Religião

05/03/2021 | domtotal.com

'Igreja iraquiana sempre foi perseguida. O papa vai curar nossas feridas', diz padre iraquiano

Sacerdote de Mosul, no Iraque, que perdeu amigos em atentados, fala sobre o encontro de papa Francisco com a comunidade cristã local

Padre Karam Shamasha em encontro com o papa Francisco em Roma
Padre Karam Shamasha em encontro com o papa Francisco em Roma (Arquivo pessoal)

Mirticeli Medeiros*

Finalmente, os cristãos do Iraque verão um papa ao vivo e a cores. A "igreja-mártir", como o próprio papa Francisco a definiu, aguardava ansiosamente a chegada de seu líder. E num ato corajoso, o pontífice atual vai realizar o sonho de seu antecessor, João Paulo II, que cancelou sua ida ao país em 1999 por causa da instabilidade política, acentuada pelas sanções impostas pelos Estados Unidos na época.

Francisco prometeu, indo contra as recomendações de seus próprios colaboradores, favoráveis ao cancelamento da visita, que não decepcionaria a comunidade cristã iraquiana pela segunda vez. Assumiu os riscos da viagem e tomou para si a missão de consolar aquele povo. Disse que "não morreria com esse remorso" e que é papel do pastor estar com aqueles que sofrem, independente do que aconteça.

É a 33ª viagem apostólica de Francisco. O número 33, que sempre esteve associado à morte de Cristo, reúne, na mesma equação, a idade com a qual Jesus também ressuscitou dos mortos. Francisco quer levar uma palavra de ressurreição aos iraquianos, que caminham entre as ruínas de seus templos, e se recordam que, ali, muitos irmãos na fé tiveram as vidas ceifadas pelo extremismo e pela ganância de poucos. Nesses dias intensos, a imagem de Nossa Senhora, que ficou intacta em meio à onda de ataques impetrada pelo Estado Islâmico entre 2014 e 2017, será abençoada e reentronizada por Francisco como uma profecia de reconstrução para a comunidade cristã iraquiana.

No Brasil, onde somos acostumados a contar milhões de pessoas que praticam a fé cristã, nem dá para imaginar que um país, considerado uma das "árvores do cristianismo", já que foi evangelizado pelos apóstolos Tomé e Tadeu no século I, consiga reunir apenas 300 mil cristãos. Alguns deixaram a própria terra por medo e outros foram assassinados. Os que permanecem se sentem no dever de manter a chama da fé acesa acesa. E o papa está ciente que deve ir lá depositar o óleo da esperança nessa lamparina mantida por homens e mulheres que não arredam o pé entre prantos, destruição e recomeços.

Fiz uma entrevista com um dos que escolheram ficar. O padre iraquiano Karam Shamasha, que perdeu dois de seus colegas de seminário num dos piores ataques contra cristãos iraquianos na era moderna, em 2010, é quem nos explica o que significa essa visita do papa. Francisco irá ao local onde o sacerdote perdeu dois de seus amigos. Eles foram brutalmente assassinados enquanto participavam da missa dominical na Igreja de Nossa Senhora da Salvação, em Bagdá. Outros 50 fiéis também morreram naquele dia. Será o primeiro evento público do pontífice após o tradicional encontro com autoridades políticas locais, nesta sexta-feira, 5 de março.

Dom Total: Primeiramente, padre, como a igreja local recebeu a notícia que o papa visitaria o Iraque, apesar de todo o clima de instabilidade?

Pe. Karam Shamasha: Foi uma surpresa para nós, para a igreja local. A situação é difícil em vários aspectos: político, econômico e social. Do ponto de vista religioso ainda hoje há conflitos entre os xiitas, entre os xiitas e os sunitas, e por aí vai. É uma situação muito complicada. Sem contar a pandemia, a corrupção do governo, a diminuição dos salários e tantas outras coisas que contribuem para acentuar ainda mais essa crise. Diante dos problemas que enfrentamos, nem cogitávamos a visita do santo padre agora. O papa vem curar as feridas causadas por esses tempos difíceis que vivemos.

Dom total: A imprensa, principalmente, diz que essa viagem será a mais perigosa já realizada por Francisco. É um exagero? É arriscado para o papa ir ao Iraque neste momento? Qual o quadro atual?

