Religião

12/02/2021 | domtotal.com

Criação ou evolução, eis a questão

Descobrir a conexão dos seres humanos com os ancestrais da linha evolutiva não invalida a narrativa da criação amorosa da divindade

Criação ou Evolução não é uma questão conflitiva.
Criação ou Evolução não é uma questão conflitiva. (Unsplash/Eugene Zhyvchik)

Daniel Couto*

Essa água brilhante que escorre nos riachos e rios não é apenas água, mas é o sangue de nossos antepassados [...] O murmúrio das águas é a voz de meus ancestrais. (Cacique Seattle, Carta da Terra, 1855)

Muitas questões evocadas como "polêmicas científicas" são, na verdade, armadilhas causadas (muitas vezes grupos de intenção maliciosa) pela falta de entendimento da dinâmica e dos princípios sobre os quais teorias, conceitos, disciplinas e campos do saber se constroem. A energia que tais dilemas consomem poderia ser gasta, de maneira mais proveitosa, em debates multidisciplinares ou em proposições que oferecessem a oportunidade de os cientistas revisarem os seus pressupostos e responderem os seus interlocutores. O problema, de maneira mais geral, é que esse conflito se instaura na "opinião popular", uma doxa construída a partir de camadas históricas que não está disposta a dialogar e perceber que, por trás do incômodo gerado há um caminho frutuoso de compreensão.

Para tentar descortinar esse problema, que nos levará ao debate entre evolução e criação, precisamos entender que as ciências, apesar de seguirem o princípio do método, não se estabelecem sob o mesmo fundamento. A divisão de "áreas" da investigação que encontramos hoje no ambiente acadêmico é herdada da modernidade e foi impulsionada pela instrumentação da ciência e por uma valorização da leitura matemática dos fenômenos. Deste modo, os saberes que não se submetiam à linguagem matemática passaram a ser tratados de maneira diferente, à margem da "ciência pura". Essa ruptura nos levou a conquistas tecnológicas inimagináveis, mas distanciou a aplicabilidade da reflexividade. Hoje, para nós, sujeitos do século 21, fica claro que um engenheiro não precisa se questionar sobre o que são os números para conseguir projetar um belo e funcional edifício comercial. Do mesmo modo, aceitamos facilmente que um médico não precisa saber "equilibrar os humores" do paciente para que ele se cure de uma dor muscular (sim, eu sei que essa questão pode ser abordada de outra maneira). Acreditamos na pesquisa e acreditamos nos cientistas, afinal, podemos ver cotidianamente o resultado do avanço do conhecimento.

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Do outro lado da nossa equação – para utilizar a linguagem matemática – também conseguimos avançar nas questões reflexivas, nas descobertas históricas, na restauração do patrimônio e na compreensão do nosso lugar como sujeitos no planeta. A linguagem, a economia, a ética, a filosofia, a teologia e outras cadeiras da reflexão, encontraram narrativas para que pudéssemos compreender a drástica mudança que a humanidade sofreu desde as revoluções industriais. Mesmo que consigamos desenvolver, cada dia mais, os recursos que possuímos, é preciso que encontremos sentidos que preencham a nossa própria existência e a existência desses objetos. Ao descobrir algo até então "inconcebível", a análise reflexiva se coloca, prontamente, em ação para construir narrativas. De algum modo, a divisão das ciências não pode impor uma divisão da existência. Tal sabedoria já estava presente na antiguidade na qual, pelos textos que temos acesso, percebemos que a ciência (episteme) possui vários aspectos e nessa multiplicidade é que encontramos a verdade possível sobre os entes (seres/coisas).

Por esse viés, torna-se ainda mais claro que perguntar para um matemático sobre a implicação ética de um experimento em animais é tão inadequado quanto perguntar para um cientista político sobre a resposta imunológica de uma espécie em relação a um patógeno. Com a especialização dos cientistas uma barreira foi imposta, como se o aprofundamento em questões particulares impedisse o diálogo interdisciplinar. Por causa dessa complexidade, portanto, podemos achar que questões "simbolicamente semelhantes" possuem repostas conflituosas. Aqui chegamos ao nosso ponto: a narrativa da criação do mundo e a teoria da evolução se contradizem? Esse é um conflito real ou uma "pseduo-questão"? É possível um diálogo entre a teologia e os estudos evolucionistas?

