no meio ambiente constituem um momento decisivo no qual a Igreja pode abordar seus problemas e oferecer uma contribuição valiosa para enfrentar esses desafios modernos.

"Se eu pudesse fazer uma recomendação para o Caminho Sinodal, seria não esquecer esse quadro mais amplo e não pensar que o centro da Igreja é a Alemanha. Não é a Alemanha ou o Vaticano", disse Francisco.

Publicado originalmente por NCR


Tradução: Ramón Lara



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