Religião

12/02/2021 | domtotal.com

O verdadeiro obstáculo para a reforma financeira da Igreja é a cultura

Francisco não quer só coibir crimes, mas moralizar administração

Dom Ettore Balestrero, então núncio apostólico na Colômbia, e Domenico Giani, principal guarda-costas do papa, leem um jornal enquanto caminham pelas ruas no centro de Bogotá em preparação para uma visita papal em maio de 2017
Dom Ettore Balestrero, então núncio apostólico na Colômbia, e Domenico Giani, principal guarda-costas do papa, leem um jornal enquanto caminham pelas ruas no centro de Bogotá em preparação para uma visita papal em maio de 2017 (CNS)

John L. Allen Jr.*
Crux

Em praticamente qualquer esforço de reforma, geralmente há dois lados, um dos quais é óbvio e relativamente fácil de abordar se houver vontade de fazê-lo; o outro, muito mais evasivo e resistente a mudanças.

O primeiro desses alvos, pensando em uma reforma, é a corrupção flagrante e evidente, e o outro é formado por pressupostos culturais e padrões de comportamento que geralmente não são percebidos como criminosos ou mesmo imorais. Parece que a reforma financeira do papa Francisco do Vaticano atingiu esse segundo estágio, e é uma questão em aberto se terá sucesso e quantos outros contratempos podem surgir ao longo do caminho.

O último caso em questão é do arcebispo Ettore Balestrero, ex-funcionário da Secretaria de Estado do Vaticano e atualmente embaixador do papa na República Democrática do Congo. Esta semana, os advogados de Balestrero negociaram um acordo judicial com os promotores na cidade italiana de Gênova para encerrar um caso de lavagem de dinheiro envolvendo, entre todas as coisas, a importação ilegal de carne argentina para a União Europeia.

Como parte desse acordo judicial, cerca de $ 8,5 milhões de dólares que foram originalmente congelados pelos investigadores, acabaram sendo confiscados, tornando-se propriedade do Estado. O acordo foi negociado entre promotores e advogados que representam os dois irmãos Balestrero e ainda precisa ser aprovado por um juiz, mas a maioria dos observadores do caso espera que continue.

Para sermos mais claros, a acusação foi contra Balestrero e seu pai, Gerolamo, junto com seu irmão Guido, não contra o Vaticano. Tanto quanto qualquer um pode dizer, o Vaticano não figura na história, exceto na medida em que Balestrero é um ex-funcionário do Vaticano e atualmente um enviado papal. No entanto, em virtude do papel de Balestrero, a situação ilustra os desafios que Francisco enfrenta. (Como nota de rodapé, Balestrero gosta de se referir a si mesmo como "meio americano" porque sua mãe, Donatella Pertusio, cresceu nos Estados Unidos e fala um inglês quase perfeito).

Em essência, a acusação é que durante a década de 1990, Gerolamo Balestrero, que trabalha com exportação/importação, contornou os limites da UE para a importação de alimentos do exterior, fazendo com que a carne argentina fosse enviada para a Espanha e, de lá, vendida na Itália e em outros lugares. Supostamente, o acordo rendeu milhões de euros de lucro, que, pelo visto, foi reciclado e lavado em parte por meio de contas pertencentes ao arcebispo. A investigação começou quando vários milhões de euros foram transferidos de uma dessas contas para seu irmão Guido em 2015.

Balestrero, no entanto, insiste que não fez nada de errado. O funcionário do Vaticano disse aos repórteres que, a certa altura, seu pai estava preocupado com sua saúde e queria distribuir a herança planejada para os dois irmãos com antecedência. O dinheiro foi transferido para sua conta, disse Ballestrero, e então ele transferiu a parte de seu irmão, cerca de $ 4,8 milhões de dólares, para sua conta.