Sobre esse ponto, primeiro é preciso ressaltar que ele é um dilema proposto muito mais pela tradição e pela opinião do que pelos pesquisadores. A tradição religiosa, reguladora do conhecimento na idade média e que sofreu um período crítico de ataques com o advento da ciência moderna, passou a defender algumas posturas do seu credo tomadas como fundamentais para a fé. Entre esses pontos, a perspectiva de que o cosmo foi criado por Deus em sua infinita bondade a partir do "nada" e, consequentemente, a humanidade, passou a ser pregada como uma verdade absoluta, enquanto os cientistas tentavam compreender a origem da humanidade a partir dos vestígios históricos, arqueológicos, textuais, biológicos e físicos. De um mesmo dado da percepção: a existência do mundo/cosmo e dos seres humanos, advém duas leituras com pressupostos diferentes. Pelo viés da espiritualidade e da narrativa religiosa a criação é fruto divino. Pelo viés naturalista e da análise experimental o universo é fruto do acaso e da evolução. Da busca pela chancela da "verdade" nasceu o "conflito".

Com o passar do tempo esses problemas foram enfrentados pelos pesquisadores e lapidados para que fossem compreendidos a partir do seu próprio recorte. A religião se distanciou de uma pretensa verdade física para compreender a dimensão espiritual e os evolucionistas se voltaram para a plausibilidade da sua narrativa no campo biológico. As tradições religiosas continuam a pregar a criação divina, como uma verdade da fé, entendendo que os livros sagrados não tratam da verdade física, mas da narrativa espiritual. A "ciência" defende suas narrativas sem precisar postular a existência ou não do divino, uma vez que essa questão não é fundamental para a construção de suas teorias. Neste sentido, não podemos falar em uma narrativa "mais verdadeira" do que a outra, mas que elas trabalham em campos diferentes.

Descobrir a conexão dos seres humanos com os ancestrais da linha evolutiva não invalida a narrativa da criação amorosa da divindade. Do mesmo modo, a particularidade dos seres humanos e sua diferença evolutiva em relação aos animais não descredibiliza a humanidade concebida como filhos de Deus. Criar um conflito sobre questões que parecem formuladas da mesma maneira, mas que se detém sobre pontos diferentes da existência é, além de um equívoco, uma desonestidade por parte daqueles que se aproveitam de tal confusão. Criar pseduo-questões faz com que os crentes e os não crentes se digladiem afastando, cada vez mais, a possibilidade da discussão frutuosa.

A obscuridade sob a qual esses agentes da confusão operam é tamanha que as próprias instituições, tanto religiosas, quanto respeitados cientistas, já se posicionaram sobre esse falso dilema e, mesmo assim, essa discussão permanece "inacessível". Manter uma relação de estranhamento entre fé e ciência é benéfico para aqueles que querem alienar, de ambos os lados, pois gera uma desconfiança que se espalha por todas as vertentes associadas àquela instituição. Cientistas passam a tratar a fé de modo infantilizado, como se a narrativa religiosa buscasse explicar biologicamente a origem da humanidade, do mesmo modo que os religiosos criam uma resistência à discussão proposta pelos cientistas porque acreditam que eles querem negar a existência de Deus e a experiência religiosa.

Quando entendemos que esse conflito não é real, as possibilidades de diálogo se alargam. É necessário superar a visão de que a igreja precisa se proteger do mundo, como se suas estruturas fossem ruir a qualquer menção da palavra ciência, e confiar mais na força da narrativa existencial proposta pelo Evangelho. É essa relação entre o Filho e os filhos que transforma a vida dos seres humanos em uma dimensão diferente da realidade. Quando novas questões aparecem, a fé, e as escrituras, não precisam se apresentar como um manual prático de tradução da natureza, mas como um relato de experiências de um povo que, na sua aliança com o divino, foi surpreendido pela mudança, enfrentou, superou e se transformou por elas. Quando a mulher que está à beira da mesa comendo migalhas faz com que Jesus repense o seu ministério, não estamos lidando com uma situação na qual ela pretende ensinar a verdade das coisas para o divino, mas no encontro entre duas existências que, mutuamente, encontram um problema e se deixam transformar por ele.

Falsos dilemas nos colocam em situação de paralisia. Eles criam inimigos inexistentes, impossíveis de serem derrotados pela sua própria natureza. Aqueles que se nomeiam como detentores do saber, como arautos da verdade inquestionável da fé, estão exatamente nessa postura: paralisados na sua rigidez. Sabemos que a experiência do divino, e da ciência, é a experiência do movimento. Os seres humanos vivem os ciclos da vida, o nosso planeta vive os ciclos naturais, o universo se movimenta ad infinitum. A fé é diálogo. Crer é estabelecer uma relação entre o que somos e aquele que é totalmente outro. A crença é um atributo comum da fé e da ciência porque é um atributo comum da humanidade. Acreditamos no divino, acreditamos no método, acreditamos na existência, acreditamos na linguagem. Criação ou Evolução não é uma questão conflitiva. É possível encontrar harmonia entre vozes que soam em frequências diferentes, basta entender que "o ser de diz de muitas maneiras".

*Daniel Couto é doutorando em Filosofia pela UFMG



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