Religião

19/02/2021 | domtotal.com

A necessária revolução digital nas igrejas americanas em meio à pandemia

A Covid-19 afetou a forma como as pessoas se relacionavam com essa instituição. Como tantas outras coisas advindas da pandemia os impactos não são sentidos da mesma forma por todos

'A exclusão digital nas igrejas reflete a exclusão digital na sociedade americana de maneira mais geral', diz Mark Chaves, teólogo da Duke University
'A exclusão digital nas igrejas reflete a exclusão digital na sociedade americana de maneira mais geral', diz Mark Chaves, teólogo da Duke University (Justin Main / Unsplash)

Arielle Pardes
Wired

Para Clay Scroggins, pregar no Zoom nunca fez parte dos seus planos. Como pastor principal da Igreja Buckhead em Atlanta, estava acostumado a cultos em um auditório com três mil cadeiras, música ao vivo e uma TV gigante para as pessoas na parte de trás. Mas o plano de Deus costuma ser misterioso, então, quando a cidade de Atlanta o forçou a fechar as portas da igreja na primavera passada, Scroggins fielmente moveu seu ministério para o ambiente on-line. "No final das contas, fomos realmente escolhidos pelo chamado de Jesus para que amássemos nosso próximo", diz o pastor, "e a coisa mais amorosa que poderíamos fazer era continuar a nos encontrarmos virtualmente".

E esse encontro virtual continua. Os sermões de domingo são transmitidos ao vivo e postados no canal da igreja no Youtube para que os fiéis assistam a qualquer hora. O estudo da Bíblia e as reuniões de pequenos grupos mudaram para o Zoom. Buckhead conseguiu até mesmo replicar os "encontros" espontâneos no lobby da igreja com salas de chat de vídeo para alguns eventos. As doações, que fornecem todas as receitas operacionais da igreja, permanecem as mesmas, elas vêm apenas por meio de uma bandeja de coleta digital. Na Igreja Buckhead, a adoração virtual está indo tão bem que algumas partes dela podem permanecer para sempre. Mas nem toda congregação foi tão abençoada.

Para locais de culto, a Covid-19 mudou as tradições e esvaziou os espaços sagrados. Cerca de 45% dos americanos frequentam serviços religiosos regularmente, a maioria deles em igrejas cristãs, como a Igreja Buckhead. A partir da última primavera, fechamentos e pedidos de permanência em casa fizeram com que as congregações se esforçassem para colocar seus serviços on-line, de maneira semelhante a escolas e locais de trabalho. Alguns, como Buckhead, encontraram-se bem-preparados, com os recursos e conhecimentos técnicos para manter a frequência e esmolas constantes durante todo o ano.

Outras igrejas se viram em apuros, lutando para alcançar os fiéis virtualmente enquanto enfrentavam cortes de orçamento, demissões e a ameaça de falência ou mesmo fechamento permanente. Quase um ano após o início da pandemia, seus efeitos sobre a vida religiosa, como outros aspectos da sociedade americana, parecem desigualmente distribuídos, com igrejas grandes e bem-sucedidas e igrejas em dificuldades ficando ainda mais para trás.

"A exclusão digital nas igrejas reflete a exclusão digital na sociedade americana de maneira mais geral", diz Mark Chaves, teólogo da Duke University e diretor do National Congregation Study (Congregação Nacional de Estudos, em tradução literal), que pesquisa grupos religiosos nos Estados Unidos desde 1998. As igrejas com menos presença digital tendem a estar localizadas em áreas rurais. É mais provável que suas congregações sejam mais velhas, de baixa renda e negras. Esses grupos demográficos também têm menos probabilidade de ter acesso à banda larga e foram afetados de forma desproporcional pela pandemia, tanto em saúde quanto em resultados econômicos. Essas realidades também influenciaram as receitadas das igrejas.