Pe. Karam Shamasha: Certamente, sim. Não só para o papa, mas para nós também. Porém, tanto o governo quanto a segurança do papa fizeram vistorias e controles prévios, por várias vezes, nos locais pelos quais o papa passará. A gente espera que nesses dias não aconteça nada. A realidade é que muitos grupos e partidos não querem que essa viagem tenha bom êxito. Tudo pode acontecer. Por outro lado, o governo está dizendo que irá garantir a segurança em todos os lugares por onde Francisco passará.

Dom total: Como historiadora, eu posso dizer que Francisco é um dos papas da era moderna que mais fala do martírio dos cristãos. Ele se refere à igreja iraquiana, inclusive, como uma "igreja-mártir". A visita à Igreja de Al-Tahera é o momento ápice da visita, na sua visão? O que significa para os cristãos iraquianos essa escolha?

Pe. Karam Shamasha: Todas as escolhidas feitas pelo santo padre foram bem estudadas. À parte o encontro com o aitolá xiita, os demais locais serão todos cristãos. A visita a Al-Tahera, em Mosul, é coberta de significado porque não só as igrejas, mas várias casas, ao redor desses templos, foram destruídas. É um modo de chamar a atenção do mundo para o quanto é desastroso quando o homem cancela o outro, elimina outras pessoas gratuitamente. O papa quer mostrar ao mundo que a guerra leva à destruição, que o ódio leva sempre à destruição. A intolerância religiosa e a falta de liberdade religiosa trazem sempre a destruição. Outro momento significativo, que não podemos esquecer, será a visita à igreja de Nossa Senhora da Salvação, em Bagdá, onde aconteceu o atentado de 2010. Eu conhecia dois dos que morreram, estudamos juntos no seminário. Esse momento, em particular, nos recordará que existe um martírio moderno que vivemos e ainda estamos vivendo no Iraque.

Dom Total: A Igreja iraquiana, portanto, continua sendo perseguida?

Pe. Karam Shamasha: A Igreja no Iraque sempre foi perseguida. Temporariamente, nos deram uma trégua. No Iraque, a cada 30 ou 50 anos, no decorrer da história, vivemos momentos de perseguição, muitas tragédias envolvendo cristãos. Agora, as dificuldades econômicas que todos os cidadãos iraquianos enfrentam, além da pandemia, estão nos movendo para outras direções. Há também as disputas entre as milícias xiitas e sunitas, que querem expulsar não só os americanos, mas todos aqueles que não integram seus grupos. Eles não são como o Isis, mas há esse tipo de mentalidade de eliminar outras ideologias. Temos um pouco de liberdade, mas ainda não é uma liberdade absoluta porque volta e meia acontece algo. Quando não temos um governo forte, para garantir a segurança para os seus cidadãos, isso acaba acontecendo. É o nosso caso.

Dom total: Falemos, agora, do futuro. Na sua opinião, quais frutos essa visita trará, se é que podemos prever? O papa, que assume a prerrogativa de pastor universal, é um promotor da paz e, ao mesmo tempo, aquele que confirma a fé dos cristãos. Alguns teóricos do Oriente Médio dizem que alcançar a paz no Iraque significa alcançar a paz no Mediterrâneo. Sendo assim, podemos ao menos alimentar essa esperança com a presença do sumo pontífice?  

Pe. Karam Shamasha: É isso que a gente espera. A visita do papa em si já contribui muito para isso. Com a sua presença, o papa chamará a atenção do mundo para outro aspecto: a busca pela paz, ainda que não seja compartilhada por todos os iraquianos, será o centro da visita. Por muito tempo, o mundo só viu imagens de sangue e de morte. Algumas autoridades locais veem de bom grado essa visita, outras não. Os frutos virão se o coração dessas autoridades forem tocados. Então, não sabemos. Espero que ao escutarem a voz do papa, que é um homem de paz, isso de alguma forma ecoe. Se a paz for estabelecida no Iraque, os seus ramos chegarão a outros países. Porém, infelizmente, no momento não é tão fácil de ser alcançada. Irã não busca essa paz. A Turquia da mesma forma, insiste em lutas, conflitos e, dessa forma, contribui com o extremismo islâmico. Na Síria, outra situação nada fácil. O Iraque assume um papel importante, sem dúvida. Mas não pode fazer isso sozinho.

*Mirticeli Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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