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23/02/2021 | domtotal.com

Redes sociais: o campo de batalha do mundo moderno

Quando se fala em redes sociais, pensa-se logo nas mais difundidas: Facebook, Whatsapp, Twitter e Instagram. Mas há centenas, senão milhares, de redes com formatos diferentes e objetivos concretos. Um deles é o Parle

Esta divisão política, que quase não existia há poucos anos, acentuou-se à medida que os lados se radicalizaram e sentem necessidade de comunicar com quem se identifica com a mesma linha de pensamento
Esta divisão política, que quase não existia há poucos anos, acentuou-se à medida que os lados se radicalizaram e sentem necessidade de comunicar com quem se identifica com a mesma linha de pensamento (Austin Distel / Unsplash)

José Couto Nogueira*

Pode dizer-se, não tecnicamente, mas na prática, que as redes sociais são salas de comunicação, escrita, visual e falada. Como todos bem sabemos, porque todos as usamos, em algumas o que uma pessoa posta é público, em outras é visto apenas pelos seus seguidores; noutras ainda, a comunicação circula entre dois participantes ou grupos restritos. Um post pode permanecer eternamente no ar, ou ter uma curta durabilidade de cinco minutos. O seu tamanho também pode variar, de um tratado escrito a uma imagem animada de trinta segundos. Há de tudo, para todos os gêneros e – agora já se percebeu – para várias idades. 

A título de exemplo, os adolescentes parecem preferir o Tiktok reduzindo o Facebook a recreio dos "velhos". O Reddit, sendo usado por profissionais, tem um público específico: adultos, investidores ou empresários. O LinkedIn serve para difusão de currículos, potenciando oportunidades de emprego, correspondendo também a uma certa faixa etária. Já o Tinder destina-se a "encontros" de pessoas presumivelmente adultas. Enfim, as redes sociais segmentaram-se segundo a miríade de interesses de uma população que navega bem no ambiente digital.

Mas existe uma outra distribuição, a da esfera ideológica. Existem redes racistas, inclusivas, anarquistas ou supremacistas. Esta divisão política, que quase não existia há poucos anos, acentuou-se à medida que os lados se radicalizaram e sentem necessidade de comunicar com quem se identifica com a mesma linha de pensamento. Para organizar atividades, por exemplo, promover encontros, manifestações, abaixo-assinados, ações de rua.

Ou seja, enquanto "antigamente" um grupo de correligionários telefonava e afixava cartazes para organizar um evento, agora convoca instantaneamente os seus acólitos, numa rede "de confiança". Onde se trocam datas, horários e palavras de ordem, e se impulsionam energias.

E assim se chega ao Parler. Provavelmente muito pouca gente terá ouvido falar nesta rede em Portugal, reduzindo-se apenas a uma das muitas plataformas usadas pelos radicais de direita nos Estados Unidos. Racistas, nacionalistas, anti-semitas, anti-socialistas. Foi fundada em 2018, em pleno trumpismo, e em 2020 já era a rede de preferência dos Proud Boys, Movimento Boogaloo, Atomwaffen, Qnon e outros grupos. Os fundadores, John Matze e Jared Thompson, foram financiados por Rebekah Mercer, a multimilionária conhecida por ter apoiado Steve Bannon e o site Breitbart News.

Foi através do Parler que os diversos grupos e pessoas avulsas que consideram que a eleição de Joe Biden foi roubada a Donald Trump se organizaram para o ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro. Os participantes na plataforma discutiam abertamente as teorias descabeladas do movimento Qnon – entre outras, a de que há uma cabala de pedófilos democratas bebedores de sangue organizados para destruir Trump.

Enquanto as discussões eram apenas isso, discussões, ninguém parecia muito preocupado com a existência dessa "comunidade" de teorias da conspiração, arrecadando-a ao abrigo da liberdade de expressão. Mas quando se provou que o Parler tinha sido o veículo usado para organizar o episódio de 6 de janeiro, as coisas mudaram de figura. A plataforma estava alojada nos servidores da Amazon e o app encontrava-se disponível nas lojas Apple e Android – imediatamente as três empresas retiraram o alojamento e os apps, liquidando o Parler instantaneamente.

Os usuários do Parler não ficaram todavia incomunicáveis: mudaram-se para outras plataformas semelhantes, como Telegram, Gab, MeWe e GreatAwakening. Há centenas destas redes sociais nas franjas da sociedade normal e foi tudo uma questão de dias até o Gab se tornar a sucessora mais bem sucedida do Parler.

Agora, menos de um mês depois, o Parler voltou, alojada num outro fornecedor, a SkySilk, já sem a direção de John Matze. Quanto a esta situação, as informações são contraditórias; segundo a revista digital Huffinpost, o Parler estará agora determinada a não aceitar posts "radicais". Mas a revista digital Vice News considera, porém, que a plataforma perdeu força sendo até insultada pelos seus antigos utilizadores, não se percebendo bem o porquê. Provavelmente, trata-se apenas de uma manobra para escapar do controle das autoridades (o FBI, muito provavelmente), que monitorizam minuciosamente a rede. Ao que parece, a Gab é agora a rede de preferência dos radicais descabelados.

Esta questão do Parler, vem mesmo em cima de outros acontecimentos relacionados com o poder das redes sociais. Como foi noticiado, o governo australiano acaba de determinar que o Facebook e o Google têm de pagar aos OCS pelos conteúdos que apresentam. O Facebook recusou, retirando não só esses conteúdos, como também informações de vários organizações governamentais, muito úteis à população australiana. O Google concordou com o pagamento. Esta situação está sendo observada atentamente pela União Europeia e Estados Unidos, onde se prepara legislação semelhante.

Paralelamente, os generais de Mianmar desligaram as redes sociais para impedir que as pessoas pudessem se organizar em protestos contra o golpe de Estado. Como já tinham feito os governos de muitos outros países, como Bielorrússia, Turquia e Índia, para falar dos que vêm à cabeça de imediato.

Em termos gerais, as redes sociais passaram rapidamente do entretenimento para uma questão econômica e política de proporções bíblicas. Porque é que o Parler não pode dizer que a Hilary Clinton é pedófila bebedora de sangue, mas o Wathsapp de Mianmar pode afirmar que os generais torturam crianças? A resposta é a diferença entre a mentira e a verdade, evidentemente. O que já não é tão evidente, é o que é falso ou verdadeiro. Para os seguidores do Parler, é verdade que existe um complô do deep state para acabar com a liberdade nos Estados Unidos. Para os usuários do Twitter na Bielorrússia, é verdade que Luckachenko gere uma rede de prisões com torturas horríveis.

Quem é que decide o que é verdade ou mentira? O Facebook acabou de criar uma Comissão de especialistas independentes à empresa para tomar algumas decisões
nesta área. Mas os interesses do FB serão realmente a equidade, ou a utilização maximizada dos dados dos utilizadores?

Se calhar, os frequentadores do Parler tinham razão, o "sistema" está precisando de reforma e não há nada como uma insurreição contra o edifício-símbolo da Democracia para resolver as coisas. A verdade deles só não passou a ser a verdade oficial porque eles perderam.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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