Uma pesquisa da LifeWay Research, que se concentra nos ministérios cristãos, descobriu que os pastores brancos eram os mais propensos a relatar ofertas maiores do que o esperado no ano passado. Os pastores negros, em contraste, eram mais propensos a relatar que a economia pandêmica estava impactando suas igrejas "de forma muito negativa". As igrejas geralmente funcionam com margens apertadas para esse tipo de impactos, que podem ter efeitos de longo prazo. A LifeWay Research descobriu que uma pequena porcentagem das igrejas teve que reduzir o alcance, suspender a Escola Dominical ou programas de pequenos grupos, ou demitir membros da equipe. Os pastores negros eram mais propensos a dizer que cortaram o pagamento dos funcionários ou eliminaram um cargo na igreja.

Chaves diz que as igrejas que demoram a adotar a tecnologia geralmente têm menos recursos, por isso estão mais relutantes em gastar em coisas como uma configuração para uma transmissão ao vivo. Mas a resistência também pode ser cultural. "Às vezes, há uma tensão com instituições que se baseiam na tradição", diz Walle Mafolasire, fundador e CEO da Givelify, uma startup de dízimo digital. "É como, o que você quer dizer com 'toque, clique, doe', quando está bem aí na Bíblia que você deve trazer seus presentes para o altar?" A pandemia, acrescenta Mafolasire, mudou a equação: "Bem, agora estou no Zoom. Zoom é o meu altar".

No início de 2020, cerca de metade das igrejas americanas usavam um serviço digital de dízimo como o Givelify. Plataformas como essas separam as doações da frequência à igreja e permitem que as pessoas façam doações recorrentes, o que pode tornar mais fácil para a igreja prever sua receita. A pandemia acelerou muito o ritmo de adoção: em abril, um terço das igrejas que não estavam usando uma plataforma digital de dízimo se inscreveram em uma, de acordo com a LifeWay Research. O Givelify diz que viu uma explosão de novos usuários e que a quantidade bruta de doações para igrejas em seu serviço permaneceu estável na pandemia (embora, nos últimos meses, o número de doadores tenha diminuído ligeiramente). A empresa também descobriu que um terço das organizações religiosas relatou um aumento nas doações durante a pandemia de 2020 - especificamente, aquelas com mais presença digital. Igrejas com canais do Youtube, páginas do Instagram e sites de destaque viram 533% mais doações do que aquelas sem esses canais.

Tecnologias como esta podem ajudar igrejas de todos os tipos, mas tem sido uma tábua de salvação para algumas igrejas menores e mais rurais, que estão mais vulneráveis na pandemia. A Primeira Igreja Batista de Reeltown, na zona rural de Notasulga, Alabama, tem uma presença digital básica - um site e uma página no Facebook - e opera seu ministério de uma "maneira antiquada", diz Sarah Jones, secretária da igreja. No ano passado, o pastor transmitiu sermões com mais regularidade no Facebook Live, já que não era seguro para seus 200 membros se encontrarem pessoalmente. A igreja também se inscreveu em outro serviço digital de dízimo, chamado Pushpay, no final de 2019 - uma decisão que rapidamente valeu a pena. Apesar dos vários meses em que ninguém frequentava a Primeira Igreja Batista de Reeltown pessoalmente, as doações para a igreja permaneceram consistentes. "A maioria das igrejas do nosso tamanho experimentou uma diminuição nas doações e realmente sentiu o peso disso", diz Jones. "Essa não foi a nossa história este ano".

Pushpay diz que as igrejas viram até US$ 500 mil em novas doações um ano após se inscreverem para o serviço. "Isso significa que meio milhão de dólares estavam latentes, mas as pessoas começaram a doar porque agora podem fazer isso de seus telefones", disse Troy Pollock, embaixador-chefe de Pushpay. A empresa vê sua plataforma de pagamentos como um produto básico que pode apresentar às igrejas suas outras soluções tecnológicas.

