Religião

12/02/2021 | domtotal.com

Teologia sem diálogo com outras ciências, é teologia?

A teologia que não se coloca na posição de diálogo com outras ciências se torna um saber fraco e pobre

Diálogo entre teologia e ciências precisa sair da academia e alcançar as comunidades eclesiais
Diálogo entre teologia e ciências precisa sair da academia e alcançar as comunidades eclesiais (Unsplash/Iñaki del Olmo)

César Thiago do Carmo Alves*

A teologia é um saber próprio e autônomo. No entanto, por muito tempo, precisamente no período medieval, ela era a rainha da qual as ciências dependiam. Porém, com advento da ciência moderna com Nicolau Copérnico (1473-1543), Galileu Galilei (1564-1642) e Isaac Newton (1643-1727), nasceram os primeiros conflitos entre teologia e ciência. A teologia estava acostumada com o regime da cristandade e por conta disso, oferecia todo um sistema de representação da realidade sob a égide da fé. A fé era o princípio integrador e totalizador.

As ciências modernas mudaram de paradigma. Inverteram o método. O ponto de partida era a experiência verificável, matematizável. Buscavam estudar os fenômenos desde a perspectiva das leis físicas. Suas verdades tinham base na racionalidade da experiência que se deixa repetir e verificar.  Assim, as certezas não se fundamentavam nem na autoridade das Escrituras, nem na dos filósofos, mas tão somente em sua verificação experimental. Nesse cenário a teologia não cumpria as condições para ser considerada ciência e, assim, era rejeitada. Por outro lado, a teologia imputava ao orgulho humano a pretensão de absoluta autonomia. Atualmente, a teologia reconhece a autonomia das outras ciências. Por outro lado, é possível dizer que o saber teológico é ciência no sentido lato, uma vez que tem método e objeto de investigação.

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Como saber teológico, como próprio e autônomo, para se desdobrar e se realizar conceitualmente necessita dos outros saberes. A teologia consiste num discurso humano sobre Deus. Para elaborar esse seu discurso lança mão dos recursos da inteligência humana. Assim, ela pode falar do Mistério. Porém, o mistério de Deus só se mostra por meio do mundo e da história. É justamente para apreender o mistério de Deus no mundo e na história é que a teologia reconhece a ajuda dos outros saberes, das ciências. Fixar-se somente no conhecimento divino dispensando as outras ciências, não estabelecendo um diálogo com elas leva o risco de cair num sobrenaturalismo ou espiritualismo. Faz com que a reflexão teológica, embora autônoma, se torne pobre. Não é de se admirar quando certos religiosos ou grupos de igreja falam de Deus de um modo solipsista, desprezem outras experiências e outros conhecimentos. Fecham-se numa ignorância absurda, tornando-os incapazes de estabelecer um diálogo honesto e verdadeiro com outras perspectivas e, quiçá, deixar-se literalmente converter-se de suas posições empobrecidas por não considerar o avanço cientifico das outras áreas de conhecimento.

A título de exemplo, no atual cenário, constata-se uma enorme dificuldade de determinados setores da Igreja em dialogar com as questões de gênero. É muito mais fácil usar o rótulo da chamada ideologia de gênero, do que se colocar numa verdadeira posição dialógica, no intuito de refletir junto às ciências que abordam tal questão, para iluminar o saber teológico, a fim de que se possa pensar o gênero desde a revelação de Deus e do mistério pascal. São Boaventura (1221-1274), no seu tratado intitulado Redução das artes à teologia, afirma que todos os conhecimentos servem à teologia. E ela assume os exemplos e usa os vocábulos pertencentes a todo o gênero de conhecimento.

A teologia que não se coloca na posição de diálogo com outras ciências se torna um saber fraco e pobre. Seu saber deve ser necessariamente orgânico, isto é, partindo de seus princípios próprios, que são da ordem do transcendente, se apropriar do resultado dos outros saberes, como foi o caso do platonismo assimilado por Santo Agostinho (354-430) e do aristotelismo por Santo Tomás de Aquino (1225-1274), e a partir daí dá intelecção da fé. A relação entre teologia e ciências consiste num verdadeiro imperativo. Santo Tomás de Aquino ensina, na Suma Teológica, que essa relação deve ser como a do chefe da nação com o exército, ou do arquiteto com o pedreiro. Tanto o chefe da nação como o arquiteto devem respeitar a técnica dos seus comandados.

Felizmente, constata-se que esse diálogo entre teologia e ciências encontra cidadania na maioria dos ambientes teológicos acadêmicos. Urge a necessidade de traduzir esse diálogo em linguagem pastoral, para que as comunidades possam beber dessa fonte e se enriquecer no conhecimento de Deus.

*César Thiago do Carmo Alves é doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas. É membro do grupo de pesquisa Teologia e diversidade afetivo-sexual da FAJE.



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