Brasil

18/02/2021 | domtotal.com

O desfile do folião só

Posso deduzir que aquele homem é um ser ainda vivente à espera de ajuda emergencial

O que tento agora é descobrir o que está pensando aquele homem infeliz, mergulhado em tristeza numa terça-feira que antes era gorda e emagreceu numa anorexia repentina
O que tento agora é descobrir o que está pensando aquele homem infeliz, mergulhado em tristeza numa terça-feira que antes era gorda e emagreceu numa anorexia repentina (Jonathan Kho / Unsplash)

Afonso Barroso*

Da minha janela no terceiro andar vejo, vindo ao longe na rua deserta, um folião. Não parece feliz, porque não dança, não brinca como os foliões tradicionais. Mas canta. Não, não é música de carnaval. Nem samba-enredo, nem marchinha. Tento e não consigo identificar as palavras que saem da garganta daquela figura estranha. Parece uma música daquelas antigas das bandas militares. Sim, acho que é uma marcha militar. O homem na verdade desfila como se fosse um recruta ou um capitão de fragata à frente de uma imaginária parada cívica.

Curioso e atento, como todo espectador que se vê assim, pego de surpresa, acompanho com meus olhos (também não muito alegres) aquele homem solitário a marchar pela rua deserta de um Carnaval que não há. O primeiro carnaval de todos os tempos sem graça e sem folia. O primeiro emudecido, desfigurado por uma pandemia mortal. O primeiro dominado por um vírus vindo da Oriente e alimentado pela insensatez do Planalto Central desta nossa pátria antes amada, idolatrada, salve, salve.

O que tento agora é descobrir o que está pensando aquele homem infeliz, mergulhado em tristeza numa terça-feira que antes era gorda e emagreceu numa anorexia repentina, sem cores, sem sorrisos, sem pierrôs ou colombinas, sem confetes ou serpentinas.

Estranha criatura essa que ali vem e canta pela rua como se só ela e a rua deserta existissem no mundo. Nunca saberei de onde veio e para onde vai. Mas ali desfila o folião solitário, cada vez mais próximo do meu camarote caseiro. Agora já posso ver suas feições. É a própria melancolia em forma de gente. Vejo também que veste uma fantasia. De mendigo. A calça é larga e rota, a camisa aberta ao peito parece suja e surrada. Os braços finos estão retesados e a mão direita segura o cabo de uma pequena bandeira desbotada. Uma bandeira do Brasil.

Posso deduzir que o homem é um ser ainda vivente à espera de alguma ajuda emergencial. A combinação da bandeira meio apagada com as vestes rasgadas e as feições pálidas daquele estranho folião indicam tratar-se mesmo de um pedinte, habitante das ruas. Não é fantasia o que o cobre, mas a sua melhor roupa. Pobre homem fantasiado de brasileiro e promovendo seu desfile solitário.

Ao chegar bem embaixo da minha janela, o maltrapilho para. Interrompe seu canto e ergue os olhos na minha direção. Me encara por uns instantes, agita a bandeira, sorri um sorriso desdentado e grita:

- Eu tenho orgulho de ser brasileiro. O caro amigo a me espiar, por acaso, não tem?

Não espera resposta. Apenas retoma sua marcha triste. E canta e se vai levando consigo o seu carnaval.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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