Religião

08/02/2021 | domtotal.com

A nova Ostpolitik do Vaticano: O que está por trás da relação com a Rússia?

Papa sabe que país é 'chave' para paz no Oriente Médio, mas Ucrânia é uma questão

Catedral ortodoxa russa dedicada a São Basílio situada na Praça Vermelha em Moscou
Catedral ortodoxa russa dedicada a São Basílio situada na Praça Vermelha em Moscou (Unsplash/Artem Beliaikin)

Thales Reis*

As relações entre a Igreja Católica e a União Soviética foram marcadas por fortes desentendimentos ideológicos de longa data. Durante os papados de João XXIII e Paulo VI, a Santa Sé tentou entrar em um diálogo pragmático com os líderes soviéticos, a chamada Ostpolitik, um esforço diplomático para normalizar as relações com as nações do leste europeu. Quando João Paulo II foi eleito papa, em 1978, a posição inflexível do polonês contra o regime comunista fez do pontífice persona non grata no lado oriental da Cortina de Ferro, até a histórica viagem do líder soviético Mikhail Gorbachev ao Vaticano, em 1989, às vésperas do colapso do bloco.

Em janeiro de 1992, a Santa Sé reconheceu a Rússia como sucessora jurídica da URSS e estabeleceu com o país relações em nível de representações permanentes. Somente em 2009, ambos os lados decidiram, de comum acordo, elevar o status das suas relações para "diplomáticas" no mais alto nível. Um importante passo também para a reaproximação entre as Igrejas Católica e Ortodoxa Russa, que se separaram no "Grande Cisma" de 1054, por desacordos na doutrina e por não reconhecer o poder dos papas. O apaziguamento no diálogo entre as duas igrejas cristãs materializou-se em 2016 com o histórico encontro entre o papa Francisco e o patriarca de Moscou, Kirill.

A Igreja Ortodoxa Russa é a mais numerosa entre as ortodoxas, e representa 2/3 dos seus 250 milhões de seguidores. A aproximação entre o papado de Roma e o patriarcado de Moscou já era um sonho desde o pontificado João Paulo II, mas o comunismo e as questões políticas da Rússia com os países ocidentais dificultaram esse encontro. Hoje, um diálogo mais estreito com os ortodoxos russos faz parte das prioridades de Francisco, mesmo que, para isso, ele precise adotar uma postura mais "condescendente" em relação ao Kremlin e ao presidente russo Vladimir Putin. No país, a Igreja Ortodoxa não nega a proximidade com o governo Putin, de quem é um pilar importante e parece ter uma dívida em questões ecumênicas.

Por esse motivo, apesar de desacordos ideológicos, Francisco sabe que sua melhor aposta no caminho para a unidade cristã é construir um bom relacionamento pessoal com Putin. E isso ajuda a explicar, talvez, por que o papa tem se mostrado tão relutante em denunciar a Rússia por suas ações na Síria e na Ucrânia, por exemplo. Embora o Vaticano não condene com frequência países ou líderes específicos, quando se trata da Síria e da Ucrânia, a Santa Sé se mostra especialmente reticente. Nos dois casos, Francisco apela pelo fim dos combates, rejeita a "carnificina inaceitável", mas sem uma condenação inequívoca de nenhum lado ou sem apontar dedos para ninguém.

Vale lembrar que, embora geralmente seja cuidadoso ao falar sobre questões internacionais, Francisco não se furta em condenar a posse de armamento nuclear, o uso de forças militares na resolução de disputas, o tratamento degradante oferecido a refugiados e migrantes, e até já expressou temor sobre o crescente nacionalismo populista na Europa. Quanto à Síria, tentou impedir, em 2013, que o então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, bombardeasse o país em resposta ao uso de armas químicas por Bashar al-Assad contra seu próprio povo. Sobre a Ucrânia, mesmo com EUA, Reino Unida, França e países do Leste Europeu pressionando o Vaticano a condenar a invasão russa da Crimeia, em 2014, a Santa Sé se limitou a afirmar que faria o "possível" pela paz na Europa Oriental.

Nesse caso, a relativa leniência do Vaticano em relação à anexação da Crimeia pela Rússia, em uma situação onde o país do presidente Putin foi visto, quase que universalmente, como o agressor, foi entendida como reflexo de uma preocupação do papa em não colocar em risco o desenvolvimento das relações com o patriarca ortodoxo russo Kirill, fechando as portas para um diálogo mais estreito com a Igreja de Moscou. Francisco sabia que, se condenasse o governo russo, prejudicaria vinte anos de trabalho ecumênico para conseguir colocar as duas Igrejas na mesma página. Na visão do pontífice, simplesmente não valia a pena atacar politicamente a Rússia nesse sentido.

