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25/02/2021 | domtotal.com

A arca de Noel

Os eflúvios da Arca do Noel são sentidos toda vez que, nesse momento de confinamento, as pessoas louvam a afinação e arte de espantar mazelas que contém as canções de Gil, Caetano, Milton, João Bosco e tantos mais em suas lives

O cantor e compositor Noel Rosa
O cantor e compositor Noel Rosa (Reprodução)

Ricardo Soares*

Sim, eu sei prezados leitores que aquilo que direi a seguir é um baita escapismo, mas nesses tempos de dilúvio de ignorância, imaginei com minhas insônias uma singela Arca de Noel. Sim, Noel Rosa, o poeta da Vila e seus amores, como bem escreveu certa feita o fundamental dramaturgo Plínio Marcos que, com certeza, também estaria dentro da arca feita em homenagem ao nosso maior compositor popular.

A arca do Noel poderia partir de algum ponto simbólico da mesma vila Isabel que ele tanto amou, ao redor do que foi o apito da fábrica de tecidos que feriu nossos ouvidos ou mesmo sair do tradicional boulevard 28 de setembro onde se esconde faceira professora de língua portuguesa envolta no seu vasto conhecimento dos fazeres poéticos de nosso idioma.

A professora teme às vezes a conturbação do morro dos Macacos e lamenta o fechamento do "Petisco da Vila" onde arriscou flertes e suspirou em tempos vividos e esquecidos. A tradição é duro de ser mantida mesmo na outrora serena vila Isabel do Rio de Janeiro.

Mas é dali que partiria a Arca de Noel com seus adereços e balangandãs tendo a bordo o anfitrião e outros craques compositores de outras eras como Lamartine Babo, Herivelto Martins, Assis Valente e até o Martinho, aquele mesmo, que é da Vila também.

Nos tempos bicudos que ora atravessamos, parece ser mais necessário a tal delicadeza perdida à qual se refere outro integrante da arca, Chico Buarque de Hollanda. Por isso, como diz um ditado que circula na internet, "medicina, administração, direito, engenharia são atividades nobres e necessárias para sustentar a vida. Mas, a beleza, o romance, o amor, a poesia é por estas que vivemos". Se elas passam e vocês não acham graça então, sinceramente, eu não sei qual é a sustentável leveza de ser que os movem.

Os eflúvios da Arca do Noel são sentidos toda vez que, nesse momento de confinamento, as pessoas louvam a afinação e arte de espantar mazelas que contém as canções de Gil, Caetano, Milton, João Bosco e tantos mais em suas lives e recados. Reverberam também em tanta poesia que se espalha deixando a dor canalha no rodapé por mais que os canalhas estejam no poder. Sacodem nosso marasmo em telas lindas pintadas pelo mundo, em apresentações teatrais virtuais, no sentido do gosto em comum que nos aproxima e nos torna, ternamente, iguais.

A arte na arca do Noel é mais que nunca a manifestação do sentimento de Deus nos homens. Seja qual Deus for o seu. Por sorte essa arca de terna aliança nos amolece o coração banido dos espaços de prazer coletivos nas celebrações ao ar livre ou espaços destinados a um mesmo fim que é nos amarmos uns aos outros como a nós mesmos.

A esperança que me dá é que, apesar de tantos pesares no Brasil ou no mundo, essa Arca de Noel ainda está repleta, não porque eu acredite que o mal sempre vença o bem, mas porque nosso país - como tantos outros no mundo - é capaz de olhar as esperanças que se irradiam desde Marte e continuar produzindo não só escória humana que nos causa dores mas também poetas de muitas vilas e seus amores.

Ricardo Soares é escritor, roteirista, diretor de tv e jornalista. Dirigiu 12 documentários e publicou 9 livros.O mais recente “Devo a eles um romance” disponível em https://www.editorapenalux.com.br/loja/devo-a-eles-um-romance

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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