Cultura

08/02/2021 | domtotal.com

Peripécias idiomáticas

E quando se diz que uma pessoa ficou 'a ver navios', significa que ficou 'na mão'

Tem coisas que talvez nem o Google ache a resposta
Tem coisas que talvez nem o Google ache a resposta (Unsplash/Solen Feyissa)

Afonso Barroso*

O mistério da tecnologia que mais me intriga é o Google. Ninguém até hoje me deu uma explicação aceitável sobre como é que um website pode conter o volume infinito de informações que o Google armazena e disponibiliza. Ninguém me diz como essas informações chegam e de que forma são reunidas e catalogadas. O certo é que com isso os dicionários e enciclopédias foram condenados a exílio perpétuo. Adeus Aurélios e Barsas, agora para sempre confinados no museu das letras, sem receber visitas.

É com esse espanto que busquei no Google expressões idiomáticas da língua portuguesa. Procurei e achei não algumas, mas todas, de A a Z, o que aumentou o meu espanto. É sobre elas que quero falar, e para isso tiro da cabeça o mistério do Google. Não quero fundir a cuca com isso. Vamos às expressões, ou melhor, algumas delas, porque são dezenas e dezenas.

Uma que sempre me ocorre, sem direito a explicação, é "tirar o cavalinho da chuva", que significa desistir, não insistir em alguma coisa. Por que cavalinho e não uma bicicleta, um Fusca ou um burrinho? Se houver alguém que saiba a origem dessa expressão esdrúxula, me diga, faz favor.

Outra expressão que me deixa encucado é "agora é que são elas", significando a iminência de dificuldades numa situação qualquer, uma missão ou trabalho. Elas quem? E por que elas? Alguém aí pode me dizer?

"Bater um papo" e outra expressão estranha. Quer dizer conversar, trocar ideias. Mas onde está o papo aí? Todo mundo sabe que o papo fica do lado de fora e não do lado de dentro da garganta. Então, onde está a lógica de bater papo?

Também não sei por que se fala "a dar com pau" quando se quer dizer que é muita coisa, em grande quantidade. Dar com pau, pra mim, é espancar sem dó nem piedade. A pauladas.

E de onde vem a expressão "dar uma de João sem braço", que significa fingir, dar um golpe ou se fazer de desentendido? Que diabo de João-sem-braço é esse? Seria um espertalhão que finge ter um braço só pra obter alguma vantagem? Aguardo respostas. Talvez tenha origem no "one arm bandit" que é como os norte-americanos chamavam as primeiras slots machines, as máquinas caça-níquel.

"Enfiar o pé na jaca" é cometer algum excesso. O problema é saber como a jaca entrou nessa história. Quem mete o pé numa jaca vai é quebrar o dedo. Talvez se queira dizer aí que foi um excesso de raiva, mas não parece ser essa a ideia da expressão. Vou continuar sem entender como e por que a jaca se meteu aí.

E que dizer de "entrar pelo cano", expressão que se usa quando se quer dizer que a pessoa se deu mal? Ora, ora, tudo depende do diâmetro do cano. Se for um tubo de grande diâmetro, que cabe uma pessoa, ela não se deu mal. Se for um cano que não cabe, aí não cabe também a expressão.

Há muitas outras expressões sem sentido, como "fazer das tripas coração", que quer dizer esforçar-se ao máximo. Mas, de onde vem essa ideia de misturar coração com tripa? Sei não, parece uma grande besteira. Assim como é uma grande besteira dizer que uma pessoa está com dor de cotovelo quando demonstra ciúme ou decepção amorosa. O que tem o cotovelo a ver com isso?

E quando se diz que uma pessoa ficou "a ver navios", significa que ficou "na mão" (outra expressão sem sentido), ou seja, ficou sem nada. Mas por que navios? Não podia ser aviões ou balões ou trens de ferro?

Acho também sem nenhum sentido dizer que alguém "viajou na maionese". Não vejo como explicar a presença desse condimento na expressão. Da mesma forma, não entendo quando se diz "voltar à vaca fria" quando alguém se propõe a retomar um assunto. Que diabo de vaca é essa, e por que está fria, eis a questão.

Poderia ficar aqui, eternamente, falando de nossas inúmeras expressões, na maioria mais idiotas do que idiomáticas. Mas paro por aqui. Ou melhor, fujo do assunto, ou seja, dou às de Vila Diogo. Não sabe o que é dar às de Vila Diogo? Procure no Google que você acha.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos