Religião

03/03/2021 | domtotal.com

De protestos a pedidos de banheiro limpo, Iraque se prepara para receber o papa

Visita papa gera comoção nacional nas ruas e redes sociais

Trabalhadores colocam um pôster da visita do papa em uma rua da cidade iraquiana de Qaraqoch, na província de Nínive, antes da visita de Francisco, em 24 de fevereiro de 2021
Trabalhadores colocam um pôster da visita do papa em uma rua da cidade iraquiana de Qaraqoch, na província de Nínive, antes da visita de Francisco, em 24 de fevereiro de 2021 (Zaid AL-OBEIDI/AFP)

Segunda onda de covid-19, novo confinamento, disparos de foguetes e infraestruturas em ruínas. No Iraque, a visita do papa é um evento histórico, mas também uma dor de cabeça logística.

"Estamos muito felizes com a chegada do papa Francisco, mas ela ocorre em um momento muito difícil", confessa um dos responsáveis da organização na presidência iraquiana.

Este "momento bastante complicado" começou há algumas semanas com um novo pico de infecções por coronavírus – 4 mil casos diários em comparação com centenas antes. Entre os novos pacientes está o embaixador do Vaticano em Bagdá, Mitja Leskovar.

Este aumento de casos faz temer que as missas se tornem grandes focos de contágio.

O papa e dezenas de jornalistas e autoridades eclesiásticas em seu avião foram vacinados. Mas os cerca de 40 milhões de iraquianos nem começaram a receber as primeiras doses.

Enquanto os iraquianos pouco respeitam o distanciamento físico, quarentenas e máscaras, os organizadores da visita papal limitaram o número de pessoas nas missas.

O estádio de Erbil, com capacidade para 20 mil pessoas, só receberá cerca de 4 mil fiéis na missa dominical, segundo fontes próximas à organização.

O papa também será privado dos encontros com multidões de que tanto gosta.

Para tentar evitar o pior, durante toda a visita papal – de sexta-feira, 5, a segunda, 8 de março – haverá confinamento nacional e "forças de segurança serão mobilizadas para garantir a segurança das estradas", explicou o vice-ministro das Relações Exteriores, Nizar Kheirallah.

Violência, jihadistas

Em Bagdá, a segunda capital mais populosa do mundo árabe, com cerca de 10 milhões de habitantes, a efervescência é palpável.

Os sinos das igrejas são lustrados, enquanto os pôsteres de políticos são substituídos por cartazes com mensagens de boas-vindas ao soberano pontífice, o primeiro na história a visitar o Iraque, país muçulmano de maioria xiita e berço do cristianismo.

"Queremos consertar pequenas coisas para que nossa cidade histórica, um símbolo de toda a humanidade, possa receber o papa", disse o prefeito de Bagdá, Alaa Maan.

Mas a alegria geral e os preparativos não fazem esquecer o contexto explosivo e uma viagem com ambições exageradas.

Em três dias, o papa argentino planeja percorrer mais de 1.645 quilômetros, a maioria por via aérea, o que significa especificamente que em um país como o Iraque seu helicóptero ou avião sobrevoará áreas onde jihadistas do grupo Estado Islâmico (EI) ainda se escondem.

Estará em Bagdá e Erbil (norte), duas cidades onde foguetes foram lançados recentemente contra interesses americanos.

O que representa uma verdadeira dor de cabeça para as forças de segurança que acompanharão o papa.

Papamóvel?

Quanto ao famoso "papamóvel", veículo semiaberto em que o papa costuma mergulhar em meio à multidão que o aclama atrás de vidros blindados, a priori, não estará na viagem.

A visita do papa também se traduzirá, principalmente para os habitantes do sul, rural e tribal, que costumam se manifestar regularmente para exigir melhores infraestruturas, em melhorias inesperadas.

Na província de Zi Qar, onde o papa visitará no sábado a antiga Ur, as estradas estão sendo pavimentadas e pintadas. Também foram instalados pontões de madeira e protetores solares e haverá visitas guiadas na web.

Nesta província de Zi Qar, os habitantes, que iniciaram a "revolução de outubro" contra o poder em 2019, retomaram os protestos nas últimas semanas. Na última, seis manifestantes morreram.

Depois de Ur, o papa falará ao mundo a partir de Mossul, símbolo das atrocidades do EI de 2014 a 2017, e visitará Qaraqoch, uma cidade cristã localizada um pouco mais ao sul, onde religiosas nos telhados das igrejas pintam cruzes que acabaram de ser restauradas.

Durante sua visita, os guarda-costas e padres não deixarão o papa, afetado pela dor ciática.

"O Vaticano acaba de nos anunciar que o papa não pode dar mais do que dez passos. Não sabemos realmente o que fazer", disse uma fonte da presidência iraquiana.

Mas tudo por uma boa causa. "Que autoridade estrangeira pode se recusar a vir ao Iraque agora, se o papa o fez?".

Mulher iraquiana camina em frente a um mural que representa o papa Francisco, em Bagdá (Ahmad Al-Rubaye/AFP)Mulher iraquiana camina em frente a um mural que representa o papa Francisco, em Bagdá (Ahmad Al-Rubaye/AFP)

Redes sociais

Vendo como as autoridades se apressaram para embelezar as ruas e cidades do Iraque para receber o papa Francisco nesta semana, os jovens recorreram às redes sociais nesta terça-feira (2) para fazer alguns pedidos adicionais.

Usando a hashtag "Peça ao papa", os usuários estão pedindo com sarcasmo para que Francisco ajude a melhorar as infraestruturas e os serviços públicos de seu país.

"Peço ao papa que visite os hospitais, seus banheiros e as salas de emergência... talvez os limpe", escreveu Layal Al Qudsi no Facebook.

As infraestruturas sanitárias do Iraque estão em péssimo estado devido a décadas de guerra, corrupção e falta de investimento, e os pacientes reclamam da escandalosa falta de higiene.

Husein Habib afirmou que foram realizadas obras de pavimentação em Ur, onde o papa planeja celebrar um ato interreligioso, e pediu a Francisco que vá "de carro pela estrada principal ao norte. Talvez também a pavimentem".

Um usuário do Twitter pediu ao pontífice, de 84 anos, que faça uma visita surpresa a algum lugar do Iraque para ter uma ideia melhor de como são realmente os serviços para os cidadãos.

Muitos iraquianos, inclusive na capital Bagdá, moram em ruas que não são pavimentadas e que alagam no inverno, enquanto a maioria das casas tem apenas algumas poucas horas de eletricidade por dia.

A falta de serviços públicos provocou manifestações em massa no Iraque em 2019, que acabaram após a violência relacionada aos protestos, que deixou cerca de 600 mortos e foi condenada pelo papa na época.

Montazar Mohanad pediu ao papa em tom de brincadeira uma fatwa, a lei religiosa no Islã. "Pessoal, o papa é somente uma figura religiosa, não é como nossos clérigos, que têm empresas, partidos políticos e grupos armados", disse.

Muitos dos políticos ou paramilitares mais destacados do Iraque foram clérigos religiosos, incluindo o mais destacado deles, Moqtada Sadr, ex-líder do Exército Mahdi que lutou contra as tropas americanas.

Ahmed Al-Maliki, um jovem usuário do Facebook, parece desanimado com as perspectivas de seu país e só pediu ao papa "que me leve com ele para o Vaticano".

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AFP



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