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23/02/2021 | domtotal.com

Habitados por uma memória

Estava fisicamente na Holanda, mas Claraval me jogou para o espaço de minha infância e juventude com força total

Foi aí que me recordei de um livro do escritor português, Nobel de Literatura, José Saramago, 'O caderno', onde foram reunidos vários artigos soltos do autor que se tornaram um livro
Foi aí que me recordei de um livro do escritor português, Nobel de Literatura, José Saramago, 'O caderno', onde foram reunidos vários artigos soltos do autor que se tornaram um livro (Lilly Rum / Unsplash)

Lev Chaim*

Na distante Holanda, deparei-me com uma publicação de um vídeo com o hino em homenagem à cidade mineira de Claraval, próximo à minha terra natal, Franca, no estado de São Paulo. As serras, o rio Canoas e o Mosteiro me fizeram voltar aos tempos de infância, de quando lá estive, várias vezes, com a minha mãe, a tia Sinhá, amigos, etc.. Tudo me trouxe de volta um sentimento feliz, saudável, de algo que parecia estar distante, mas, na verdade, estava bem próximo, perto do coração.

Foi aí que me recordei de um livro do escritor português, Nobel de Literatura, José Saramago, O caderno, onde foram reunidos vários artigos soltos do autor que se tornaram um livro. Já o havia lido, mas tirei da estante para folheá-lo novamente. Não concordo com a ideologia oficial comunista do autor, mas admiro a sua habilidade literária, poética e sentimental, para expressar o conteúdo de foro íntimo dos seres humanos. No vídeo que vi sobre Claraval, com um hino em homenagem ao aniversário da cidade, ficou bem claro a acuidade das palavras de Saramago. Vejam só: "Fisicamente, habitamos um espaço, mas, sentimentalmente, somos habitados por uma memória". Ele foi direto à mosca. Estava fisicamente na Holanda, mas Claraval me jogou para o espaço de minha infância e juventude com força total.

Passou uma onda quente dentro de mim, que me fez recordar as vezes que lá estive e tudo de bom que ficou das minhas passagens por aquela parada, tão próxima de Franca, onde nasci, que pareciam tão distantes, ou melhor, que pareciam nem mais existir. 

Hoje, no meio de uma Holanda, que agora é a minha realidade, entrelaçada por uma língua totalmente diferente do português, tive de volta tudo aquilo que há muito tempo estava escondido em minha memória, mas lá estava. E tudo por causa de um vídeo sobre a cidade, com o famoso riozinho que por lá passa e fez parte da minha infância, o rio Canoas. Não sei de onde se originou este nome, sedimentado em meu cérebro e nunca questionado. Será que alguém sabe?

Mais à frente, nesse mesmo livro, Saramago escreveu um artigo intitulado George Bush, ou a idade da mentira. "Pergunto-me como e porquê os Estados Unidos, um país em tudo grande, tem tido, tantas vezes, tão pequenos presidentes. George Bush é talvez o menor de todos eles. Inteligência medíocre, ignorância abissal, expressão verbal confusa e permanentemente atraída pela irresistível tentação do puro disparate, este homem apresentou-se à humanidade com a pose grotesca de um cowboy que tinha herdado o mundo e o confundisse com uma manada de gado". 

Ao reler este trecho, imediatamente pensei: Saramago não conheceu o presidente Trump. Leiam o texto e troquem o nome de George Bush por Donald Trump. Tudo veste como uma luva e descreve aquele que, até bem pouco tempo, brincou de ser presidente e desestruturou a nação tida como a mais poderosa do mundo. E aí eu me perguntei: o que foi feito das alianças internacionais que paravam a sede de poder de ditaduras como a China e a Rússia? Como disse Saramago, "só as páginas dos livros se viram, as da vida não". Temos que seguir em frente.

Em outro capítulo, Esperanças e utopias, o autor português lembrou que o mundo havia escrito muito sobre as virtudes da esperança e das utopias, o que ele chamou de "o paraíso sonhado dos céticos". Vejam vocês hoje, no Brasil, em que o STF mandou prender um deputado bolsonarista, sem mesmo elaborar um processo e julgá-lo, e onde todos sugerem uma conspiração e se sentem contentes que o presidente Bolsonaro não tenha falado nada, não tenha caído na armadilha armada pelos encapados do Supremo que, na verdade, tomam decisões políticas, quando, então, deveriam estar seguindo as leis e a constituição do país.

Escreveu Saramago: "Penso que, na prática, aconselhar alguém a que tenha esperança não é muito diferente de aconselhá-la a ter paciência. É muito comum ouvir-se dizer da boca de políticos recém-instalados que a impaciência 'não é produtiva’ (na verdade ele escreveu 'contrarrevolucionária')". Ele afirmou preferir a impaciência. E aí o cito novamente: "Já é tempo de que a impaciência se note no mundo para que aprendam alguma coisa aqueles que preferem que nos alimentemos de esperanças; ou de utopias". Em outras palavras, faço uso deste texto no contexto atual do Brasil e digo isto: não chegou a hora de dar um basta efetivo naqueles que ainda querem manter impune a corrupção no país?

Pois é meus amigos! O lindo vídeo da cidadezinha mineira de Claraval levou-me ao livro de José Saramago, O Caderno, com artigos independentes que o fazem pensar e avaliar de novo o mundo, lembrando que, muitas vezes, "habitamos um espaço, mas sentimentalmente somos habitados por uma memória". Talvez assim, seja mais fácil evitar os erros do passado distante e recente. E tudo isto trouxe em meus pensamentos um alerta que serve para muitos: os que dirigem uma nação não são os proprietários do dinheiro público, mas agem como se o fossem. Não chegou a hora de dar um basta em tudo isto?

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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