Foi o que aconteceu na Primeira Igreja Batista de Reeltown. Embora a igreja ainda funcione principalmente com "papel e caneta", diz Jones, agora está procurando novas maneiras de incorporar a tecnologia em seus serviços. No ano passado, a igreja usou os recursos adicionais de Pushpay para enviar notas de sermões e cartões de oração para os membros. Para igrejas com congregações maiores e necessidades mais complexas, Pushpay também oferece um "sistema de gerenciamento de igrejas" - modelado segundo o software Salesforce - que mantém dados sobre os paroquianos. O culto pode ajudar as igrejas a estimularem gentilmente seus membros a serem mais ativos, desde a participação nos cultos aos domingos até o voluntariado e o ensino de classes de estudos bíblicos.

Para o setor religioso, a aceleração de novas tecnologias pode levar a mudanças massivas. Outros setores, como mídia e varejo, foram transformados à medida que se mudaram progressivamente para o on-line. As doações, a influência e a atenção agora convergem em um pequeno grupo de vencedores, geralmente às custas de grupos menores. Alguns acreditam que as igrejas podem experimentar algo semelhante. "Você terá os 40 melhores pregadores que todos ouvem, e o pregador comum do dia a dia não será capaz de competir", diz William Vanderbloemen, ex-pastor e fundador do Vanderbloemen Search Group, uma empresa de recrutamento de executivos para igrejas. Isso não quer dizer que mais nichos de mercado também não possam surgir. "As pessoas ainda aparecerão para ouvir uma mensagem de um pastor que conhece sua comunidade específica em um nível micro-contextual. Tipo, aqui está o que aconteceu em nosso código postal esta semana, e aqui está como isso se relaciona a como pensamos sobre nosso Deus".

Mafolasire, o fundador da Givelify, chama isso de "forma amazônica de experimentar a fé". As pessoas ainda podem estar vivendo sua fé com sua paróquia local, mas também estão procurando mais em outras igrejas e, em muitos casos, dando dinheiro para elas também. No ano passado, cerca de 20% dos doadores da Givelify doaram dinheiro para várias organizações religiosas. Para Mafolasire, isso sugere que as igrejas que progredirem, poderão ampliar sua presença on-line, atraindo gente nova da internet. Os dados da Givelify deste ano também comprovam isso. "Para aquelas igrejas que viram suas doações aumentar", diz Mafolasire, "vinha de sua capacidade de atingir um público mais amplo".

Chaves, que dirige a Congregação Nacional de Estudos, diz que é muito cedo para saber se este ano terá um impacto duradouro nas práticas de adoração e qual seria esse impacto. "A frequência à Igreja vem diminuindo lentamente há décadas", diz ele. "Veremos uma mudança se a participação on-line continuar onipresente? Ou isso significa que mais pessoas estão participando?". Algumas pesquisas iniciais sugerem que os frequentadores da igreja estão ansiosos para voltar aos cultos pessoais e à adoração junto com sua comunidade. Embora seja improvável que algumas congregações menores continuem transmitindo seus sermões no Facebook Live, outras igrejas podem encontrar valor em um modelo híbrido, onde algumas pessoas participam dos cultos de domingo e outras assistem em seus computadores.

Na Igreja Buckhead, os cultos de domingo continuarão on-line até que a congregação possa se reunir em massa com segurança. O pastor Scroggins não adora pregar sobre o Zoom, mas isso o lembra de um versículo da Bíblia - 2 João, 1:12. "Tenho muito que te escrever, mas não quero usar papel e tinta. Em vez disso, espero visitá-lo e conversar com você cara a cara, para que nossa alegria seja completa". Para Scroggins, ele captura a essência da pregação pandêmica. "Acho que o que John está dizendo é que a forma mais completa de comunicação é cara a cara", diz. "Mas isso nem sempre é possível".

Publicado originalmente no portal Wired.


Wired/Dom Total

Traduzido por Ramón Lara



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