Religião

03/03/2021 | domtotal.com

Papa intervém pelo Myanmar e saúda Igreja mártir do Iraque em audiência geral

Francisco clama por diálogo no país asiático e pede orações para sua viagem

Francisco durante a audiência geral do dia 3 de março no Palácio Apostólico no Vaticano
Francisco durante a audiência geral do dia 3 de março no Palácio Apostólico no Vaticano (Vatican News)

Na audiência geral desta quarta-feira (03), na Biblioteca do Palácio Apostólico, no Vaticano, o papa Francisco deu continuidade às suas reflexões sobre a oração, discorrendo sobre a oração e a Trindade, durante a catequese semanal. Ao fim do evento, ele pediu diálogo no Myanmar e falou sobre sua viagem ao Iraque.

Diálogo

"Continuam a chegar de Myanmar tristes notícias de confrontos sangrentos, com perda de vidas humanas", lamentou Francisco, reforçando sua defesa da democracia e dos direitos dos manifestantes no país asiático. "Desejo voltar a chamar a atenção das autoridades envolvidas, para que o diálogo prevaleça sobre a repressão e a harmonia sobre a discórdia", acrescentou.

O papa apelou à intervenção da comunidade internacional, "para que as aspirações do povo de Myanmar não sejam sufocadas pela violência". "Que aos jovens daquela amada terra seja concedida a esperança e um futuro onde o ódio e a injustiça deixem espaço ao encontro e à reconciliação", pediu.

Francisco repetiu a sua mensagem em defesa da estabilidade e da convivência democrática em Myanmar, defendendo o "gesto concreto da libertação de diversos líderes políticos, presos". Um golpe de Estado derrubou o governo de Aung San Suu Kyi, tendo a junta militar autorizado o recursos a força letal para dispersar as manifestações de protesto da população.

Viagem

O papa também saudou a "Igreja mártir" do Iraque, dois dias antes da sua viagem ao país, a primeira de um pontífice, pedindo orações dos católicos pelo sucesso desta visita, que considerou uma "peregrinação". "Depois de amanhã, se Deus quiser, irei ao Iraque, para uma peregrinação de três dias. Há muito tempo desejo encontrar-me com aquele povo, que sofreu tanto, encontrar-me com aquela Igreja mártir", disse.

Dos cerca de 1,5 milhões de cristãos que viviam no Iraque antes da segunda Guerra do Golfo, em 2003, estima-se que permaneçam 250 mil, uma diminuição de mais de 80%. O papa vai encontrar-se, entre 5 e 8 de março, com a comunidade cristã, responsáveis políticos e líderes de outras religiões, incluindo o grande aiatolá Al-Sistani, maior figura do islã xiita no Iraque. "Na terra de Abraão, juntamente com outros líderes religiosos, daremos também um outro passo em frente na fraternidade entre os crentes", apontou.

Francisco pediu orações para que a viagem "possa decorrer da melhor forma possível e dar os frutos esperados". A visita é fisicamente exigente para o papa, recentemente afetado por várias situações agudas de inflamação do nervo ciático, tendo de percorrer mais de 7330 quilómetros em quatro dias, num total de 15 horas de deslocações aéreas e rodoviárias.

"O povo iraquiano espera por nós, esperava por São João Paulo II, que foi impedido de ir. Não se pode desiludir um povo pela segunda vez", justificou, a respeito de uma visita que decorre em contexto de pandemia, com limitações à participação nos eventos, e com um forte aparato de segurança. "Rezemos para que esta viagem lhes possa fazer bem", acrescentou.

A partir de 2004 houve uma série de atentados contra igrejas cristãs, situação que se agravou em 2014, com os ataques do 'Estado Islâmico'. Muitos cristãos procuraram refúgio no norte do país, habitado maioritariamente por população de etnia curda. O Cristianismo está presente no território desde o século I e muitos dos lugares do Iraque são referidos na Bíblia, desde o seu primeiro livro, com destaque para a terra natal de Abraão, Ur, que o papa vai visitar.

A 33ª viagem apostólica fora da Itália do papa, a primeira desde o início da pandemia, acontece a convite da República do Iraque e da Igreja Católica local, com passagens por Bagdade, Najaf, a planície de Ur – ligada à memória de Abraão –, Erbil, Mossul e Qaraqosh, na planície de Nínive.

Catequese

Durante a catequese, Francisco disse hoje que a fé cristã apresenta Deus como "Pai", marcado pela compaixão e capaz de morrer pelos seres humanos. "Jesus diz-nos com a sua vida até que ponto Deus é Pai. Ninguém é pai como ele. A paternidade, na proximidade, compaixão e ternura. Não nos esqueçamos destas três palavras, que são o estilo de Deus", apontou.

A intervenção abordou a oração à Santíssima Trindade, "Pai, Filho, Espírito", que o papa apresentou como abertura ao "mistério" do amor de Deus. "Porque deveria o homem ser amado por Deus? Não há razões óbvias, não há proporção… Tanto assim que, em grande parte das mitologias, não se contempla o caso de um deus que se preocupa com os assuntos humanos; pelo contrário, eles são irritantes e aborrecidos, completamente insignificantes", assinalou Francisco.

A intervenção distinguiu a relação com Deus, na fé cristã, do "dever" de religião das filosofias antigas, "com o corolário de sacrifícios e devoções a oferecer continuamente para ter como aliado um Deus mudo e indiferente". "Deus olha para as mãos daqueles que rezam: para as purificar não é necessário lavá-las, quando muito é preciso abster-se de ações malignas", apontou o pontífice.

Francisco considerou que a oração é uma "graça" que permite dialogar com Deus. "Um Deus que ama o homem: nunca teríamos acreditado nisto, se não tivéssemos conhecido Jesus", acrescentou. O papa recordou, a este respeito, as parábolas do pai misericordioso – conhecida popularmente como do "filho pródigo" – e a do pastor que vai em busca da ovelha perdida.

"Histórias como estas não poderiam ter sido concebidas, nem sequer compreendidas, se não tivéssemos encontrado Jesus. Que Deus está disposto a morrer pelas pessoas? Que Deus ama sempre e pacientemente, sem pretender por sua vez ser amado?", questionou. Francisco considerou o mistério da Trindade como "origem e alegria de todo o universo".

 Após a reflexão, o papa saudou os ouvintes de língua portuguesa, evocando o ano especial dedicado a São José. "Saúdo-vos a todos e animo-vos a venerar São José, o homem da presença quotidiana discreta e escondida, tomando-o como intercessor, amparo e guia nos momentos de dificuldade, vossos e dos vossos familiares, para que nunca se acabe o óleo da fé e da alegria, que brota da vida em comunhão com Deus", declarou.


Dom Total/Ecclesia



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