Cultura

11/02/2021 | domtotal.com

Confissões de um mau leitor

Livros são parceiros alentadores na casa de um homem só

Antes ser um mau leitor num país de parvos do que um bom leitor, acomodado, num país de servos
Antes ser um mau leitor num país de parvos do que um bom leitor, acomodado, num país de servos (Unsplash/Lilly Rum)

Ricardo Soares*

Um tornozelo torcido, uma pandemia torcida e que se arrasta me leva mais ainda ao que sempre me atraiu: os livros. Mesmo que eu não resista aos apelos superficiais dos afetos fictícios das redes sociais, mesmo que mergulhe nas tais "maratonas" de séries e de filmes, é nos livros que acho alento aos meus desalentos atuais.

Por motivos que eu talvez não tenha escolhido, vivo só há alguns anos. Melhor a distância de um amor impossível que a companhia de um amor turbulento. Mas este é outro assunto que talvez só justifique um pouco o que os livros representem como alentadores parceiros dentro de uma casa de um homem só. Talvez um assunto mais afeito à tal nociva auto piedade, justo ela que infesta os livros que hoje são a tal boa companhia para quem quiser compartilhar dela.

O dito "ritmo da atualidade" não combina com o timing da leitura que necessita de concentração, interesse e desprendimento, sem ficar fuçando o maldito telefone a cada cinco minutos. Tudo isso vos digo para confessar que apesar de amar os livros sou um péssimo leitor. E explico.

Apesar de ler três ou quatro livros ao mesmo tempo – e isso, obviamente, faz com que eu demore mais para concluí-los – percebo que ao longo dos anos  esse hábito de gosto duvidoso fez com que eu não terminasse uma grande fornada de clássicos que são sim – cada vez me certifico mais disso – fundamentais. Só essas tristes lacunas já formam uma biblioteca fundamental que vai de Crime e castigo, de Dostoievski, ao Quixote, de Cervantes, passando pelos Sertões, do Euclides da Cunha, ao céu, purgatório e inferno de Dante em sua Divina Comédia.

A lista é grande e me envergonha. Mas não me envergonha a lista dos livros ligeiros e passageiros que li e que, segundo certo típico de crítica, são puro entretenimento apenas. Que assim seja, pois graças a essa mania pude conhecer também tanta gente boa como Stephen King e Murakami. Sem o menor preconceito.

Enfim, faço as confissões de um mau leitor pelo meu incomodo principalmente em não concluir tantas leituras, sobretudo a de muitos clássicos. Isso não me faz uma melhor ou pior pessoa. Talvez só me faça um homem mais ignorante. Mas, sinceramente, antes ser um mau leitor num país de parvos do que um bom leitor, acomodado, num país de servos. O ponto comum entre os leitores é que quem lê não vira gado.

*Ricardo Soares é escritor, roteirista, diretor de tv e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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