Religião

16/02/2021 | domtotal.com

Tempo da Fraternidade

Aos cristãos e cristãs interessa viver esse tempo como oportunidade para rever as escolhas cruciais da existência na liberdade de refazer suas opções

É preciso recordar uma vez mais que não há fé no Deus de Jesus que passe sem o encontro e o reconhecimento do outro como semelhante, como um irmão ou irmã
É preciso recordar uma vez mais que não há fé no Deus de Jesus que passe sem o encontro e o reconhecimento do outro como semelhante, como um irmão ou irmã (Shalom de León / Unsplash)

Tânia da Silva Mayer*

Às portas do tempo da quaresma, os cristãos e as cristãs são exortados a olhar para sua fé e suas ações a fim de poderem carregar o nome que os identifica no mundo. Por isso, o tom deste tempo é a conversão que significa justamente uma mudança nos rumos aos quais se tem conduzido a vida de fé na relação com os outros e com Deus no mundo. Mas, para uma verdadeira mudança, a conversão precisa brotar de dentro, do interior, do mais íntimo de cada pessoa. Trata-se da conversão das crenças e das práticas, não somente na vida comunitária e eclesial, mas na vida social e na postura cidadã. É por isso que o profeta Joel proclama: "rasgai o coração, e não as vestes" (2,13).

Nesse aspecto, percebe-se objetivamente que a vida de fé ou a espiritualidade cristã, se se pretendem cristãs, fogem às práticas religiosas revestidas de muita aparência e de pouquíssima transformação interior. O cristão ou cristã que se converteu a Deus necessariamente é alguém que pratica o bem e a justiça, que se posiciona ao lado dos pobres na luta por uma vida verdadeiramente digna, que vive a solidariedade e, principalmente, não flerta com a indiferença e o egoísmo. Nesse aspecto, é preciso recordar uma vez mais que não há fé no Deus de Jesus que passe sem o encontro e o reconhecimento do outro como semelhante, como um irmão ou irmã.

Por essas razões, pode-se suspeitar das religiosidades de performances que até reivindicam a renovação do coração, mas numa atitude individualista que ressoa pouco ou nada numa concreta mudança de vida a partir da radical proposta de fraternidade. Tais "espiritualidades", embora repercutam discursos muito sedutores, giram muito mais ao redor de uma exterioridade enganosa do que de uma interioridade que se voltou para Deus no mesmo movimento que se voltou para os próximos acolhendo suas diferenças. Por isso mesmo é um mentiroso quem ostenta uma fé desvinculada de um compromisso social, um compromisso com as pessoas e com a casa comum.

Retomando a práxis de Jesus, veremos que o Evangelho, a boa notícia, consiste exatamente no quanto Deus é amor e misericórdia e o quanto está disposto a acolher cada pessoa que se volta para ele. Nesse aspecto, Jesus nos ensina a impossibilidade de nos voltarmos a Deus à revelia dos acontecimentos históricos, das situações concretas vividas pelas pessoas, sobretudo as simples e excluídas. É por isso mesmo que no coração do Evangelho estão todos os seres humanos, a criação inteira conclamando a mútua acolhida e encontrando a acolhida do Deus humanado em Jesus.

Precisamente, é Jesus que nos ensina que a vida de fé não está desenraizada da vida cotidiana e do acolhimento fraterno entre os irmãos. É nessa esteira que as Igrejas cristãs no Brasil convidam os cristãos e cristãs a viverem esse tempo de quaresma como um tempo de fraternidade. A conversão a Deus é motivada pelo direcionamento do olhar respeitoso e amoroso aos irmãos e irmãs que seguem a Jesus de maneiras diferentes ou até mesmo àqueles que não o seguem. De igual modo, esse tempo de fraternidade pede a atenção do olhar e o acolhimento daqueles que são os descartados, os abandonados à sorte da vida, os que se encontram nos últimos lugares igualmente à espera do Reino no qual não há segregações e exclusões.

Aos cristãos e cristãs interessa viver esse tempo como oportunidade para rever as escolhas cruciais da existência na liberdade de refazer suas opções. Assim, urge rasgar o coração e se deixar interpelar: seguir Jesus e viver uma nova vida de fraternidade ou insistir em recusar o encontro com o Senhor, que se deixa encontrar em cada pessoa, em cada criatura e nas suas diferenças?

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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