Religião

18/02/2021 | domtotal.com

Wilton Gregory, 1º cardeal negro dos EUA, fala sobre sua experiência com racismo

'Agora, enquanto estou vestido formalmente, sou tratado com muito respeito e carinho. Mas se eu tirar minhas vestes de clérigo para sair, estou no mesmo barco de todos os outros homens afro-americanos em Washington'

O arcebispo de Washington, Wilton Gregory, em imagem de 12 de abril de 2020 na capital dos Estados Unidos
O arcebispo de Washington, Wilton Gregory, em imagem de 12 de abril de 2020 na capital dos Estados Unidos (Eva Hambach/AFP)

Maura Hohman
Today

Wilton Gregory fez história no outono passado, quando se tornou o primeiro afro americano a ser nomeado cardeal da Igreja Católica. E embora sua nova posição o coloque apenas um degrau abaixo do papa, o cardeal Gregory enfrentou muita discriminação em sua vida devido à sua cor de pele.

Gregory, que conta com 73 anos, cuida da arquidiocese de Washington, D.C., e discutiu suas experiências com o racismo em uma entrevista feita por Al Roker, como parte da série Changemakers e em homenagem ao Mês da História Negra. Questionado sobre se já teve que lidar com o racismo durante sua jornada pelo sacerdócio, Gregory respondeu: "Oh, com certeza".

"Não conheço nenhum afro-americano que não tenha experimentado a taça amarga da discriminação", explicou. "Agora, enquanto estou vestido formalmente, sou tratado com muito respeito e carinho. Mas se eu tirar minhas vestes de clérigo para sair, para fazer compras ou fazer alguma coisa, estou no mesmo barco de todos os outros homens afro-americanos em Washington".

Gregory continuou lembrando de uma época em que foi maltratado quando não estava vestido como clérigo. "Há 15 anos ou mais, estava hospedado em um clube de golfe muito requintado de Palm Springs", disse Gregory ao entrevistador. "Então eu estava lá, vestido para jogar golfe, e outro indivíduo, abrindo o porta-malas me disse: 'Você pode colocar meus tacos no carrinho de golfe'. E eu tive que dizer: 'Bem, posso pedir a alguém que pegue seus tacos, mas estou aqui para jogar golfe'. Nunca me esqueci disso". "Mas é bom para mim lembrar desse dia", acrescentou Gregory. "É bom para mim não perder os pés na experiência do que significa ser um afro-americano em nosso país".

Embora muitos católicos possam se surpreender com o fato de não haver cardeais negros americanos antes de 2020, Gregory entende o motivo. "Quando ocorre um momento como este, a reação de muitas pessoas é: 'Por que demorou tanto?'", exclamou na entrevista. "Bem, demorou muito porque ainda estamos lutando contra o racismo e a exclusão. Isso ainda é uma parte do mundo em que vivemos".

Gregory vê a agitação racial em curso como "um lembrete de que, apesar de tudo o que fomos capazes de realizar, o problema ainda está lá", chamando-o de algo "sério".

"Temos que ouvir uns aos outros", enfatizou Gregory. "O diálogo exige ambos os movimentos. Você tem que dizer o que está em seu coração, mas depois você precisa perguntar, 'Agora, o que está em seu coração?' com a real intenção de ouvir o que o outro diz".

Relembrando o dia histórico em que esteve diante do papa Francisco em novembro passado, Gregory disse a Al que se sentiu "um tanto entorpecido" naquele momento. "Havia tantos pensamentos passando por minha mente e coração", lembrou. "Eu pensei sobre minha mãe e meu pai, e membros da família, minha avó. Mas foi um momento de muita humildade".

Ele provavelmente não esperava esse ponto em sua jornada de vida, nem até onde sua formação o levaria quando era um menino em uma escola católica no lado sul de Chicago. "Os padres e as irmãs daquela paróquia eram apenas seres humanos extraordinários e eu estava hipnotizado por eles. E então decidi depois de cerca de seis, sete semanas, que seria um sacerdote", disse na entrevista.

Agora, ele tem o presidente Joe Biden, o segundo presidente católico do país, como um de seus paroquianos. E embora Gregory não espera sempre concordar com o chefe de Estado, o cardeal tem um plano de como lidar com isso. "Ele não estará disponível a qualquer momento e espero também não espero isso", disse Gregory. "Mas haverá momentos em que poderei falar com ele sobre fé, sobre as obras que está tentando realizar e que podemos apoiar, também discutiremos assuntos em que não vamos concordar, mas vou sempre tentar fazer isso de uma forma respeitosa".

Publicado originalmente em no portal Today.


Today

Traduzido por Ramón Lara.



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