Religião

19/02/2021 | domtotal.com

Campanha da Fraternidade 2021 amplia diálogo entre religiões

Caminhada ecumênica pode colaborar para que a sociedade se torne mais tolerante, capaz de acolher e dialogar com o diferente

Como se tem vivido o diálogo e a busca por comunhão com as pessoas que pensam e agem diferente?
Como se tem vivido o diálogo e a busca por comunhão com as pessoas que pensam e agem diferente? (Tima Miroshnichenko/Pexels)

Francisco Thallys Rodrigues*

Desde 1964 a Igreja Católica no Brasil, através da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), convida todos os fiéis à reflexão e conversão no tempo quaresmal por meio da Campanha da Fraternidade. Nos anos 2000, 2005, 2010, 2016, e neste ano a campanha é assumida ecumenicamente por um conjunto de Igrejas cristãs  que assumiram juntas a oração, reflexão e promoção de gestos de solidariedade e partilha. A cada ano um novo tema é apresentado, estando relacionado à vivência da fé cristã a partir dos desafios e problemas enfrentados na sociedade.

O tema deste ano é Fraternidade e diálogo: Compromisso de amor  e o lema Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade (Ef 2,14). A proposta é colaborar para a promoção do diálogo e da escuta a partir da prática de Jesus e dos primeiros cristãos. Seguindo o método ver-julgar-agir-celebrar, somos convidados a analisar a sociedade atual marcada por polarizações, violências e inseguranças (VER); para a partir do seguimento a Jesus e as experiências das primeiras comunidades (JULGAR), pensar as nossas relações e nosso testemunho neste mundo (AGIR); celebrando as alegrias e esperanças como irmãos e irmãs (CELEBRAR). 

A pandemia descortinou as desigualdades e misérias vividas por milhões de famílias. Revelou a fragilidade das estruturas da sociedade e do próprio ser humano, obrigou o isolamento social e o cancelamento de inúmeras atividades. Aumentaram o desemprego, o custo de vida, a insegurança e o descaso político frente a situação do povo mais pobre. Neste momento tornam-se ainda mais evidentes as consequências da precarização do trabalho aprovado na última reforma trabalhista. Do mesmo modo da crise de 2008, os bancos são os primeiros a serem socorridos, recebendo todo tipo de auxílio, enquanto os pobres recebem migalhas, sendo condenados por causa destas.

Leia os outros artigos do especial Campanha da Fraternidade:

Nesta sociedade da indiferença, foram criados falsos inimigos: os pobres, os negros, os indígenas, os direitos humanos e as religiões de matriz africana. Não há questionamentos quanto à continuidade de estruturas caducas e injustas que favorecem a corrupção, não se questionam as corrupções diárias de milhares de pessoas e de instituições. Ao mesmo tempo se insiste num discurso que exalta a meritocracia, ratificado e 'santificado' com as bênçãos da teologia da prosperidade.

Diante deste cenário, a partir da fé cristã, os batizados são convidados a perceber que Deus não os abandonou, mas continua presente com sua mão amorosa. O evangelho de Jesus convida ao diálogo e à conversão. Nos primeiros séculos do cristianismo, os cristãos experimentaram as dificuldades de serem uma minoria num contexto bastante plural, marcado pela intolerância e perseguição. Nesta situação, as diferenças entre as comunidades cristãs não impediram de partilhar a crença em Jesus de Nazaré, o Cristo, o filho de Deus, pelo contrário, estas comunidades eram marcadas pela vivência da partilha e do socorro mútuo (At 2,42).

A carta aos Efésios enfatiza a necessidade de superar as divisões presentes nas comunidades (Ef 4,15-16). Jesus é o centro da fé que unifica e faz superar toda divisão. No seguimento ao Mestre se experimentam os sinais do Reino de Deus: o amor, benevolência, o perdão, a liberdade e a graça (Ef 1,3-8). A superação dos conflitos só é possível por meio da solidariedade mútua e entendimento de que todos estão ligados a Cristo. Jesus é a nossa paz que derruba os muros da divisão, da violência, do racismo e da discriminação. A paz, por Ele oferecida, conduz à vida plena.

Cristo derruba os muros da separação (Ef 2,11-14). A prática de Jesus nos evangelhos é comprometida com a vivência efetiva do amor (Jo 15,12-13; Mt 5,43-46a), do diálogo (Lc 19,1-10; Mc 7,24-30; Jo 4,1-26), do perdão (Lc 11,1-4; Jo 8,1-11), da compaixão (Lc 13,10-17; Mc 5,25-43) e do convívio (Jo 4,39-42; Jo 2,1-11). Aqueles que promovem a paz são chamados filhos de Deus (Mt 5,9). Por conseguinte, na medida em que se superam as divisões, torna-se possível partilhar a mesma mesa, o mesmo pão.

No Brasil, nas últimas décadas, tem crescido a consciência ecumênica entre as Igrejas, bem como muitas experiências de partilha, solidariedade e comunhão. Entre elas estão a Semana de Oração Pela unidade dos Cristãos que ocorre todos os anos por ocasião da festa de Pentecostes, além de experiências de missões ecumênicas, encontro ecumênico de mulheres e atividades na luta por nossa casa comum. Todas estas experiências devem ser celebradas nas comunidades e entre as Igrejas como passos no crescimento da comunhão e da unidade pedidas por Jesus.

Esta caminhada ecumênica pode colaborar para que a sociedade se torne mais tolerante, capaz de acolher e dialogar com o diferente. O testemunho de solidariedade, partilha e comunhão entre as Igrejas concretiza, visualmente e materialmente, a possibilidade de comunhão e fraternidade sonhadas por Deus. Mostra a necessidade e viabilidade de fortalecer espaços de escuta, discussão e compreensão mútua na sociedade. 

A campanha da fraternidade é um convite para a conversão neste tempo quaresmal. Desde a experiência da fé cristã, pode-se perguntar: como se tem vivido o diálogo e a busca por comunhão com as pessoas que pensam e agem diferente? Como as Igrejas cristãs têm colaborado para o diálogo na sociedade a partir do Evangelho de Jesus? As comunidades cristãs são desafiadas a tornarem-se espaços que geram comunhão e diálogo dando testemunho de que 'Cristo é nossa paz: do que era divido, fez-se unidade' (Ef 2,14)

*Francisco Thallys Rodrigues é presbítero da Diocese de Crateús (CE). Mestrando em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE), especialista em Sagradas Escrituras (EST), bacharel em Filosofia (FCF) e Teologia (FAJE), licenciado em História (UNOPAR).



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