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26/02/2021 | domtotal.com

Deixem as estátuas

Mas guardem as lições da história

Estátua de Jefferson Davis derrubada em Richmond, na Virgínia, nos EUA
Estátua de Jefferson Davis derrubada em Richmond, na Virgínia, nos EUA (Parker Michels-Boyce/AFP)

Fernando Fabbrini*

Acabo de ler o excelente A batalha pela Espanha, de Antony Beevor, autor britânico referência em conflitos mundiais e suas causas. Neste livro, Beevor analisa com profundidade o cenário conturbado do país ibérico nos anos 1930: o acirramento entre um punhado de forças de esquerda, centro e direita que acabaram se engalfinhando numa chacina mútua ao longo de três anos. Além do colossal desastre humano, a guerra civil deixou ainda mais dividido e miserável o país que já vinha mal das pernas desde o reinado de Afonso XIII.

Apaixonado pela Espanha, morei e trabalhei em Madri anos atrás. Acompanhei de perto a queda do regime franquista e a difícil transição daquele povo para um sistema democrático - estabelecendo pactos, apaziguando velhos ódios e dissuadindo radicais separatistas. Hoje, lendo as notícias, fico sabendo que foi removida a última estátua do polêmico caudilho Francisco Franco que jazia, quase anônima, numa região autônoma espanhola da costa africana.

Recentemente, em outros países, ativistas destruíram monumentos de personalidades cujas biografias os incomodavam. Ações assim ganham aplausos e likes nas redes sociais, mas é pura tolice midiática. A história não se escreve de marcha-a-ré. 

Se no passado, sob determinadas circunstâncias ou movido por convicções fulano fez isso ou aquilo, é impossível apagar o episódio demolindo pedestais. São marcos dolorosos ou inspiradores de outros tempos e modos; referências sobre as quais devemos, sim, refletir e aprender. E, se necessário, transformar a vida de forma prática e madura. Derrubar imagens de bronze só repete a estupidez do rei que matava mensageiros que lhe traziam más notícias - em vez de ouvi-las, rever estratégias e agir melhor.

Em 1521, na ilha filipina de Mactán, soldados da armada de Fernão de Magalhães, tendo à frente o próprio, brigaram nas praias contra nativos chefiados por Lapu-Lapu, líder tribal. O explorador combatia em nome do rei da Espanha; o cacique defendia a aldeia da invasão estrangeira. Antonio Pigafetta, escrivão da esquadra, no seu Relazione del primo Viaggio intorno al mondo de 1525, conta que a refrega virou uma carnificina. Lapu-Lapu e Magalhães morreram e foram esquartejados; poucos sobraram.

Pois bem: os espanhóis construíram lá um memorial com a placa "em 27 de abril de 1521, o grande navegador português Hernando de Magallanes, a serviço do rei de Espanha, foi aqui assassinado por nativos filipinos". No mesmo local, a poucos metros, ergue-se a estátua de Lapu-Lapu: "em 27 de abril de 1521, o grande chefe Lapu-Lapu repeliu aqui o ataque de Hernando de Magallanes, matando-o e expulsando suas forças". É desse jeito que as histórias são contadas e as estátuas erigidas.

Fatos históricos têm características e contextos próprios; é impossível apagá-los ou enfeitá-los. Sejam edificantes ou vergonhosos, deprimentes ou alentadores, através deles só nos cabe aprender com atenção e humildade. Antony Beevor encerra seu livro com uma reflexão magistral.

Tal como outras, a guerra civil espanhola foi o choque de crenças, de ferocidades; generosidades e egoísmos; hipocrisias e traições; retratos da bravura e do sacrifício daqueles que lutaram de ambos os lados movidos por seus idealismos. A história, que nunca é justa, deve sempre terminar com perguntas. As conclusões são fáceis e convenientes demais.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas às sextas-feiras no Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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