Religião

26/02/2021 | domtotal.com

Os perigos que o papa corre

Dentro ou fora da Igreja, Francisco ainda é rechaçado por quem não se conforma com sua forma de governar

Papa Francisco acena para a multidão no papamóvel, a caminho do Palácio Nacional, na Cidade do México, em 2016
Papa Francisco acena para a multidão no papamóvel, a caminho do Palácio Nacional, na Cidade do México, em 2016 Foto (Ronaldo Schemidt / AFP)
Papa Francisco, antes da Audiência Geral de quarta-feira, rodeado pelos seus seguranças particulares
Papa Francisco, antes da Audiência Geral de quarta-feira, rodeado pelos seus seguranças particulares Foto (Vatican Media)

Mirticeli Medeiros*

Você alguma vez parou para pensar que Francisco corre sérios perigos? Um papa que não tem medo de colocar o dedo na cara dos poderosos e pregar a concórdia, à revelia de todo esse clima de disputa, certamente não seria benquisto por muita gente. Há, também, entre os católicos, quem deseje sua morte sem fazer muita questão de esconder isso.

Um cardeal chegou a dizer, em 2019, que descobriu quais grupos articulam, desde já, o próximo conclave. Sem citar nomes, revelou qual a tática utilizada pelos cabeças dessas "santas facções", que assumem para si a prerrogativa de "salvadores do catolicismo":

1 - A primeira fase consiste em deslegitimar o papado atual;

2 - Depois, se levanta um dossiê - com financiamento pesado - para promover publicamente alguns cardeais que estejam ligados aos interesses desses correligionários. A suspeita é que grupos tradicionalistas americanos estejam injetando muito dinheiro nesse projeto;

3 - Eleger um papa com "cara de moderado", sem que realmente seja. A ideia é conquistar a opinião pública para poder evitar a ascensão de um "Francisco II".

Se formos parar para analisar cada item dessa lista, certamente virão à nossa mente muitos nomes que seguem à risca essa agenda. Basta olhar para essa nova "mídia católica", das redes sociais, que acabou se tornando um antro de cismáticos que se auto intitulam "romanos", mas não estão com o bispo de Roma. E tem muita gente nesse bolo que, sem perceber, acaba virando massa de manobra desse movimento anti-Francisco, cuja bandeira passa longe de uma militância pela causa religiosa.

O líder atual da Igreja Católica tem personalidade forte, não se deixa condicionar e, por conta disso, acaba tomando decisões consideradas "impopulares" pela maioria dos curiais da velha guarda, ligados ao espírito de corte. Incomodados com essa postura pontifícia, o acusam de atuar sozinho; inconformados, na verdade, com o fato de o papa não trabalhar em prol das estruturas de poder dentro da Igreja.

Enquanto olham torto para o seu jeito de governar, Francisco afirma, com todas as letras, que simplesmente cumpre sua missão. Diz que o Evangelho é a sua bússola. Segue suas convicções e inspirações, sem se preocupar com o que pensam ou deixam de pensar a seu respeito. Mostra a que veio, sem titubear, como bom argentino.

E, em se tratando do cenário das contradições que imperam dentro dos sagrados palácios do Vaticano - e não é de hoje -, melhor ter alguém com braço de ferro para enfrentar o establishment. Sem alguém como Francisco, dificilmente aconteceria a reforma da Cúria Romana que está em curso. A história da Igreja já comprovou isso.

Nem Bento XVI, um exímio conhecedor da máquina vaticana, conseguiu executá-la. As reformas não são para os diplomáticos, mas para os ousados, para os melhores observadores dos "sinais dos tempos". Por sinal, quem cunhou esse termo foi João 23, o artífice do Concílio Vaticano II, ao se referir às mudanças vividas pela sociedade nos idos de 1960.

As ameaças externas

Francisco está na mira do ISIS. Quem disse isso, em 2014, foi o então embaixador iraquiano na Santa Sé, Habeeb M. H. Al Sadr, quando o pontífice se preparava para visitar a Turquia e a Albânia. Na época, a Santa Sé descartou qualquer possibilidade de ataque à integridade física do pontífice. No entanto, embora a instituição não revele publicamente a sua preocupação, a segurança de Francisco teve que ser repensada. Atiradores de elite foram posicionados no teto da Basílica de São Pedro e o controle dos acessos ao pequeno Estado foi reforçado.

A quebra de protocolos, por parte de Francisco, também é um fator preponderante para que todo o esquema de segurança seja reformulado. O pequeno Estado chegou a consultar outras nações europeias para identificar brechas que pudessem colocar em risco o sumo-pontífice. Chegaram a pedir a opinião de analistas para criar estratégias específicas para este pontificado.

A viagem ao Iraque, que está marcada para o dia 5 de março, é um desafio em todos os sentidos. Francisco vai para "o olho do furacão", e está consciente que se trata de uma das viagens apostólicas mais perigosas de seu pontificado. O que se sabe é que algumas autoridades vaticanas, inclusive dentro da Secretaria de Estado, desaconselharam a viagem, sobretudo após os ataques terroristas ocorridos em fevereiro. Sem contar todo o clima de instabilidade política que foi se intensificando novamente em 2019, um dos motivos que levou João Paulo II a desistir da viagem, em 1999.

Mas o que levaria Francisco a se submeter a esse tipo de risco? O que significa, para o país, o representante oficial dos cristãos em visita ao Iraque? Muita coisa. Mais do que podemos imaginar.

Francisco não quer somente honrar o compromisso de João Paulo II de visitar o país, mas também quer fazer história: será o primeiro pontífice romano a aterrissar na terra de Abraão, a entrar em contato com uma minoria cristã que, apesar das intempéries, permaneceu de pé. Além disso, o Iraque tem muita relevância do ponto de vista geopolítico.

De acordo com o estudioso ortodoxo libanês Antoine Courban, que é muito respeitado no mundo muçulmano, em entrevista ao site italiano Le Formiche, o Iraque é o portão do mediterrâneo, um local estratégico onde está a chave para alcançar a paz no território. Não por acaso, Francisco irá para a "cidade santa" do islamismo xiita mundial - Najaf - e visitará a cidade de Abraão, Ur, o patriarca das três grandes religiões monoteístas.

"O papa vai à antiga Mesopotâmia como homem de paz, como construtor de paz. Se olharmos para o contexto e o momento no qual ele visitará o país, posso dizer que se trata de um verdadeiro kairós (tempo de graça)", ressaltou o professor.

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*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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