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16/02/2021 | domtotal.com

Tempos difíceis

A Holanda está vivendo tempos de confinamento, onde se pede para sair apenas quando há necessidade

Heusden, na Holanda,  sob a neve
Heusden, na Holanda, sob a neve (Lev Chaim)

Lev Chaim*

Inverno! Neve! Muito Frio! E tempos de corona! Combinação pior, talvez, só a fome ou a guerra. Não necessitamos mais dos imunológicos para saber que esta pandemia se espalha facilmente no inverno e que o vírus sobrevive a uma temperatura de -80º. A Holanda está vivendo tempos de confinamento, onde se pede para sair apenas quando há necessidade. Mas com tudo congelado, os holandeses se deram um tempo e saíram em massa, para patinar no gelo dos lagos e rios.

Em algumas cidades grandes, a polícia andou multando muitos pela aglomeração, mas na pequena cidade de Heusden, com apenas 1,4 mil habitantes e mais alguns dos arredores, a coisa ocorreu mais leve e sem multas. Eu, com as minhas botas de neve, fui até lá para examinar tudo de perto, já que o gelo não irá durar por muito mais tempo. Conversando com um e com outro, a uma distância social permitida, você vai reparando os estragos de meses de isolamento.

De um casal de amigos, ouvi que o seu filho mais velho estava com câncer avançado de próstata e que havia sido operado. Agora era esperar os resultados dos exames para ver se não houve metástase. E o filho tinha apenas 47 anos. Enquanto o esposo patinava no lago, a senhora nos informava os detalhes da doença de seu filho. E quando nos contou tudo, ela mesmo disse que a vida era, na verdade, uma roleta russa e que ninguém sabe o que vai encontrar pela frente.

Ao ouvir tudo isto, fiquei pensativo e senti vergonha de estar um pouco deprimido por todo esse isolamento. Mas o que fazer? Não sou só eu, mas milhões de outros em todo o mundo que lutam contra os efeitos colaterais deste confinamento forçado e necessário para tentar diminuir o número de contágio pelo vírus. Com isso, diminuir o número de pacientes nos hospitais e, assim, poder tratar de outras doenças urgentes, a espera de especialistas para salvar vidas. Tempos difíceis e incertos.

Em casa, assisto alguns noticiários, alguns programas de entrevistas, mas filtro muitas coisas que não acrescentam algo à minha saúde mental. E leio a conta-gotas os jornais e procuro ler livros, mas, nesses tempos atuais, está cada vez
mais difícil de se concentrar numa leitura séria. Parece tudo questionável e perecível.

Numa das edições do jornal holandês Trouw deste último final de semana, dois artigos me fizeram questionar a saúde mental de alguns grupos de pessoas. O primeiro citava que um bando de jovens islamitas de Amsterdã, do bairro Ijburg, ameaçava um pastor da igreja protestante por ele ser homossexual. A coisa já vinha há algum tempo acontecendo e agora piorou. O pastor Alexander Noordijk, foi ameaçado fisicamente e não se sente mais seguro em sua própria igreja. A pressão foi tanta que ele fez um boletim de ocorrência na polícia. E vejam vocês: estamos na Holanda, minha gente, o país que se gaba de ser moderno e social.

O segundo artigo foi sobre a unidade de envenenamento do presidente russo, Vladimir Putin, que já fez várias vítimas entre os seus opositores políticos, situada num bairro periférico de Moscou, pertencente ao serviço secreto russo, conhecido hoje pela sigla FSB, antiga KGB. Este é conhecido como Instituto Criminalista da polícia secreta de Putin. Vários políticos da oposição russa sofreram tentativas de envenenamento por esse gás mortífero, cuja fabricação é exclusividade do Kremlin. Dois deles conseguiram se recuperar e o mais famoso deles, Aleksej Navalny, é o principal opositor do presidente russo. Ele foi preso na Rússia após ter voltado ao país, vindo da Alemanha, para onde foi após ter sofrido o atentado com gás venenoso. O Kremlin nega tudo, mas o título do artigo já diz tudo: A unidade especial de envenenamento de Putin não tem escrúpulos

Com tudo isto ocorrendo, até parece que o mundo perdeu as suas normas e valores, não é mesmo?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da Fala Brasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Dom Total.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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