Mundo

04/03/2021 | domtotal.com

António Guterres, um português no centro do teatro mundial

Com uma atitude cordial e quase humilde, mas bastante assertiva, Guterres tem um perfil perfeito para o cargo, que tem enorme prestígio (e, de quebra, prestigia o seu país de origem), sem ter poder algum

O secretário-geral da ONU, o português Antonio Guterres
O secretário-geral da ONU, o português Antonio Guterres (Angela Weiss / AFP)

José Couto Nogueira*

Nessa quarta-feira (3) o governo português formalizou a recandidatura de Guterres a secretário-geral das Nações Unidas. Tal como na primeira candidatura, espera-se unanimidade na escolha do cargo mais prestigiado e, impotente, da arena internacional.

O documento de suporte à candidatura, cujo impulso cabe ao Estado português, já foi endereçado ao presidente da Assembleia-Geral da ONU, o diplomata turco Volkan Bozkir, e à presidência do Conselho de Segurança, exercida este mês pelo Reino Unido.

O mandato de António Guterres teve início a 1 de Janeiro de 2017, terminando no próximo dia 31 de dezembro.

A carreira deste político, ao contrário de outros que atingiram igualmente cargos de relevância nos foros internacionais, é bastante cristalina, não se lhe conhecendo maracutaias, para lá de naturais manobras da política.

Formado em engenharia eletrotécnica no Instituto Superior Técnico de Lisboa, em 1971, fez parte da JUC, à época dirigida pelo padre Vítor Melícias (uma figura controversa pelo seu poder político desproporcional à situação de padre franciscano). Uma fonte, com conhecimento do ambiente da altura, me contou que Melícias teria aconselhado Guterres e o atual presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (que também militava na JUC) a seguirem carreiras diferentes, porque sendo ambos brilhantes, só teriam a perder em serem concorrentes... Verdade ou não, é um pormenor curioso da pequena história.

Em 1976, no rescaldo da Revolução do 25 de Abril de 1974, Guterres, que era assistente na faculdade, escolheu o PS e, depois de uma rápida carreira ascendente que incluiu várias legislaturas como deputado, em 1992 tornou-se secretário geral do partido, sucedendo Jorge Sampaio. Os socialistas venceram as legislativas de 1995 e 1999 e Guterres, alavancado pelos milhões que nesse período vinham do famoso Fundo de Coesão da União Europeia, exerceu dois mandatos cheios de luxos nunca vistos nesta terra, que culminaram simbolicamente na Exposição Mundial de 1998.

Todavia, em 2001, na sequência dos maus resultados obtidos pelo partido nas eleições autárquicas, demitiu-se, "para evitar que o país caia num pântano político", expressão que ficou famosa, embora fosse incompreensível; já que as autárquicas não determinam quem governa o país. Aliás, quando um partido tem maus resultados nas autárquicas, a primeira coisa que alega é que não têm reflexo da condução da política nacional. À essa altura, o que se dizia era que ele estava farto de governar, ou que tinha algo de sinistro a esconder – invejas ou mau olhado, que a história nunca confirmou.

Como acontece com os políticos portugueses que se retiram da arena, arranjou um lugar confortável, como consultor na Administração da Caixa Geral de Depósitos.

Os seus contatos internacionais – foi presidente da Internacional Socialista entre 1995 e 2000 – e talvez o interesse do governo PSD àquela altura (Durão Barroso) de mantê-lo à distância, fizeram com que Portugal o apresentasse como candidato a alto comissário das Nações Unidas para os refugiados.

Os cargos de topo da ONU são propostos pelos seus membros, isto é, os países, e obedecem a representatividades, negociações e equilíbrios políticos que escapam ao cidadão comum. Constata-se uma tendência (que também se verifica na União Europeia e em outros organismos internacionais) em escolher candidatos de países menos importantes, o que dá uma aparência simbólica de igualdade entre todos e permite aos países mais fortes manobrarem melhor os nomeados, nos bastidores.

Em 2016, o Conselho de Segurança elegeu-o por unanimidade (sem nenhum veto) como secretário geral. Depois da confirmação por maioria simples na Assembleia Geral, começou a exercer o cargo em 1 de Janeiro de 2017.

Com uma atitude cordial e quase humilde, mas bastante assertiva, Guterres tem um perfil perfeito para o cargo, que tem enorme prestígio (e, de quebra, prestigia o seu país de origem), sem ter poder algum. Sendo uma assembleia de todas as nações, um autêntico saco de gatos, a ONU é mais uma vitrine de agravos e vaidades do que um órgão com poderes reais. Tem a função prática e necessária de colocar todos os países numa sala (agora virtual, em parte) para discutir segundo os interesses de cada um. Os resultados dependem, evidentemente, da notória desigualdade entre as partes. 

O Conselho de Segurança, que tem como membros permanentes os vencedores da Segunda Guerra Mundial mais a China, não reflete a situação internacional presente – o mais evidente exemplo disto, é a ausência da Alemanha. O Conselho é composto por 15 países, sendo 10 não permanentes (com um mandato de dois anos), e nesta categoria entram membros sem qualquer peso internacional, exatamente para manter a ficção igualitária das nações. Os 10 assentos não-permanentes são distribuídos regionalmente da seguinte forma: cinco para os Grupos dos Estados Africanos e Asiáticos; um para o Grupo dos Estados da Europa de Leste; dois para o Grupo da América Latina e Estados do Caribe; e dois para o Grupo dos Estados da Europa Ocidental e outros Estados.

Além das representações nacionais, as Nações Unidas têm um extenso corpo de funcionários, que atuam seguindo várias vertentes de interesses – pessoais, nacionais, ideológicos e dos vários blocos, formais ou informais. São carreiras de funcionário público internacional, e imagina-se a alta política que leva às decisões dos diversos secretariados, comissões e departamentos.

Chamo a atenção para esta complexidade para melhor avaliar as qualidades que tem de ter um homem como Guterres para navegar nesta cacofonia universal. Com o seu ar descontraído e ao mesmo tempo preocupado com os incontáveis problemas insolúveis que a ONU aborda, o cargo exige uma aparente autoridade juntamente com uma capacidade excepcional de engolir sapos sem perder a face.

Lendo a imprensa internacional, percebe-se que Guterres tem conseguido navegar neste mar alto para alegrai de todo mundo. Como salienta Richard Gowan, especialista norte-americano nas políticas da ONU, nenhum outro candidato se apresentou até agora.

Em Portugal diz-se, com tom crítico, que ele "se soube desenrascar". Mas fala a inveja, essa característica tão portuguesa. Somando votos e interesses, Guterres é o candidato ideal. Outros haveria, mas neste momento nenhum se destaca. Como ele famosamente disse, "é só fazer as contas".

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova York foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!