Religião

26/02/2021 | domtotal.com

A lei do amor: da obrigatoriedade à liberdade da fé

Experiência com Jesus não nos constrange como uma exigência advinda de qualquer autoridade, mas sim de um encontro que nos tira dos ombros o jugo que escraviza

A fé pode ser vivida como um jugo leve e suave. Um compromisso de amor.
A fé pode ser vivida como um jugo leve e suave. Um compromisso de amor. (Ben White/Unsplash)

Eduardo Rodrigues Calil*

O evangelho de Mateus conta, no discurso missionário (Mt 10), que Jesus preparou os discípulos e os enviou para cuidar de todos aqueles que estavam abandonados, aflitos, como ovelhas sem pastor. Jesus não só enviou seus seguidores, mas saiu ele próprio para pregar nas cidades da Galileia (Mt 11). Entretanto, ao que indicam as sutilezas do evangelho, a missão de Jesus e dos discípulos não encontrou sucesso. Ao invés de experimentarem acolhimento e abertura, o que enfrentaram foi hostilidade e rejeição. Mesmo João Batista tivera dificuldade para compreender Jesus como messias, pois sua práxis se distanciava da imagem do juiz vingador anunciada pelo Batista (Mt 11, 2-19).

Dessa incompreensão e dos insucessos missionários, Jesus não passa ao desânimo, nem desiste da missão, mas agradece ao Pai. Em sua oração, ele reconhecia que os mistérios do Reino dos céus estavam sendo revelados apenas aos pequeninos e não aos sábios e entendidos (Mt 11,25). O Jesus do evangelho de Mateus relê, portanto, a vida. Não se prende às frustrações, que existem, e que não são falsamente encobertas, mas sabe olhar também para outros vértices da realidade. Os pequeninos, os indefesos, os humildes, os pobres, os necessitados de libertação, esses têm ouvido para a mensagem de Jesus. E é através deles que o Reino dos céus pode ser gestado e engendrado no já da história. Já os sabichões não ouvem nada além de sua própria sabedoria, tão donos da verdade, tão proprietários de todo o entendimento, não se podem abrir à novidade apresentada por Jesus. São conhecedores da doutrina e da Escritura, mas se fecham ao messias, que a própria Escritura anunciava.

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É certo que o evangelho se refere com a expressão "sábios e entendidos" aos fariseus, mestres da lei e sacerdotes. Para eles, o sistema sagrado tinha um funcionamento harmonioso, regulamentado por suas 613 normas. O sistema religioso que eles comandavam separava as pessoas entre puras e impuras. Para eles, Deus operava segundo as regras religiosas que eles mesmos haviam estabelecido. Com seu sistema legal, essa religião sustentava o templo e fechava os olhos à exploração dos mais pobres. Como podiam estar abertos se seu sistema religioso não tinha porosidades? Como acolher um messias que falava de um Deus misericordioso, que não quer sacrifícios (Mt 9,13)? O que faltava a esses sábios e à sua sabedoria? Abertura como antídoto para o orgulho e a soberba; escuta como antídoto para a pretensão de serem donos da verdade.

Para além do apego às doutrinas e à escravidão dos códigos legais está a mensagem de Jesus: o amor do Pai. E o amor do Pai se mostra na relação que ele tem com seu Filho (Mt 11,27); uma relação na qual o Filho quer nos incluir, revelando-nos o Pai amoroso também como nosso Pai. Uma religião que se prende à lei e se torna, portanto, legalista, formalista, moralista, esquece o rosto amoroso do Pai e também o esconde, descumprindo sua função mais elementar que é a de religar (religare). Uma religião que nos faz sentir mais afastados de Deus e de seu amor, culpados e oprimidos com muitos fardos sobre os ombros, deve ser descartada.

A propósito disso, Jesus mesmo é contundente. Ao olhar para o povo esmagado pelo peso das normas, cheio de culpas e sentindo-se afastado de Deus por conta das suas impurezas, seu convite é surpreendente: "Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso" (Mt 11,28). Não é que Jesus estivesse prometendo vida fácil, livre dos sofrimentos inerentes à existência, mas seu convite era, explicitamente, a possibilidade de viver livre da escravidão da lei e da doutrina. O descanso de que Jesus fala é o amor, pois é o amor que dá coragem para enfrentar os cansaços e os labores da vida, bem como é no amor que a gente encontra descanso e alívio. Amar e sentir-se amado é sinal de que o Reino dos céus se realiza.

