Brasil

19/02/2021 | domtotal.com

O humor na jaula

Antes de rir, pergunte se pode

A principal vantagem do humor é ser absolutamente democrático: cada um ri quando, como e tanto do que quiser
A principal vantagem do humor é ser absolutamente democrático: cada um ri quando, como e tanto do que quiser (Dan Cook / Unsplash)

Fernando Fabbrini*

Muita cautela, vocês que ainda conseguem - apesar dos pesares - rirem das comédias do quotidiano, do país, do amor, dos políticos, da patética condição humana, de si mesmos. Sejam cuidadosos ao compartilharem mensagens de Whatsapp, piadinhas, vídeos engraçados - esses pequenos momentos de descontração que nos são facultados pela tecnologia digital. Atenção: a patrulha está à solta, atenta e emburrada, como sempre.

Nem tudo nas redes é realmente engraçado; tem porcaria de sobra. De posse de um simples celular, milhares se tornaram cineastas, comediantes e produtores num piscar de olhos. E vários desses olhos estão voltados não para a graça original das coisas - mas para o grotesco, o escandaloso, o escatológico.

Para mim, o humor verdadeiro é a capacidade de enxergarmos o inusitado ou o ridículo numa situação absolutamente banal. Assim vinham desopilando nossos fígados os irmãos Marx, Chaplin, o Gordo e o Magro, Buster Keaton, Cantinflas, Oscarito e Grande Otelo, Lucille Ball, Jerry Lewis, os Trapalhões, Chico Anysio, Peter Sellers, Rowan Atkinson e tantos outros. A principal vantagem do humor é ser absolutamente democrático: cada um ri quando, como e tanto do que quiser. O único condicionante também nos chega através de uma frase bem-humorada: gosto não se discute, apenas se lamenta.

Porém, tem gente querendo botar o humor na jaula. O mundo está contaminado pela tenebrosa doença do emburro ideológico – essa nuvem negra projetada, construída e mantida pela moda do politicamente correto. Acometido dessa enfermidade, para rir da piada a vítima necessita, antes, pedir permissões. Para quem? A lista é imensa. Primeiro, para sua própria cabeça-feita. Em seguida, para seus amigos igualmente contaminados ("será, meu Deus, que eles concordam?"). Na sequência hierárquica, para os censores de seu círculo familiar, profissional, para sua professora. Para a amiga ativista. Para os intelectuais das mesas de bar, sempre atentos a uma eventual escorregadela de membros da tribo.

Temerosos, antes de rirem, passam o Tik-Tok recebido pelos filtros a) uma complexa análise psicológica dos personagens da piada; b) uma avaliação sociológica da situação inverídica ali imaginada; c) uma exegese inquisitória em torno dos valores morais do século 21; d) uma desconfiança prévia das intenções machistas-patriarcais-elitistas-dominadoras-preconceituosas-discriminatórias-subliminares do que foi visto. Só aí se dão ao direito de um riso chocho.

Ora, pipocas: relaxem, gozem e busquem ajuda, ó doentes de emburro ideológico. O humor continua sendo o grande antídoto contra a rigidez, as mentes estreitas, a caretice, a tirania. Queiram ou não, o mundo continuará dando gargalhadas para a originalidade, a criatividade, as boas ironias, frases, deboches, ditos populares - tudo que seja engraçado por si só ou denuncie a nudez do rei. Esse rei pelado, repressor, autoritário e bravinho costuma estar bem escondido lá dentro de nós.

Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas às sextas-feiras no Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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