Religião

16/02/2021 | domtotal.com

Cardeal Ladaria: Congregação para a Doutrina da Fé 'não é mais a Inquisição'

Segundo prelado foco principal do organismo é transmitir o ensinamento dos apóstolos

O então arcebispo Luis Ladaria Ferrer, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, chega para um encontro com o papa Francisco no Palácio Apostólico do Vaticano em 11 de maio de 2018
O então arcebispo Luis Ladaria Ferrer, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, chega para um encontro com o papa Francisco no Palácio Apostólico do Vaticano em 11 de maio de 2018 (CNS/Paul Haring)

Carol Glatz
CNS

Fundada há quase 500 anos, a Congregação para a Doutrina da Fé não é mais "a Inquisição" – antes de tudo, seu foco principal é transmitir os ensinamentos dos apóstolos, disse o prefeito do organismo vaticano.

"Nossa missão é promover e proteger a doutrina da fé. É uma tarefa que sempre será necessária para a Igreja. Temos o dever de transmitir os ensinamentos dos apóstolos à próxima geração", disse o cardeal Luis Ladaria Ferrer, prefeito da congregação, em uma entrevista para o Vaticano News em 1º de fevereiro.

Chamada de Sagrada Inquisição Romana e Universal quando foi instituída em 1542, a congregação era inicialmente um tribunal exclusivamente para casos de heresia e cisma, mas logo suas responsabilidades foram expandidas para incluir "tudo relacionado direta ou indiretamente à fé e à moral", de acordo com o site da Congregação para a Doutrina da Fé.

Das muitas pessoas sob o olho da Congregação nos primeiros dias, o personagem mencionado com mais frequência é o cientista italiano Galileo Galilei, que foi considerado "veementemente suspeito de heresia". Contudo, São João Paulo II emitiu uma declaração em 1992, reconhecendo o erro do julgamento de Galileu.

Por outro lado, o Índice de Livros Proibidos foi originalmente confiado à Inquisição até se tornar a Congregação para a Doutrina da Fé, três séculos depois, em 1917, quando algumas de suas funções foram novamente devolvidas à Sagrada Congregação do Santo Ofício – novo nome da Inquisição após ser reorganizada pelo papa Pio X em 1908.

Foi novamente reformada em 1965 por São Paulo VI e rebatizada de Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé. E o Índice de Livros Proibidos também foi revogado.

Ladaria disse ao Vaticano News: "O passado de nossa congregação ainda pesa muito, pois nem sempre reconhecemos as profundas mudanças que ocorreram na Igreja e na Cúria Romana nos últimos tempos."

"Não somos mais a Inquisição; o índice não existe mais", disse o prefeito.

"O que se chamou de 'preocupação com a doutrina correta' surgiu antes do Santo Ofício, e já existia no Novo Testamento", podendo ser constatado nos muitos concílios e sínodos realizados desde então, acrescentou Ladaria.

"Certamente, a forma concreta de realizar esta tarefa mudou ao longo dos séculos e podemos imaginar que continuará mudando", disse o cardeal. "Mas a preocupação com a fidelidade à doutrina dos apóstolos sempre permanecerá."

Segundo o site da congregação, os métodos utilizados para o exame doutrinário foram instituídos nas reformas de 1965, ressaltando que "a disposição positiva de corrigir os erros, junto com a proteção, preservação e promoção da fé prevaleceu sobre a tendência punitiva da condenação".

Em 2001, São João Paulo II deu à Congregação para a Doutrina da Fé a autoridade para lidar com casos de acusações de abuso sexual de menores pelo clero e uma versão atualizada dessas normas foi promulgada pelo papa Bento XVI em 2010.

As mudanças permitiram ao Vaticano identificar e julgar os casos relatados e emitir sanções mais rapidamente do que antes.

A respeito deste aspecto do trabalho da congregação, Ladaria disse: "Devemos estudar e resolver os muitos casos de abuso de que tomamos conhecimento".

"E no trato desses casos, conscientizamos e encorajamos a confiança na Igreja, sobretudo das pessoas envolvidas, mostrando que na Igreja não há impunidade", disse o prefeito.

Ladaria apontou que as "visitas ad limina", que bispos de todo o mundo fazem periodicamente ao Vaticano para informar sobre o estado de suas dioceses, "são fundamentais para aumentar a consciência do problema entre os episcopados dos vários países. Infelizmente, nos últimos meses, por causa da pandemia, tivemos que suspender essas reuniões".

Mesmo com seu foco na "doutrina", o cardeal disse que a Congregação ainda busca responder ao chamado do papa Francisco para estender a mão e responder às "periferias" modernas e estar perto dos pobres e marginalizados.

"Existem periferias de muitos tipos. As pessoas que devemos ouvir, os problemas que devemos resolver tocam as periferias reais, talvez não tão visíveis como outras, mas não menos reais e dolorosas. Não esqueçamos que em não poucas circunstâncias as vítimas de abuso estão entre os mais pobres", apontou o prefeito.

Publicado originalmente por CNS


Tradução: Ramón Lara



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