Brasil

01/03/2021 | domtotal.com

Lembranças, lembranças

Às vezes me dá vontade de rezar no plural a Ave Maria. Sim, por que não Ave Marias cheias de graça?

Porque é mais que lembrança, é saudade sem fim
Porque é mais que lembrança, é saudade sem fim (Diego Geraldi / Unsplash)

Afonso Barroso*

Não é uma descoberta minha, pois trata-se da chamada verdade verdadeira: todos nós, eu, tu, ele, nós, vós, eles, vocês, todos vivemos de lembranças. Eu vivo delas o tempo todo.

A cada noite, ao rezar antes de dormir, assim como a cada manhã, quando acordo, lembro-me da minha mãe. Chamava-se Maria, e era uma santa. Por isso, às vezes me dá vontade de rezar no plural a Ave Maria. Sim, por que não Ave Marias cheias de graça?

Ato contínuo lembro-me do meu pai José Barroso e do meu irmão Jadir. Do meu pai, porque ele invariavelmente comia um ovo cozido no café da manhã. Faço o mesmo todos os dias. E lembro-me do Jadir, que pedia no Café Nice, toda vez que lá íamos, um "pingado quente". Meu café matutino também inclui um pingado quente. Olha o Jadir aí.

As lembranças se sucedem e me atropelam o dia inteiro. Se descasco uma laranja depois do almoço, lembro-me novamente do Velho Barroso. Ele descascava de um jeito diferente: não deixava o mínimo sinal da casca. Ou seja, depilava a laranja completamente antes de abrir a tampa em forma de cone.

Lembro-me da minha irmã e madrinha, a Mestra Maria, toda vez que leio alguma coisa. Afinal de contas, foi ela que me ensinou a ler e escrever. E quando escrevo, lembro-me do meu irmão, Zé Barrosinho, que era craque em português. Foi ele que redigiu o documento de emancipação da vila de São José do Jacuri quando ela virou cidade, desvinculando-se do município de Peçanha.

Também me vem à lembrança meu irmão Antônio, sempre que pego o violão para arranhar uma valsinha qualquer. O Antônio tocava muito bem, e era bom também no saxofone, instrumento que ele tocava no exato momento em que morreu de infarto. De repente, em meio a um choro do Pixinguinha, ele parou, fechou os olhos e caiu. Quem o acompanhava ao violão naquele momento dramático era o Luizinho, sobrinho querido e igualmente personagem das minhas lembranças diárias.

Outro irmão de quem me lembro não raras vezes é o Jair Barroso. Político por excelência, Jair elegeu-se prefeito do Jacuri, e só não fez tudo que pretendia pela cidade porque uma reforma inesperada, na ocasião, reduziu o mandato dos prefeitos para dois anos. Lembro-me da honestidade dele cada vez que ouço falar de certos políticos de hoje, que dele nada têm.

Tenho muitos motivos e oportunidades para lembrar também de outro irmão, Luiz Barroso. Melhor dizendo, padre Luiz Barroso. Estudou e ordenou-se no seminário de Diamantina para alegria da nossa mãe Maria. Um dos sonhos dela era ter um filho padre, e o sonho se realizou. Toda vez que vejo uma igreja ou assisto a uma missa, lembro-me do padre Luiz. Formado na mais severa disciplina católica, ele rezava a missa em latim e custou a se acostumar com os novos cânones da igreja católica.

E como não lembrar a outra irmã, Ambrosina? A querida Zina, vivíssima, que acaba de completar nada menos que 90 anos. Sobramos apenas eu e ela da prole de oito irmãos. Nenhum durou tanto quanto ela, nenhum viveu a vida com tanta vida que a Zina vive. Sei que ainda viverá para além dos 100. Ela é a minha lembrança presencial.

E me lembro, todo santo dia e sem nenhuma motivação aparente, da minha filha Maria Cecília, que perdemos quando ela completava 15 anos, em novembro de 1994. Foi num acidente de automóvel. Lembrança que eu queria esquecer e não posso. Porque é mais que lembrança, é saudade sem fim da minha doce Tutuca.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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