Religião

11/02/2021 | domtotal.com

A mulher no pontificado de Francisco: um avanço

Para o papa a defesa da dignidade da mulher deve ser efetiva

Papa Francisco conversa com a irmã Nathalie Becquart
Papa Francisco conversa com a irmã Nathalie Becquart (Wikipedia)

Élio Gasda*

Com pequenos gestos, um passo de cada vez, assim o pontificado de Francisco acena, de forma real, às mulheres e determina o papel delas na Igreja Católica: "protagonistas de uma Igreja em saída".

Uma francesa, irmã Nathalie Becquart, é a primeira mulher a ocupar a subsecretaria do Sínodo dos Bispos. O departamento é responsável pela preparação dos principais encontros dos bispos mundiais, onde temas diversos são discutidos e deliberados. O número de mulheres participantes nos últimos Sínodos é crescente, mas até agora a presença delas era meramente como especialistas ou auditoras. Becquart terá direito a voto. Uma porta se abre!

Desde o Concílio Vaticano II o papel da mulher tem estado presente em muitas reflexões do Magistério, mas Francisco é o primeiro papa a tentar colocar em prática o que registra a Mensagem do Concílio às Mulheres: "... a hora chegou em que a mulher adquire na cidade uma influência, um alcance, um poder jamais conseguido até aqui".

Becquart não é a primeira mulher nomeada por Francisco para a governança do Vaticano. Um dia de anunciá-la como subsecretária, nomeou a magistrada italiana Catia Summaria como a primeira mulher Promotora de Justiça do Tribunal de Apelações do Vaticano. Em 2019 foram sete de uma única vez. Seis religiosas e uma leiga consagrada passaram a ocupar o departamento que regula os institutos de vida consagrada e monástica da Igreja Católica. Anteriormente ocupado somente por homens. 

Em agosto de 2020 o pontífice nomeou 13 novos membros para o Conselho de Economia do Vaticano, entre eles seis mulheres laicas. O conselho criado pelo próprio Francisco tem como finalidade fiscalizar as estruturas e as atividades financeiras e administrativas da Santa Sé.

Um outro passo foi dado em 2016. O papa modificou o rito do lava-pés e autorizou a escolha de mulheres. Um ano antes ele mesmo lavou os pés de 12 detentos, entre eles seis eram mulheres. No início de 2021 modificou o parágrafo 230 do Código de Direito Canônico, estabelecendo que as mulheres tenham acesso aos ministérios do Leitorado e do Acolitado. Em muitos países, como no Brasil, o decreto apenas formaliza o que já é comum, a participação das mulheres na distribuição da comunhão e como ministras da palavra. Assim, veta de vez a postura de bispos conservadores em relação ao serviço das mulheres na Igreja.

Papa Francisco tem expressado seu incômodo com uma Igreja machista: "gosto de pensar que a Igreja não é o Igreja, é a Igreja. A Igreja é feminino, é mãe" e devemos "aprofundar a nossa compreensão disso". Já declarou inclusive seu sofrimento quando "o papel de serviço da mulher desliza para um papel de servidão".

A preocupação vai além da acolhida pela Igreja. A crescente violência contra as mulheres também está na pauta diária de Francisco. Em fevereiro pede que rezemos pelas mulheres que sofrem maus-tratos. Que sejam protegidas e o "grito de socorro" delas ouvido: "Não podemos olhar para o outro lado. Rezemos pelas mulheres que são vítimas de violência, para que sejam protegidas pela sociedade e o seu sofrimento seja considerado e escutado por todos". São chocantes as estatísticas da ONU Mulheres (2020): todos os dias, 137 mulheres no mundo são mortas por membros de suas próprias famílias; 1 em cada 3 mulheres já sofreu violência física ou sexual em todo o mundo. No Brasil só no primeiro semestre de 2020, 648 mulheres foram assassinadas (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

Para Francisco a defesa da dignidade delas deve ser efetiva: "Toda violência infligida às mulheres é uma profanação de Deus, nascido de uma mulher. A salvação para a humanidade veio do corpo de uma mulher: pela maneira como tratamos o corpo de uma mulher, compreendemos nosso nível de humanidade".

Que Francisco nos inspire a cuidar das mulheres para que elas nos ensinem a cuidar melhor da nossa humanidade: "Agradeço a todas as mulheres que, todos os dias, procuram construir uma sociedade mais humana e acolhedora".

Lentamente, com muitas contradições está se recuperando o lugar da mulher na Igreja. As mulheres precisam liderar dicastérios e conselhos, porque é aí que as decisões são tomadas. As nomeações aumentarão a visibilidade e a potência da voz feminina. Como participar de uma Igreja que não considera as mulheres como iguais? Que a Igreja viva os valores que propõe, principalmente quando se trata de questões de gênero. Como comunidade de iguais, a Igreja não necessita de hierarquias.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na Faje. Autor de: 'Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja' (Paulinas, 2001); 'Cristianismo e economia' (Paulinas, 2016)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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