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23/02/2021 | domtotal.com

BBB: O juízo final de Karol Conká

De rapper a ícone da antipatia nacional

Graças a uma trajetória de agressões, mentiras e baixarias no programa, a cantora tornou-se ícone da antipatia nacional, com sérias consequências para sua carreira
Graças a uma trajetória de agressões, mentiras e baixarias no programa, a cantora tornou-se ícone da antipatia nacional, com sérias consequências para sua carreira (Reprodução TV Globo)

Alexis Parrot*

Chegou o dia. Sarah jogou o paredão em Karol Conká e a eliminação mais esperada em vinte e um anos de Big Brother Brasil acontecerá hoje à noite.

Ok, a loira não cumpriu a promessa de poupá-la, mas parece que o público não está nem aí para isso. Graças a uma trajetória de agressões, mentiras e baixarias no programa, a cantora tornou-se ícone da antipatia nacional, com sérias consequências para sua carreira. Justiça seja feita, sairá da casa apenas por colher o que plantou.

Depois de fomentar o isolamento de Juliette e humilhar Lucas como quem malha o Judas em sábado de aleluia, fez uma fila e atacou Gilberto e Carla Diaz na sequência. Descartado o affair com Bil, passou a deselegantemente desdenhá-lo, para dizer o mínimo. A título de canto do cisne, mirou em Camilla de Lucas, mas deve ter se arrependido; a tiktokeira não abaixou a cabeça e respondeu as provocações destrambelhadas à altura.

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Ela funciona assim: após falar e fazer o que bem entende, procura um por um dos jogadores, recriando os acontecimentos em versões deturpadas, sempre tentando se isentar de qualquer responsabilidade - como se a nova narrativa anulasse tudo aquilo gravado e já exibido. Talvez inspirada em Trump (e como ingenuamente defende Gilberto), acredite mesmo não estar mentindo, mas apenas criando uma "verdade alternativa".

Sentindo a eliminação iminente, passou a pedir o voto do público, em tentativa vã de sair por cima da carne seca (como quem diz "me escolheram só porque pedi"). Se não for mais uma mentira, só pode ser delírio. Porém, ela vai aprender da pior maneira que há mais coisas entre o confessionário e o café da manhã na Ana Maria Braga do que sonha nossa vã filosofia.

Tal qual Cersei Lannister em Game of thrones, será obrigada a penoso walk of shame, assim que sua derrota for confirmada (e saboreada) por milhões de espectadores.

A alegria de vê-la eliminada do programa só não é maior do que o medo de saber que, a partir de amanhã, estará de volta ao mundo real. Se diante das câmeras foi capaz de tanto, imagine sem monitoramento?

Que me perdoem Aurélio e Houaiss, mas kobra, a partir de agora, se escreve Conká.

Uma vilã para chamar de sua

Com a saída de Conká, muita gente teme ver o programa afundado no marasmo. Sem a maledicência crônica da rapper para infernizar a vida dos confinados, quem sobraria para assumir o papel de vilão? As duas opções mais óbvias estão completamente perdidas no jogo.

Lumena, com as barbas completamente de molho e se forçando a um rebranding de atitude, passou de ativista rábica e prepotente a catatônica após a saída de Nego Di. Projota está mais confuso do que o Tonho da Lua; finalmente enxergou que Rutinha é na verdade a Raquel. Inconformado por ter sido um dos mais votados pela casa, passa o dia choramingando pelos cantos, contando votos e prometendo vingança.

Mas outra vilã já está no forno, aparentemente, pronta para servir novos lances de cizânia. De maneira mais sutil e calculada, a atriz Carla Diaz é candidatíssima ao posto. Não grita e nem ofende, mas na miúda vai soltando pequenas farpas em conversas individuais e está sempre alerta para dizer o que percebe que querem ouvir.

Tenta constantemente influenciar votos e ganhar aliados e, como quem não quer nada, ainda deixa escapar afirmações oportunistas atestando o quanto é boa moça.

Arthur, a exemplo de como se comporta com Projota, nem percebe como é manipulado por ela. Na oportunidade da saída do músico, seguirá firme no seu destino de inocente útil, mudando apenas o destinatário de sua devoção.

Fale fala brasileira

O mix de concorrentes, oriundos de variadas regiões brasileiras, sempre emprestou um colorido de sotaques e prosódias ao BBB. Além de marcar identidades, essa diversidade de falas na TV pode servir para diminuir distâncias e quebrar preconceitos.

Nesta edição, tem sido interessante o intercâmbio de expressões e gírias regionais operado entre brothers e sisters. Caio, Rodolffo e Arthur incorporaram de coração o tipicamente paulistano rolê de Conká e Projota, além de Fiuk e Pocah já terem embarcado no grandão que Lumena trouxe de Salvador. Graças a Gilberto, o basculho pernambucano é agora internacional.

Em um jogo baseado na convivência forçada, comunicar e saber se expressar é fundamental para marcar presença. Vítima de patente indigência lexical, Thais é a que mais perde neste quesito. Não fosse pelo beijo desferido em Fiuk na primeira festa, talvez nem nos déssemos conta de que ainda perambula pela casa.

Em noite de formação de paredão, quando tenta justificar sua escolha no confessionário, a ladainha sai mais ou menos assim: meu voto vai ser tipo... tipo assim, tipo. Não, assim, tipo meu voto. Tipo assim: meu voto tipo por afinidade, porque tipo, tipo assim, tipo quando eu voto, é tipo por afinidade.

É tipo assim, de tipo em tipo, que a dentista vai se aproximando da inevitável eliminação.

Frase da semana

Do escritor Itamar Vieira Jr., autor do premiado Torto arado, no Roda Viva:

"Não podemos mais conciliar. Ou todos têm direitos [e] as políticas públicas chegam para todos ou, então, teremos que tensionar até o limite".

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o DOM TOTAL.



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