Religião

15/02/2021 | domtotal.com

A voz do conservadorismo contra a Campanha da Fraternidade

Polêmicas levantadas sobre a campanha exibem ideologia política travestida de fidelidade à Igreja

Presidência da CNBB precisou emitir nota para esclarecer controvérsia criada por grupo conservadorista
Presidência da CNBB precisou emitir nota para esclarecer controvérsia criada por grupo conservadorista (Vatican Media)

Vinicius Paula Figueira*

O título do artigo desta quinta vai ao encontro da polêmica ao redor de um vídeo veiculado pelas mídias sociais, originário do Centro Dom Bosco – RJ, a partir de um representante seu que por 26 minutos debate, questiona e aponta com preconceitos alguns objetivos que tecem a Campanha da Fraternidade deste ano, cujo tema é "diálogo e fraternidade". Ao que parece, o então Centro, sustentado pelos esteios conservadores, não digeriu a proposta da Campanha, razão que o levou a colocar para fora as indigestões e, ainda assim, regou entre os católicos a divisão. Por alguns lados, começaram a sair iniciativas de boicotes à Campanha, negacionismo e por aí vai. Na mesma hora, os salesianos, discípulos de dom Bosco, disseram que o vídeo carregado de preconceitos não representava a Igreja e nem os salesianos, depois, vieram bispos e cardeais reforçando e lançando luz às falas desgovernadas do jovem. Mas, porque a Campanha da Fraternidade deste ano incomodou tanto aos grupos conservadores da Igreja? O que ela tem de errado? O que está por trás dessa onda de interrogações à CNBB? É sobre isso que vamos conversar agora.

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Bom, o tema da Campanha da Fraternidade deste ano propõe, em harmonia com as Igrejas Cristãs (Conic), a "Fraternidade e diálogo" e o lema "Cristo é a nossa Paz: do que era dividido, fez uma unidade". A propósito, o teor versa o ecumenismo e introduz a todos a conversa com as diferenças do tempo presente. Mas a polêmica, encharcada de preconceitos, ganhou "relevância" a partir dos conservadores. O texto base afirma em um de seus trechos que "é importante salientar que as relações sociais de classe, de gênero, de raça, de etnia estão historicamente interligadas". Em seguida, afirma que um "grupo social que sofre as consequências da política estruturada na violência e na criação de inimigos, é a população LGBTQI+", e cita dados do 'Grupo Gay da Bahia' apresentadas no Atlas da Violência 2020 para falar sobre a violência contra essas pessoas.

Qual o "erro do texto"? À priori, a Igreja, sob o cajado de Francisco, vem se aproximando cada vez mais dos temas reais e vigentes. E isso tem sido causa de repugno e de alergia para alguns que ainda estão mais enraizados na doutrina, no tradicionalismo, do que no evangelho. A afeição desses grupos a um estilo de Igreja "de costas" para o povo, para as realidades, para o presente da história, revela um perfil desconfigurado da sociedade, dos costumes e da realidade. Nem a Igreja, nem tampouco a Campanha da Fraternidade, tem o papel de juízo, mas de diálogo. O problema é que para alguns, conversar, dialogar, representa uma anulação de crenças, magistério e tradições.

Por fim, então, o que está por trás desses pontos de interrogações, sentenças e afins? Está aquilo que nós mais estamos vendo nos tempos presentes, e não foi à toa que a Campanha da Fraternidade toca nesse ponto: a polarização, a ideologia famigerada e o cancelamento do outro que pensa diferente, que se comporta diferente. Sim, a polarização é um vírus bem pior que o Coronavírus, pois ela nos isola nas nossas bolhas, nos segrega, divide, e gera aquilo que chamamos de sociedade fragmentada. De um lado, os mais católicos, os mais cristãos, os mais perfeitos e do outro os menos, os incoerentes, os escandalosos, e por aí vai.

A polêmica da Campanha da Fraternidade foi, nada mais nada menos, que um curto circuito. Contudo, muitos só despertam com um choque, choque de realidade, choque que é fruto de correntes de energia diferentes, que nos levam a arregalar os olhos e sentir por um tempo, os efeitos do embate. Se não tocar na ferida, ela aumenta e às vezes até mata. A Campanha da Fraternidade deste ano, precisa gerar polêmica, se ela não gerar, não produzirá os efeitos iniciais de conversão. A Campanha da Fraternidade precisa incomodar, porque para muitos ela é/será espelho de muita gente, e quem sabe, muitos se verão e se incomodarão com si próprios.

A Campanha da Fraternidade precisa "dividir" para produzir os efeitos necessários. Jesus de Nazaré já chegou a dizer que ele era sinônimo de divisão. Portanto, a Campanha só evidenciou um problema que ela deseja "atacar", a divisão, a intolerância e a falta de sensibilidade, para nos ligar, unir ao diferente. Será uma campanha para causar... sobretudo, espantos, transformação e unidade.

Padre Leonado Dall Osto explica o que há por trás das críticas à CF21

*Vinicius Paula Figueira é graduado em comunicação social, atua como coordenador paroquial da comunicação (Pascom) e trabalha com Publicidade e Propaganda.



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