Religião

28/02/2021 | domtotal.com

Transfiguração: contemplar-nos por dentro

Reflexão do Evangelho de Mc 9,2-10 do 2º domingo da Quaresma

A transfiguração de Jesus é um convite a que possamos nos transfigurar e transfigurar os outros e assim poder contemplar a beleza presente em cada um
A transfiguração de Jesus é um convite a que possamos nos transfigurar e transfigurar os outros e assim poder contemplar a beleza presente em cada um (Eric Ward / Unsplash)

Adroaldo Palaoro*

E transfigurou-se diante deles (Mc 9,2)

No 2º domingo da Quaresma de cada ano, a liturgia nos convida a subir o Monte da Transfiguração para "contemplar Jesus por dentro", para conhecer seu coração, seus desejos mais íntimos, seus dinamismos de vida, enfim, o desvelamento da sua interioridade. Ao mesmo tempo, diante de Jesus transfigurado, temos também a ocasião privilegiada para nos "olhar" por dentro e descobrir nossa verdadeira identidade.

Todos os grandes personagens bíblicos fizeram sua experiência de Montanha (lugar de intimidade com Deus; de escuta e discernimento; lugar onde receberam uma missão e foram abençoados). Do alto da Montanha esta bênção foi se espalhando e atingindo a todos: experiência pessoal de alcance universal.

Também Jesus, o homem dos "vales" (lugar do compromisso, serviço) sabia reservar momentos de Montanha (comunhão e escuta do Pai) - ali Ele buscava sentido e força para a sua missão.

No Monte Tabor Ele deixa "transparecer" seu coração. Diante do olhar assombrado dos discípulos Ele "desvela" aquilo que a visão superficial não capta: Ele é todo compaixão, bondade, acolhida, amor.

Jesus de Nazaré foi o homem que não pôs obstáculos ao Mistério para que se expressasse n’Ele. Ele foi pura transparência da Fonte originária, revelação do Rosto do Pai.

A Transfiguração de Jesus que Marcos relata é um símbolo das muitas experiências de transfiguração que todos experimentamos. A vida diária tende a fazer-se rotineira, monótona, cansada, deixando-nos desanimados, sem forças para caminhar. 

Mas, eis que irrompem momentos especiais, com frequência inesperados, em que uma luz desperta nosso interior, e os olhos do coração nos permitem ver muito mais longe e muito mais profundo do que estávamos vendo até esse momento. A realidade é a mesma, mas aparece transfigurada para nós, com outra figura, revelando sua dimensão interior, essa que intuíamos, mas, devido à nossa superficialidade, tínhamos esquecido. 

Essas experiências, verdadeiramente místicas, nos permitem renovar nossas energias e, inclusive, despertar nosso entusiasmo para continuar caminhando, na certeza de que "vimos o Invisível".

Uma pessoa transfigurada é alguém que vê o que todo mundo vê, mas de maneira diferente: seu olhar contemplativo capta outra dimensão que se esconde aos olhares superficiais e frios.

Todos carecemos dessas experiências, para que nossa vida tenha outra inspiração, assim como os discípulos de Jesus precisaram desse momento da Transfiguração para que, num relance, tivessem a nítida certeza de que Ele era a "transparência do Pai" e eles próprios sentissem confirmados no seguimento.

Hoje, nós não podemos nos encontrar com Jesus no Tabor da Galiléia. Mas precisamos buscar nosso Tabor interior, onde brilha a luz que nos faz diáfanos (transparentes), onde se encontram as forças criativas que sustentarão nosso compromisso, onde ouviremos a Voz que confirmará nossa filiação: "este(a) é meu (minha) filho(a) amado(a)".

Despojando-nos daquilo que nos desfigura, busquemos o que nos transfigura, o que mais nos humaniza e nos diviniza. É possível que, ao contemplar nosso coração, nos deparemos com muitas surpresas que jamais imaginávamos.

Nesse sentido, a Montanha não é lugar só do encontro íntimo com o Senhor, mas também lugar do encontro com o melhor de nós mesmos, nosso ser essencial. No silêncio do monte poderemos perceber quem somos nós. Por isso a transfiguração é também descoberta do "eu profundo", da própria realidade pessoal, do Mistério que habita em nós. É nessa manifestação divina que descobrimos a nós mesmos. Começamos a descobrir o nosso ser (único, original, sagrado) quando mergulhamos no misterioso relacionamento com Deus e quando permitimos que o mistério experimentado se torne fonte de nossa identidade.

