Brasil

03/03/2021 | domtotal.com

A banalização da morte: parte da sociedade vive negação hipomaníaca motivada pelo presidente

Bolsonaro tem se comportado como um Jim Jones local, levando as pessoas para a morte como se fossem a uma festa ou a um futuro melhor

O negacionismo do presidente e sua indiferença diante da morte o tornam, sem nenhum exagero, um genocida
O negacionismo do presidente e sua indiferença diante da morte o tornam, sem nenhum exagero, um genocida (José Dias/PR)

Reinaldo Lobo*

Bolsonaro e seus seguidores venceram. As pessoas não usam máscaras ou as deixam no queixo, aglomeram-se em festas clandestinas ou até públicas, amontoam-se em restaurantes, desdenham do perigo, falam mal das vacinas e muitas delas convenceram-se de que a Covid-19 não passa de um invenção exagerada de esquerdistas mancomunados com a China.

Quando ouvem as notícias dos números alarmantes de mortes e de infectados dizem que são dados "falsificados". Os cientistas insistem em divulgar fatos sobre as sequelas da doença mesmo nas suas manifestações mais leves, mas quem ouve os cientistas?

Muitos reagem como o governo, minimizando a morte de idosos, pois afinal vão morrer mesmo, estão na sua hora. Quando uma pessoa jovem morre, é porque tinha uma doença prévia – é a exceção marcada por uma "fatalidade".

Não se espere dessas pessoas nenhum respeito pela vida do outro, qualquer altruísmo ou espírito de solidariedade coletiva.

Há uma negação do tipo hipomaníaco: vamos ignorar o perigo e nos divertir enquanto dá tempo, pois não se sabe o que virá amanhã. Essa é uma atitude desesperada, euforizante, para fugir da realidade difícil.

Vivemos numa sociedade de massas e as massas, por definição, implicam em aglutinação e grandes manifestações públicas. Elias Cannetti, prêmio Nobel de 1981, dizia com razão no seu livro sobre a psicologia das massas (Massa e poder), que o indivíduo se sente diluído e protegido pelas multidões. Encostar o corpo em outros, aglomerar-se, dá ao sujeito um sentimento de pertinência e, ao mesmo tempo, de irresponsabilidade.

Freud e outros autores psicanalíticos já tinham ido na mesma direção, demonstrando que, na massa, os animais humanos tendem a seguir a onda. Tomam atitudes em grupo que não tomariam individualmente. Um exemplo clássico são os linchamentos, nos quais o sujeito se sente justificado e protegido pelo anonimato grupal e dá vazão aos seus instintos mais agressivos e brutais.

São conhecidos também os casos de estupros coletivos, onde vários indivíduos atacam mulheres em determinadas circunstâncias. Os relatos da Segunda Guerra Mundial são bastante claros sobre isso. Grupos de soldados de todos os países envolvidos ocupavam cidades adversárias, atacavam e estupravam mulheres de várias idades vulneráveis e sem alguma proteção. Escondiam-se no grupo sob a racionalização de que estavam se vingando do inimigo dessa maneira.

Os suicídios coletivos, como aquele da seita fanática de Jim Jones, na Guiana, em 1978, obedecem a uma lógica semelhante. Uma espécie de psicose grupal leva as pessoas a seguirem líderes carismáticos e seus discursos hipnóticos. Os delírios são resultado de cisões nas mentes individuais, negação da realidade e que contagiam coletivamente.

Freud detectava uma espécie de imaturidade grupal que dominava seus membros como uma epidemia, levando-os a agir, às vezes, em busca da destruição ou até da autodestruição. O psicanalista inglês Bion falava de um "pressuposto básico de ataque-e-fuga", de natureza paranoide, que repousa no inconsciente dos grupos. Sem essa disposição generalizada não haveriam tantas guerras nem a banalização da morte.

Bolsonaro tem se comportado como um Jim Jones local, levando as pessoas para a morte como se fossem a uma festa ou a um futuro melhor determinado pela primazia da economia. Como nas guerras, as multidões são levadas a crer num "motivo superior", no caso, a estabilidade da economia do país, que não pode parar de funcionar.

A função protetora do Estado, que deveria privilegiar a vida em primeiro lugar dos cidadãos, provendo auxílio e distribuindo a renda de modo a manter as comunidades vivas, é minimizada. Em nome do projeto neoliberal, para o qual "tanto faz" se idosos e pobres morram, o Brasil se tornou um dos recordistas em escala mundial de mortes, passando de 250 mil vítimas. O negacionismo do presidente e sua indiferença diante da morte ("e daí?", disse Bolsonaro) o torna, sem nenhum exagero, um genocida.

Um aspecto da banalização da morte pode ser entendido por aquela frase atribuída ao ditador soviético Josef Stálin: "Se um único indivíduo morre, é uma tragédia; se um milhão de pessoas morrem, é uma estatística".

Cinismo óbvio, a frase revela um traço da mente humana que ficou bem caracterizado pelas guerras e massacres do século 20: a indiferença, destinada a anestesiar a psique diante de traumas e catástrofes brutais. É uma forma de a mente se adaptar ao pior e sobreviver. Se Stálin disse mesmo essa frase, não era inocente, mas também realista, cínico e pragmático. Muitos tinham de morrer em nome de "causas" destinadas justificar a crueldade humana.

No Brasil atual, muitas pessoas já "se estão acostumando" às mortes por Covid, se não ocorrem no seu quintal nem na sua família. Essa é a verdadeira tragédia. Não vemos manifestações de indignação, cuja ausência não se explica apenas por muita gente estar com medo de sair às ruas, uma vez que estão indo em massa às praias, às festas e aos bares.

Na verdade, estão-se adaptando ao "novo normal" e, com ou sem máscaras, querem fazer parecer que tudo está bem e que a economia volta a funcionar sem a preocupação com o vírus mortífero.

Os dirigentes do país estão evitando, mais uma vez, a elaboração de nossos lutos, como se tentassem manter a infantilidade na população. Já não fora elaborado o luto pelo morticínio durante a Ditadura, negado por uma anistia falsa em que se perdoaram assassinos e torturadores, e mantida uma versão que nega até hoje ter havido torturas e mortes.

Agora, os militares herdeiros dessa mesma Ditadura querem apagar as milhares de perdas da pandemia, impedindo o reconhecimento da dor e o luto que amadurece os seres humanos. O presidente de plantão faz piadas sobre o assunto, procurando rotinizar e até carnavalizar a morte, tentando manter a euforia hipomaníaca brasileira. Até quando?


*Reinaldo Lobo é psicanalista e articulista

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!