Cultura

01/03/2021 | domtotal.com

Segunda ou domingo de manhã?

Manter um blog é praticar uma nova modalidade de arqueologia sensorial

Não tem tensão nenhuma. Tem tesão de domingo de manhã
Não tem tensão nenhuma. Tem tesão de domingo de manhã (Unsplash/Pratiksha Mohanty)

Ricardo Soares*

Nesses tempos virtuais manter um blog – modalidade que já esteve mais em voga – é, de certa forma, praticar uma nova modalidade de arqueologia sensorial. No caso do meu blog,  já velhote, mais de uma década, se torna uma espécie de praia com sedimentos de conchinhas antigas e outros restos trazidos por marés de sentimentos ambíguos. Fica tudo lá, como um diário, a ponto de haver menção a coisas que não mais existem como locadoras de vídeos. Me reencontrei dia desses com uma dessas postagens que agora compartilho com vosmecês como prova de que tudo que não é sólido pode ou não se desmanchar no ar. Depende da ocasião nesse imenso oceano cheio de garrafas lacradas virtuais que navegam em busca de leitores perdidos. Ou não. O que escrevi em um domingo de julho de 2008 está entre aspas abaixo. E aos que se interessarem em conhecer mais meu, digamos, museu de escritos o endereço é www.todoprosa.blogspot.com.

"Não tem tensão nenhuma. Tem tesão de domingo de manhã com o sol entrando nas chanfras da janela e algum radinho de pilha ligado ao longe enquanto a toalha molhada se pendura no parapeito e um cheiro de pão dormido na chapa irradia a vontade de tomar café forte.

Aquele mix de shampoos deu uma coceira na cabeça e a cortininha do box com seus motivos de sapinhos está tão desgastada e velha que mal protege o banho quente que vai inaugurar essa lida. O edredom laranja caiu no chão e nem se repara se a poeira é do bem ou do mal porque o calor matinal espantou as alergias e as rinites e os pássaros passaram adiante o serviço de despertador.

Dois ou três copos de vinho estão no assoalho. Meio bebidos, meio fumados, largados antiquíssimos como os nacos de pizza em pratos mortos que não foram devorados na noite de sábado. As visitas foram sem se despedir? Quando é que se devolve o filme na locadora? Temos que gostar de Sally Field?

Alongamento diante da janela ao lado da rede desbotada onde jaz o gato gordo que ri. A bicicleta está largada na sala pois na garagem os larápios levam os espelhos. Ontem várias pilastras ficaram marcadas do amarelo horrível do carro. Economizar pra funilaria pois se fosse no Rio seria lanternagem.

Há um estranho catálogo dentro do jornal dominical que anuncia as cidades exóticas do planeta. Dars El Salaam, essa é a escolha quando o avião passa no horizonte e um barulho de lata batida faz-se ouvir três andares abaixo. Ainda há sono pelo apartamento e ninguém pensa na cozinha, na louça ou no que fazer para o almoço. Uma porção de imãs na geladeira anuncia que um bom yakisoba pode ser a solução dos problemas. Mas ninguém aqui gosta de repolho. Ah, mas tudo bem. Ninguém gosta de repolho, do síndico, do governador e todo mundo anda olhando torto para o presidente. Nem por isso vamos deixar de esticar o corpo no sofá, olhar o cão gordo que mendiga o passeio e pedir pra ele dar um tempo que mais tarde,quem sabe, ganha uma volta no quarteirão. Sentem-se algumas gramas a mais se acomodando na cintura. É o peso do domingo que se encaixa enquanto uma nuvem de algodão desenha um naco da infância no olho dos adultos".

*Ricardo Soares é escritor e cronista. Seu livro mais recente é 'Devo a eles um romance'.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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