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02/03/2021 | domtotal.com

O mundo é plano ou ainda é redondo?

'A burguesia é que é pequena!'

As projeções azimutais equidistantes da esfera como esta também foram cooptadas como imagens do modelo plano da Terra que descreve a Antártica como uma parede de gelo em torno de uma Terra em forma de disco.
As projeções azimutais equidistantes da esfera como esta também foram cooptadas como imagens do modelo plano da Terra que descreve a Antártica como uma parede de gelo em torno de uma Terra em forma de disco. (Wikimedia)

Jose Antonio de Sousa Neto*

Já faz algum tempo que Thomas Friedman publicou seu best seller "O mundo é plano". Quando penso no tema sempre me lembro, em particular, de um dos muitos exemplos que ele apresenta em seu livro para demonstrar que o mundo "não seria mais redondo". Ele cita o caso de passageiros chegando, por exemplo aos EUA, em um voo internacional de uma companhia de bandeira americana, e que, ao desembarcar, se dão conta de que a bagagem foi extraviada. Conheço vários casos assim e uma vez, em uma viagem que fiz pela American Airlines (AA), minha bagagem só foi encontrada vários dias depois em Assunção no Paraguai. O mais interessante é quando você liga para a companhia para resolver o problema e se dá conta que o / a atendente fala inglês com um sotaque bem forte. O que a maioria das pessoas ainda não se dá conta também é que muitas vezes quem está ajudando a resolver o problema da bagagem que deveria chegar no voo da AA em Nova Iorque está, na verdade, em um centro de atendimento na Índia...

Mas olhando para minha própria vivência profissional não preciso ir muito longe para pensar como o mundo estaria se tornando cada vez mais plano. Basta lembrar de um projeto de engenharia em que participei há algum tempo e cujo objetivo era construir escolas e unidades básicas de saúde em BH. A equipe tinha engenheiros em BH, em São Paulo, em Sidnei na Austrália, em Londres e nos EUA. Participavam os engenheiros mais qualificados para aqueles projetos específicos, independentemente de onde estivessem, e as reuniões já eram remotas muito antes da pandemia. Posso também refletir sobre o fato de que a EMGE, por exemplo, faz parte da IAJES, uma rede global de escolas de engenharia jesuítas (uma rede única e privilegiada de integração acadêmica e de pesquisa) e que, em função da pandemia, tem feito seus encontros internacionais de forma remota. 

O dia a dia do compartilhamento de informações tem se transformado com grande velocidade. O "híbrido" veio para ficar.  Ao longo deste início de ano de 2021 eu mesmo já participei de eventos onde haviam pessoas fisicamente presentes (guardadas todas as condições de segurança necessárias neste período de pandemia) e outras participando / assistindo remotamente a partir de suas casas / home offices em BH, na Europa, na África e até na China simultaneamente.

As mídias sociais se tornaram globais, as Big Techs criaram uma outra escala para o conceito de multinacionais, o capital financeiro já é global há muito tempo, a política se globalizou e os países parecem ver suas fronteiras derreterem assim como o poder do estado nação clássico. Sim, parece que o mundo realmente se tornou plano, mas será que é isso mesmo? Será que esta visão que é compartilhada hoje tanto por globalistas como por anti-globalistas está correta?

Já há algum tempo o pesquisador Pankaj Ghemawat da Universidade de Harvard vem chamando a atenção para o fato de que as coisas não são bem assim e que o mundo ainda continua bem "redondo". Uma palestra sua através da TED Talks traz alguns dados reveladores. Através de uma pesquisa / questionário ele procurou obter a percepção das pessoas com relação ao processo de globalização e comparou esta percepção sobre temas / aspectos importantes de um processo de globalização com dados de realidade. Vale realmente a pena assistir.