Nossa vocação é transfigurar-nos, superar nossa própria figura, ir além de nossa aparência para captar nossa originalidade e riqueza interior, nosso "eu original.

Essa é a nossa verdadeira identidade. Em certo sentido, é como se recordássemos quem somos e, ao recordar isso, iniciamos um caminho de volta à casa (as "três tendas"). Voltar à casa é deixar transparecer aquilo que é mais nobre em nós; é reconhecer que somos plenitude que transborda, fonte inesgotável de sonhos, criatividade, inspirações.

Cair na conta de nossa condição de "filhos(as) amados(as)" equivale a reconhecer-nos como transfigurados(as). E é isso mesmo que se pode afirmar de todo ser humano: cada um(a) de nós é "filho(a) amado(a)", nascido(a) daquela mesma Fonte e, ao mesmo tempo, transparência dela.

Nosso "eu profundo" é luminoso, transparente, simples, verdadeiro... Mas, para percebê-lo, é preciso nos "despertar" e viver ancorados em nossa verdadeira identidade.

É preciso ir para além do "ego superficial", uma ilusão que acreditávamos ser nossa identidade e que nos fazia viver em função dele, alimentando impulsos de poder, vaidade, imposição.

No entanto, a Transfiguração de Jesus nos possibilita ter acesso a um lugar sempre estável, sólido e permanente, onde nos fazemos presentes diante da Presença inefável.

Da transfiguração interior à uma presença que transfigura a realidade em que nos situamos. Não podemos recordar quem somos para permanecer em um monte, isolados e acomodados, mas para "descer" à vida cotidiana, com todos os seus conflitos, e viver ali o que "temos visto e ouvido", a partir de uma atitude de bondade, compaixão e serviço.

A Transfiguração desperta em nós um novo olhar para perceber, com mais nitidez e intensidade, os lugares por onde transitamos, uma nova disposição para dar sentido e valor às relações cotidianas, uma presença solidária para nos colocar no lugar do outro, uma nova sensibilidade para "ver" a Presença d’Aquele que se "deixa transparecer" em todos os Tabores da vida.

O monte da Transfiguração transforma as obscuridades humanas em caminhos de luz e esperança, o ódio em fraternidade, a divisão em vínculo. É preciso transfigurar nossas relações humanas, rompendo o círculo da intolerância, do juízo rápido e da indiferença. Por que não pensar que é uma nobre maneira de viver? Uma vida, uma cultura, uma sociedade que não se transfigura, que não transcende a existência e seus conteúdos, se desumaniza.

Transfigurar é deixar transparecer toda nossa riqueza interior. E isso não é fácil. Normalmente cobrimos nossa verdade com máscaras ou com um papel que interpretamos. Vivemos uma quantidade de experiências rápidas, amontoadas, sem possibilidade de avaliação (ativismo, rotina, angústias, trabalho sem sentido, mundo fechado, sem horizontes, sem direção).

O cotidiano faz-se rotineiro, convencional e, não raro, carregado de desencanto. Frequentemente vivemos o cotidiano com o anonimato que ele envolve, e isso nos desfigura, desumanizando-nos.

A luz da Transfiguração de Jesus nos desvela (tira o véu) e ativa a coragem a olhar para além da "casca de nossa humanidade", e deixar emergir nossa originalidade e nobreza que não se deixam revelar diante do espelho, mas só numa experiência da interioridade.

A transfiguração de Jesus é um convite a que possamos nos transfigurar e transfigurar os outros e assim poder contemplar a beleza presente em cada um, muitas vezes escondida e que se revela de maneira um tanto quanto obscura.

Crer na Transfiguração é envolver-se no processo da transformação contínua da vida, esperando a transfiguração definitiva.

Texto bíblico: Mc 9,2-10

Na oração: Por vezes somos levados a conceber a aventura espiritual como uma fuga de nós mesmos, uma subida para outra região da atmosfera mais pura que o nosso dia a dia. "Não! Desça até o fundo de você mesmo! É dentro do seu próprio coração que Deus o espera". A busca de Deus se assemelha mais a espeleologia do que ao alpinismo: tem mais de grutas que de cumes; mais de interioridade que de aparência, mais de "descida" que de "subida".

  • Diante da "transparência" de seu "eu profundo" você sente temores? resistências...? Quais? Por que?
  • "Transfigurar" compromete com a vida; você está disposto(a) a descer do seu Tabor para ser presença inspiradora no seu meio?

*Adroaldo Palaoro é padre jesuíta e atua no ministério dos Exercícios Espirituais



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