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23/02/2021 | domtotal.com

Devido às enchentes, governador do Acre decreta estado de calamidade pública

A região ainda vive surto de dengue e Covid-19, com falta de leitos em todo o estado e, na fronteira, imigrantes não conseguem deixar o Brasil

Os municípios de Tarauacá e Sena Madureira estão com 70% do território tomado pela água. Cerca de 150 mil acreanos foram afetados
Os municípios de Tarauacá e Sena Madureira estão com 70% do território tomado pela água. Cerca de 150 mil acreanos foram afetados (Sérgio Vale/Agência de notícias do Acre)

O governador do Acre, Gladson Cameli, decretou estado de calamidade pública em dez cidades do estado, em virtude das cheias dos rios. Cerca de 130 mil pessoas foram afetadas no estado até agora. O decreto, publicado nessa segunda-feira (22) em edição extra do Diário Oficial do estado, incluiu, além da capital, Rio Branco, os municípios de Cruzeiro do Sul, Feijó, Jordão, Mâncio Lima, Porto Walter, Rodrigues Alves, Santa Rosa do Purus, Sena Madureira e Tarauacá.

De acordo com o governo do estado, alguns municípios têm registrado inundações históricas, com milhares de famílias desabrigadas. Cameli já havia decretado situação de emergência no estado. A diferença é que agora o estado reconhece a necessidade de ajuda financeira do governo federal para enfrentar a crise, bem como para prestação de assistência humanitária à população afetada.

O governo apontou ainda um recuo nas cheias dos rios em nove municípios. Entre os mananciais que apresentaram vazante estão o Rio Acre, em Rio Branco, com 15,43 metros (m); o Rio Juruá, em Cruzeiro do Sul, com 14,31m; o Rio Tarauacá, no município de Tarauacá, com 9,40m; o Rio Envira, em Feijó, com 14,49m; e o Rio Purus, em Santa Rosa, com 6,84m.

Os rios dos municípios de Jordão, Porto Walter, Mâncio Lima e Rodrigues Alves não têm medição por réguas, mas também apresentaram sinal vazante. O único rio ainda em ritmo de cheia é o Rio Iaco, em Sena Madureira, medindo 18,05m. Os registros são da Coordenação Estadual de Defesa Civil (Cepdec).

A região ainda vive surto de dengue e Covid-19, com falta de leitos em todo o estado e, na fronteira, imigrantes não conseguem deixar o Brasil. O presidente Jair Bolsonaro prevê visita ao estado amanhã.

Em meio à velocidade de elevação do nível do Rio Tarauacá, na cidade de mesmo nome, uma imagem chamou a atenção: o médico Rodrigo Damasceno realizava o atendimento de uma criança de 2 anos em uma rua alagada. O flagrante foi feito por um dos moradores do bairro da Praia, um dos mais atingidos pela cheia.

"A situação era tão crítica que saí pelas ruas alagadas de barco prestando auxílio, fazendo atendimentos. Temos um trabalho voluntário que atende a comunidade gratuitamente, todos os meses. Sempre escolhemos um bairro e fazemos a atividade de atendimento médico especializado", conta Damasceno.

De barco, ele circulou por todos os bairros alagados. "Na hora em que atendi aquele menino, eu estava dentro da água porque tinha acabado de sair de uma casa", conta. "Montei uma espécie de consultório ali mesmo, com a assistente". Com a divulgação da foto, ele recebeu muitas mensagens de colegas. "Muita gente, de vários estados e até de fora, me mandou mensagem comentando", diz.

Os municípios de Tarauacá e Sena Madureira estão com 70% do território tomado pela água. Cerca de 150 mil acreanos foram afetados. Nas duas principais cidades, Rio Branco e Cruzeiro do Sul, há cerca de 4,3 mil desabrigados e desalojados.

Enquanto o estado registra 54,7 mil casos do coronavírus, também enfrenta um surto de dengue, o que causa a saturação dos sistemas de saúde público e privado. Há falta de leitos de enfermaria, serviço semi-intensivo e de UTI, segundo a Secretaria de Saúde do Acre.

Ontem (22), o governo colocou todos os 22 municípios na bandeira vermelha, em que só serviços essenciais podem abrir. "É claro que as pessoas vão falar do cansaço, das restrições, mas quando a realidade se impõe é necessário tomarmos decisões. Precisamos pensar na saúde da população em geral", diz Osvaldo Leal, que gerencia o Hospital de Campanha. O governo pediu ajuda à União para transferir pacientes para outros estados.

No limite

Bolsonaro prevê cumprir agenda no Acre amanhã (24). Há a possibilidade de visita à cidade de Assis Brasil, na fronteira com o Peru, para acompanhar a situação dos imigrantes.

Com as fronteiras fechadas por causa da pandemia, estrangeiros não conseguem deixar o país. Assis Brasil teve aumento de quase 1 mil % de imigrantes, segundo a secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos do Acre. Grupos chegam todos os dias à cidade em busca de seguir viagem para os Estados Unidos. O número pulou de 5 para 50 por dia.

São ao menos 450 imigrantes, entre crianças e adultos, acampados na Ponte da Amizade, que liga Assis Brasil à peruana Iñapari. De um lado, os imigrantes, muitos deles haitianos e venezuelanos, tentam furar o bloqueio de pelo menos 100 militares da tropa de choque peruana.

O haitiano Miguel Moendestin espera há quase um mês para atravessar a fronteira com a mulher e uma filha de 3 anos, mas já perdeu a esperança. Agora, já pensa em voltar para Santa Catarina e tentar outro emprego. "Como não tenho trabalho, estou ficando sem dinheiro para manter minha família. Não posso ficar nessa situação". O governo do Acre já ofereceu fretamento de ônibus para levar os imigrantes de volta às cidades brasileiras de onde vieram.


Agência Brasil/Agência Estado/Dom Total



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