"Se meu pai pensasse que estava fazendo algo ilegal", disse o arcebispo, "certamente não teria providenciado a transferência em seu próprio nome e com um recibo público autenticado". Entretanto, se ele é inocente, por que aceitou o acordo judicial, incluindo abandonar milhões em dinheiro da família? "A escolha se deve a vários fatores", disse Balestrero em um comunicado a organizações de mídia. "Entre eles, talvez o mais importante seja devolver a serenidade à família do meu irmão Guido e à minha situação eclesial. Queria economizar tempo e energia para minha missão espiritual e, como sacerdote, sinto a obrigação de devotar minha mente e minha vontade à minha missão e não ao dinheiro".

Curiosamente, uma vez Balestrero foi visto como um dos líderes na imprensa para a reforma. Ele chefiou a equipe nomeada pelo papa Bento XVI para supervisionar a cooperação inicial do Vaticano com a Moneyval, a unidade de combate à lavagem de dinheiro do Conselho da Europa, defendendo a decisão do pontífice de submeter o Vaticano a tal revisão externa contra colegas de dentro que consideraram isso uma traição da soberania e da autonomia do Vaticano. Vemos, então, como Balestrero ilustra a dimensão cultural da reforma financeira.

Em famílias italianas legendariamente unidas, simplesmente não se fazem muitas perguntas sobre de onde vem o dinheiro ou como foi obtido. Existe o benefício da dúvida, especialmente em relação aos pais e irmãos, bem como um forte senso de solidariedade familiar. Quase ninguém aqui experimenta esse viés cultural em favor da lealdade à família como um vício; pelo contrário, é geralmente considerado uma virtude nacional definidora.

Pode-se fazer uma analogia com as acusações de má conduta que recentemente custaram ao cardeal italiano Angelo Becciu seu cargo de prefeito da Congregação para as Causas dos Santos e seus privilégios como cardeal. Lá também, o suposto delito envolveu complicações financeiras com membros da família.

Quando o papa Francisco convocou Becciu para uma reunião tensa no final de setembro em que sua destituição foi anunciada, o pontífice apontou vários motivos para a decisão, incluindo acusações de que Becciu havia desviado cerca de US$230 mil como pagamentos de propinas para a embaixada do Vaticano em Cuba, onde serviu como embaixador entre 2009 e 2011, para uma empresa de propriedade de um de seus irmãos. Ele também foi acusado de doar fundos do Vaticano para uma instituição de caridade em sua terra natal, a Sardenha, administrada por outro parente.

Em uma entrevista coletiva organizada às pressas no dia seguinte, Becciu foi inflexível que sua consciência estava limpa. "Desculpem, mas eu não conhecia mais ninguém", disse, referindo-se ao tempo que passou em Cuba e à necessidade de reformas na embaixada. "Eu não vejo um crime nisso".

Se as ações de Balastrero ou Becciu foram crimes sob a lei do Vaticano ou da Itália pode ser discutível, mas mesmo se não fossem, é inteiramente possível que não atendessem ao padrão católico tradicional para o pecado subjetivo, que é a intenção de fazer o errado. Ambos os homens podem ter sentido que não estavam fazendo mais do que honrar obrigações para com a família, que dentro da sua cultura o que fizeram era um dever primordial.

Em suma, o papa Francisco não está apenas tentando promulgar novas leis e reprimir o crime. O sumo pontífice está tentando reconectar toda uma cultura, pelo menos aqui na Itália (de onde vêm tantos dos promotores do Vaticano), para ver a transparência e a responsabilidade como virtudes que se aplicam mesmo quando a família e os amigos estão envolvidos. Por mais óbvio que esse ponto possa parecer, o pontífice está nadando contra séculos de formação cultural para tentar mantê-lo firme.

Da próxima vez que você se sentir frustrado com o ritmo lento das reformas, isso pode ser algo a considerar. A cultura é rainha e, como as monarquias em todos os lugares, é geneticamente relutante em aceitar a mudança.

Publicado originalmente por Crux


Tradução: Ramón Lara

*Siga John Allen no Twitter em @JohnLAllenJr



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!