Ghemawat selecionou alguns tópicos e chegou a alguns resultados / números percentuais, cuja ordem de grandeza ainda parece ser válida apesar de que alguns poucos anos já tenham se passado e apesar das rupturas e grandes mudanças trazidas pela pandemia:

  • Percentual de chamadas internacionais em relação ao número total de chamadas no mundo: 5% incluindo as chamadas feitas via internet.
  • Percentual da população mundial que é composta por imigrantes de primeira geração: 3%
  • Percentual de Investimentos diretos estrangeiros em relação ao total de investimentos diretos feitos em todo o mundo: Aproximadamente 10%
  • Exportações como percentual do PIB (Produto interno bruto e retirando a dupla contagem que componentes que às vezes passam por vários países até a montagem final do produto): Aproximadamente 20%

Enfim, como salienta Ghemawat, são números bem aquém dos percentuais muito mais altos que muitos entendem representar o atual nível de globalização de nosso mundo atual. Para demonstrar isso,  Ghemawat , através da Universidade de Harvard, também conduziu uma pesquisa global sobre qual era a percepção das pessoas sobre estes mesmos temas. As respostas foram para cada um destes tópicos respectivamente:

1 – Quase 40%;

2 – Em torno de 30 %;

3 – Em torno de 40%;

4 – Em torno de 45%

Até mesmo se pensarmos em mídias sociais como o Facebook ou o WhatsApp e nos perguntarmos qual o percentual de nossos contatos / amigos estão no exterior, a resposta para a grande maioria de nós será muito provavelmente um número abaixo de 15% ou ainda mais próximo de 0% do que de 15%.

Também há de se reconhecer que os desafios do Covid 19 nos obrigaram a ver a realidade como ela é, e sem romantismos globalistas. Os graves riscos inerentes às cadeias produtivas globais integradas, por exemplo, ficaram evidentes, apesar de muitos dos seus evidentes benefícios potenciais. A hipocrisia dos discursos de integração e ajuda recíproca entre nações também não resistiu aos testes mais básicos de cooperação e solidariedade. Às vezes temos a nítida impressão de que global mesmo, só o vírus...

Na verdade, tanto Friedman como Ghemawat estão corretos. O mundo está se tornando plano, mas continua bastante redondo. Para tentar esclarecer isso eu me lembro de um curioso diálogo metafórico que tive com o Consul Geral do Reino Unido em São Paulo há alguns anos (ele era um dos meus chefes na época). Ao longo do trabalho acabávamos com frequência encontrando as mesmas pessoas, descobríamos várias pessoas que conhecíamos em comum ou identificávamos vínculos entre elas. Acabei em alguma destas ocasiões exclamando: "como este mundo é pequeno!". Com um sorriso ele me respondeu: "não José Antonio, este mundo não é pequeno, a burguesia é que é pequena!". Pois é, este mundo está cada vez mais plano, mas só para uma minoria. E uma minoria que parece, às vezes, estar ficando cada vez menor. Para uma grande maioria este mundo parece estar ficando cada vez mais inevitavelmente redondo. Além de estar crescendo para um tamanho como o do planeta Júpiter e fazendo com que as distâncias a serem percorridas ao longo do globo fiquem ainda maiores. Acabamos aqui voltando mais uma vez ao Professor Yuval Noah Harari da Universidade de Jerusalém e à sua preocupação com aquelas um bilhão de pessoas ou mais que já estão ou estarão, em um futuro bem próximo, quase que totalmente excluídas do mundo plano, digital, de alta tecnologia, integrado, educado, culto e capaz de sobreviver criando oportunidades e se reinventando. Uma verdadeira tragédia global.

E quanto ao desvio de percepções tão grande com relação ao atual estágio de globalização? Bem, como sempre, o capital e a mídia mainstream têm seus interesses. Questões éticas ficam frequentemente em segundo plano. Como diz a letra da música do Tears for Fears, "everybody wants to rule the world". Não faltam aqueles que querem mandar e dominar / editar o mundo e muitos obtém algum sucesso parcial, pelo menos por algum tempo. O maior temor é que o potencialmente absolutista poder digital e dos dados pode estender este "algum tempo" de modo indefinido e ainda desconhecido, com consequências nunca antes vivenciadas pela humanidade.

Os desafios não significam que devemos ignorar o fato de que o atual modelo econômico que temos tem produzido o melhor resultado em termos de geração e até mesmo distribuição de riquezas que a humanidade já vivenciou. Riquezas inimagináveis para os seres humanos foram geradas e continuam sendo geradas nos últimos 200 anos e até mesmo nos últimos 70 anos. Mas estamos em um ponto de inflexão e precisamos buscar novas soluções e aprimoramentos sem cair, é claro, nas armadilhas ideológicas dos extremos políticos, nas armadilhas de modelos econômicos e sociais comprovadamente inviáveis e na armadilha da concentração excessiva do poder econômico em algumas poucas organizações.

*Professor da EMGE (Escola de Engenharia e Ciência da Computação)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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