Em 2020, o possível envenenamento do líder da oposição russa, Alexei Navalny, fez com que vários países ocidentais e organizações internacionais manifestassem preocupação e exigissem esclarecimento das circunstâncias do que ocorreu com Navalny. Na ocasião, o Kremlin repudiou as acusações de que o presidente russo pudesse estar envolvido. Mais recente, já em 2021, com Navalny recuperado e de volta à Rússia, o principal opositor de Putin foi preso e condenado a quase três anos de cárcere por um tribunal de Moscou, o que desencadeou forte reação da comunidade internacional. EUA, Reino Unido e Alemanha pediram a libertação de Navalny. A Santa Sé, o papa Francisco e a Igreja Católica russa preferiram adotar um silêncio obsequioso sobre o caso.

Além do interesse na unidade cristã com a Igreja Ortodoxa Russa, Francisco também quer se tornar o primeiro pontífice romano a viajar a Moscou, e desde a sua eleição, em 2013, tem investido tempo e energia nesse projeto. De lá para cá, já recebeu o presidente Putin no Vaticano em três ocasiões, uma frequência maior se em comparação com outros líderes mundiais. O convite, porém, ainda não veio, e nem há sinal de que será feito em um futuro próximo, já que uma viagem apostólica à Rússia desperta forte resistência dentro da Igreja Ortodoxa do país, atravessada por uma corrente nacionalista e conservadora.

Mas apesar do histórico de animosidade que remonta aos tempos da extinta URSS, o Vaticano e a Rússia possuem notável alinhamento em uma série de questões internacionais. Ambos, por exemplo, mantêm relações bastante cordiais com o Irã e cortejam uma maior aproximação com a China. Ambos são responsáveis pela reconstrução da pequena comunidade cristã na Síria, destruída pela guerra. Ambos também não têm muita pressa em ver o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, fora do cargo. Em outras palavras: embora por razões diferentes, ambos resistem à hegemonia dos Estados Unidos no cenário internacional. O papa também sabe, claro, que a Rússia é "chave" para a paz no Oriente Médio e pode contribuir muito para frear o que o pontífice chama de "guerra mundial aos pedaços", conflitos que se espalham em diferentes focos ao redor do mundo.

A "pedra no sapato" entre o Palácio Apostólico e o Kremlin é, sem dúvida, a Ucrânia e, principalmente, os católicos ucranianos. Desde que o fim da URSS levou à independência do país, em 1991, Moscou tem tentado manter forte sua influência na região, não apenas nas esferas políticas e econômicas, mas também no que diz respeito aos assuntos religiosos. A Igreja Católica na Ucrânia é parte da Igreja Católica universal, em comunhão com a liderança espiritual de Roma, sendo a maioria dos seus seguidores membros da Igreja Greco-Católica Ucraniana, a maior das Igrejas Orientais que reconhecem a autoridade do papa e do Vaticano. A Rússia acusa os católicos ucranianos de apoiarem a criação da nova Igreja Ortodoxa da Ucrânia, que declarou fidelidade ao patriarca ecumênico de Constantinopla, e não ao de Moscou.

Nesse cenário, é do interesse da Rússia garantir que o Vaticano mantenha a Igreja Greco-Católica Ucraniana sob "rédeas curtas", através de um rígido controle. A melhor maneira de alcançar esse objetivo? Tendo nas mãos uma moeda de troca, e deixando em suspense a possibilidade do convite ao papa para visitar Moscou. Diante disso, há poucas coisas que Francisco possa de fato fazer, exceto ser paciente e esperar. De um lado, temos um papa que, é importante lembrar, valoriza a "cultura do encontro" e de construir "pontes" no lugar de "muros", leve o tempo que levar. De outro, porém, temos um presidente russo que sabe que manter o Vaticano em stand by é uma poderosa fonte de influência que provavelmente a Rússia pretende reter pelo maior tempo possível.

*Thales Reis é jornalista, especialista no estudo das Escrituras Sagradas do Cristianismo pela Universidade de Harvard, em Diplomacia Pontifícia pelo Centro de Religião, Paz e Assuntos Internacionais da Universidade de Georgetown, dos EUA, e em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), de São Paulo. Têm expertise na cobertura de assuntos relacionados ao Vaticano e no estudo e análise das relações de poder estabelecidas pela Santa Sé com os diversos players do cenário internacional.



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