Religião

24/02/2021 | domtotal.com

No tempo quaresmal, mais que pedir perdão, é preciso perdoar

Ao confessarmos, recordando os nossos erros, não devemos esquecer a misericórdia de Deus derramada sobre nós, que espera - e torna possível - a nossa misericórdia para com os outros

Nesta Quaresma, ao confessarmos, não devemos esquecer a misericórdia de Deus derramada sobre nós, que espera a nossa misericórdia para com os outros
Nesta Quaresma, ao confessarmos, não devemos esquecer a misericórdia de Deus derramada sobre nós, que espera a nossa misericórdia para com os outros (Josh Applegate / Unsplash)

Geoffrey Mackey*
America Magazine

"Padre, você se esqueceu de me dar uma penitência". Um dia, estava sentado no escritório do meu pároco, um homem muito mais jovem do que eu hoje, com minhas bochechas manchadas de lágrimas e minha vergonha revelada. Eu não tinha planejado a confissão naquele dia. Não estava no formato esperado pelo rito bizantino. Normalmente o penitente fica diante de um ícone de Cristo, com o sacerdote ao lado como testemunha da confissão.

Eu só pedi um encontro com o padre para falar sobre minha vida espiritual. No decorrer daquela hora, porém, ficou claro que eu realmente precisava de ser aliviado dos meus pecados. Então, pedi a absolvição de Deus e de sua Igreja. Sentamo-nos um em frente ao outro na sala e lhe contei meus pecados enquanto o padre ouvia com paz e calma – até mesmo com alegria – revelando uma confiança na misericórdia de Deus pelos pecadores.

Mas ele havia pronunciado a absolvição sem me dar penitências, orações ou passagens das Escrituras para ler ou alguma boa ação a ser realizada.

"Não, não disse nada disso", respondeu ele com um sorriso. "Eu pedi para você desfrutar da misericórdia e do amor de Deus. Se eu tivesse lhe dado algo mais para fazer, ou você faria e pensaria que ganhou a graça de Deus ou você falharia e pensaria que decepcionou Deus. Apenas vá! Arrependa-se e acredite nas boas novas!".

"Arrepender-se!" clama Jesus no Evangelho de Mateus, "pois o reino dos céus está próximo!" Durante a Quaresma, pregar assim é o ponto principal da vida da Igreja. Arrepender-se é literalmente mudar de ideia. Nesse sentido, é voltar a mente para Deus. E, falando biblicamente, não há como se voltar para Deus sem nos voltarmos uns para os outros. A ordem de amar o Senhor nosso Deus está associado à ordem de amar nosso próximo como a nós mesmos.

Uma das partes mais comoventes das Escrituras, para mim, é o capítulo final do livro de Gênesis. Isso ocorre no final da vida do patriarca Jacó. José, que há muito havia sido vendido como escravo por seus irmãos, também os perdoou.

Mas agora que Jacó está morto, os irmãos, pensando que talvez José tenha apenas fingido o perdão para poupar seu pai de mais tristeza, estavam preocupados de que José agora cumprisse sua vingança. Talvez José apenas fingisse perdoar para não quebrar o coração de seu pai. Mas agora, temem os irmãos, José usará seu poder e autoridade para lhes fazer justiça. "E se José ainda guardasse rancor de nós e nos pagasse integralmente por todo o mal que fizemos a ele?", perguntaram-se os irmãos.

Os irmãos, portanto, inventam uma mentira: "Seu pai nos deu esta instrução antes de morrer: 'Diga a José: Eu te imploro, perdoe o crime de seus irmãos e o mal que cometeram ao ferir você'". É uma mentira óbvia. Se Jacó quisesse isso, ele não teria falado diretamente a José?

Mas a mentira não importa; José não se importa. Na verdade, "José chorou quando falaram isso com ele". Esta imagem do perdão dos irmãos de José é um ícone do perdão de Deus para nós. Mas é igualmente um desafio para perdoarmos aqueles que nos fizeram mal.

O perdão, é claro, está presente em todas as Escrituras. É, de certa forma, o ponto principal da história da Bíblia. A revelação que encontramos nas palavras sagradas é a história de um Deus amoroso perdoando uma humanidade pecadora e reconciliando-os consigo mesmo (e uns com os outros). Em resumo, Deus está no perdão.

Quando, na plenitude dos tempos, Jesus veio para nos salvar, o ponto central de seus ensinamentos éticos é o perdão dos erros cometidos. São Pedro, talvez se considerando muito caridoso e gracioso, e perguntou a Jesus: "Senhor, quantas vezes devo perdoar os pecados dos meus irmãos contra mim? Até sete vezes?" Mas Jesus respondeu-lhe: "não sete vezes, mas setenta vezes sete vezes" (Mt 18, 21-22).