Contra a lei religiosa, a lei do amor. Diz ainda Jesus: "Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso" (Mt 11,29). É preciso, pois, abandonar o jugo de uma fé e uma religiosidade que, em vez de libertarem, oprimem. Não interessa a Jesus a observância legalista da lei, a rigidez doutrinal; o que lhe interessa são as práticas das bem-aventuranças. Quer que os aflitos sejam consolados, que haja fome e sede de justiça e que ela seja saciada; que haja misericórdia, construção da paz, luta pela justiça. A lei do amor não vem de fora, não nos constrange como uma exigência advinda de qualquer autoridade, não é a lei de um Pai que nos cerca. Pelo contrário, é a lei que tem como nascedouro o nosso coração, que advém também da nossa experiência de encontro com Jesus e seu Pai, de um encontro que nos tira dos ombros o jugo que escraviza. É a partir dessa experiência que podemos falar do jugo de Jesus; a lei do amor. Uma lei do desejo: que depois de termos experimentado esse encontro com Jesus, outros também possam experimentar a liberdade do evangelho (e através de nós). Tornar-se manso e humilde está diametralmente em oposição a resignar-se ou aceitar tudo comodamente. É antes a coragem para construir o Reino, apesar das contradições dessa vida, sem recorrer às armas do antirreino.

O jugo de Jesus é suave e leve (11,30), porque não é uma obrigação doutrinal, não é a fé vivida com o peso de ser um apanhado de normas a cumprir, de mandamentos a seguir, de práticas a realizar. O jugo de Jesus é suave, porque consiste num amor a ser experimentado, num amor que compromete e descansa.

Quando dizemos que a lei do amor é a lei do desejo, sabemos bem que o desejo não é um capricho, não é uma intenção qualquer, mas é a chama que acende a vida, é a chama que faz a vida se tornar propriamente vida e que, por essa razão, impele, movimenta, põe-nos em caminhada, como as bem-aventuranças de Jesus, que são a indicação de um caminho a fazer, de um itinerário a percorrer. São certamente um risco, mas um risco a correr!

Tudo isso nos faz pensar no nosso modo de viver a fé hoje, muitas vezes preso a obrigatoriedades e interditos. Esses são vividos com uma exigência inconcebível, e mais cedo ou mais tarde pesam nos ombros como jugo escravizador. Muitos jamais conseguirão sair desse esquema e precisarão viver a fé sempre assim: como o reconhecimento de sua falibilidade e miséria, de sua culpa e distância de Deus. Até procurarão o perdão, mas esse esquema se tornará um ciclo terrível de culpa-perdão-culpa, para sustentar uma piedade que é baseada em evitar pecados, em cumprir normas, em escapar de toda impureza legal.

Para uns, valerá tudo para manter o moralismo e o formalismo com que fazem contenção de seus próprios monstros. Para outros, vale mais ter medo de Deus, viver como se ele fosse o olho que tudo vigia e sob os terrores de seus castigos. Alguns ministros da religião adorarão administrar doses cavalares de medo e terror, de controle e penitência, mesmo que a vida vá se tornando insalubre. Aqui a palavra do evangelho também continua valendo: atam fardos pesados sobre os ombros dos outros, mas eles mesmos não os carregam (Mt 23,4).

Contudo, enquanto muitos se perdem em seus esquemas, se oprimem e se deixam levar por uma experiência religiosa que aflige, contém e elimina a vida, a proposta de Jesus continua outra. A fé pode ser vivida como um jugo leve e suave. Um compromisso de amor. Uma experiência fundamental de ser amado, não constrangido. De ser salvo, não condenado. De ser pobre, sim, e de ter limites também, mas mesmo assim ser potencializado, impulsionado. Uma experiência de passar das amarras da obrigatoriedade às asas do amor. Uma experiência que liberta do apego à doutrina e ao legalismo, mas compromete com a vida, com o desejo, com o Reino de Deus. A fé é, ela mesma, em sua raiz, mais profunda; é fonte de libertação, inclusive da religião que escraviza.  

*Eduardo Rodrigues Calil é padre da diocese de Uberlândia. Formado em filosofia, teologia e psicologia, além de estar em formação psicanalítica.



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