O autor e ativista Jim Forest escreve que "a palavra grega usada no Pai Nosso para 'perdoar' - aphiemi - significa simplesmente deixar ir, deixar de lado ou deixar para trás. O verbo, entendido em seu sentido grego, nos lembra que o perdão é, como o amor, não um sentimento, mas uma ação que envolve a vontade em vez de nossas emoções". E Jesus está dizendo: Se você quer ser perdoado, você também deve perdoar aqueles que lhe fizeram mal.

Embora eu seja um sacerdote católico, tenho a grande honra de trabalhar em um seminário anglicano. Eles têm um belo costume em seu rito de reconciliação, encontrado no Livro de Oração Comum da Igreja Episcopal. Depois que o penitente confessou seus pecados, o sacerdote perguntará: "Você, então, perdoa aqueles que pecaram contra você?". Só depois de uma resposta afirmativa o padre pronuncia a absolvição.

Entendido desta forma, meu perdão por aqueles que me fizeram algum mal é uma condição para o perdão de Deus por mim. E essa é, talvez, a maneira como experimentamos o perdão existencialmente. Mas, teologicamente, acho que a Bíblia nos oferece uma perspectiva mais profunda.

A parábola do servo que não perdoa nos lembra da ordem adequada de reconciliação. O rei que deseja acertar as contas com seus servos descobre que um servo lhe deve 10 mil talentos - uma soma impossível para um trabalhador comum pagar. E o rei, mostrando misericórdia, simplesmente perdoa a dívida, simples assim.

E então o servo encontra um colega que lhe deve 100 denários, cerca de quatro meses de salário. Não é uma soma insignificante, mas de forma alguma impossível de pagar. E o servo iníquo manda esse homem para a prisão pela dívida "até que ele pague toda a sua dívida".

É uma história clara com uma moral óbvia. Esperamos que nós, que fomos perdoados de uma dívida infinita e impagável de nossos pecados, perdoemos aqueles que pecam contra nós. Então, em vez de ver nosso perdão aos outros como a condição para o perdão de Deus, vemos que na economia da salvação de Deus, a ordem é o contrário: o perdão de Deus é a causa e o poder de nosso perdão aos outros. Deus nunca exige de nós o que ele não fez primeiro.

Todos nós conhecemos a experiência de ser injustiçado. Alguns de nós sabemos disso dolorosamente. A traição de um amigo. Uma ofensa dentro de nossas próprias famílias. Um irmão. Um pai. Uma esposa. Talvez calúnia no trabalho, uma reputação manchada, uma confiança traída. Ou talvez você não abrigue nada tão grande. Mas existe aquela pessoa, um colega ou superior que é justo, dia após dia, ofensivo ou exigente ou duro ou cruel. Talvez você tenha passado pela experiência, como eu, da pessoa que, apenas por estar no mesmo ambiente que você, faz sua adrenalina fluir e seus batimentos cardíacos aumentarem. Como vou perdoar essa pessoa?

A resposta é encontrada na compaixão de Deus. Nós fomos perdoados por ele. Fomos comprados por um preço. Como o servo que devia 10 mil talentos, fomos libertados; e isso significa que podemos perdoar os outros. Temos o poder de perdoar porque não estamos presos na prisão de um devedor. "Para a liberdade, Cristo nos libertou", como disse São Paulo.

Nesta Quaresma, ao confessarmos, recordando os nossos erros, não devemos esquecer a misericórdia de Deus derramada sobre nós, que espera - e torna possível - a nossa misericórdia para com os outros. A Quaresma é um bom momento, no silêncio de nossos corações, para apresentar a Deus aqueles rancores que podemos guardar e deixá-los ir.

E talvez, se o rancor for significativo o suficiente, agora seja a hora de procurar aqueles que nos injustiçaram e perdoá-los. E devemos ver esse esforço não como um fardo grande demais para suportar, mas como a liberação de um fardo que já podemos carregar. Porque o próprio nosso Senhor, ao ser pendurado na cruz para a salvação do mundo, já tornou possível essa reconciliação. Ele gritou: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem".

*Geoffrey Mackey é padre da Igreja Católica Bizantina e reitor de alunos da Trinity School for Ministry, um seminário anglicano/episcopal no oeste da Pensilvânia. 

Publicado originalmente em America Magazine.

Traduzido por Ramón Lara



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