Brasil

08/03/2021 | domtotal.com

Erro histórico e fatal

Pouco a pouco, o presidente foi destruindo a confiança de milhões dos milhões que o elegeram

Cartazes lambe lambe com a mensagem  'Tá caro Bolsonaro' na Avenida Paulista, São Paulo, SP, em 01 de março de 2021
Cartazes lambe lambe com a mensagem 'Tá caro Bolsonaro' na Avenida Paulista, São Paulo, SP, em 01 de março de 2021 (Roberto Parizotti)

Afonso Barroso*

Por certo, mais da metade dos 57 milhões de incautos que votaram no capitão sem farda para presidente da República estão hoje arrependidos. Em verdade, todos estavam conscientes dos riscos que corriam. Mas arriscaram. Na hora do voto, ao confirmar o nome no teclado da urna eletrônica, sabiam muito bem que se tratava de um parlamentar inexpressivo, um ex-militar da ultradireita, capaz de reverenciar em público um coronel torturador. Tinham plena consciência de que ele não sabia sequer encadear uma sequência de palavras sem tropeçar nas suas próprias inconsistências e inconveniências verbais e intelectuais. Mas tinham a esperança de que fosse ao menos honesto, que cumprisse o compromisso de combater a corrupção e não governar à base da troca de apoio parlamentar por cargos e verbas. Tinham a esperança de passar o Brasil a limpo e marcar uma virada na História, o que seria possível mesmo com aquela radical posição ideológica. A democracia em pleno vigor se encarregaria de frear um possível rompimento que porventura tentasse contra a normalidade.

Aos poucos, porém, em doses cavalares de desconfiança ministradas por ele mesmo, foram esses milhões de brasileiros tomados por uma aversão cada dia mais irrefreável ao senhor presidente. Perceberam que haviam cometido um erro sem correção possível. Cada pronunciamento, cada atitude, cada demonstração de desapreço pelas pessoas e pelas instituições que ele externava era como uma facada do Adélio Bispo na confiança dos eleitores um pouco mais esclarecidos.

Foram vários os comportamentos, declarações, atitudes e decisões que levaram esses eleitores a se desligarem gradativamente do presidente. Além da nomeação de um número excessivo de militares para postos chaves do governo, a primeira providência inaceitável foi a demissão do ministro Luiz Henrique Mandetta. O titular da Saúde conquistara a admiração popular pela correção e competência com que agia ao lidar com a trágica presença do recém-chegado coronavírus. Foi demitido por pura inveja, um dos pecados do extenso cardápio de defeitos do senhor presidente, que nomeou para a pasta um oncologista que não suportou a ingerência indevida no seu trabalho e também logo pegou o boné. E o cargo passou a ser ocupado por um coronel, fazendo nascer o Ministério Militar da Saúde.

A dose letal veio a seguir com o descarte do ministro da Justiça. É evidente que Sérgio Moro, embora nunca vá admitir, aceitou o cargo com a esperança de ser indicado para ministro do Supremo Tribunal Federal na vaga a ser então aberta pela aposentadoria do decano Celso de Melo, Aliás, essa foi uma promessa do presidente. Moro pode até dizer que não, mas não terá sido outra a motivação que o levou a abdicar da carreira bem-sucedida de juiz. Ser ministro do STF é o ápice da magistratura, e Moro merecia o posto, não apenas por seu currículo, seus conhecimentos jurídicos e sua competência, mas também por ter sido um dos maiores responsáveis pela ascensão de Bolsonaro à Presidência da República.

Sérgio Moro foi o juiz que coroou os esforços da Lava Jato com a condenação de políticos e empresários corruptos e poderosos. A operação, aclamada como a grande faxina da sujeira que se instalara nos meandros do poder, em especial da Petrobras, desbaratou uma organização criminosa responsável pelo desvio de bilhões dos cofres da Nação. Moro demonstrou um destemor até então inédito na história da Justiça brasileira e levou para a cadeia o grande ídolo das esquerdas, Luiz Inácio Lula da Silva.

Sem aquele que seria seu principal opositor, Bolsonaro navegou em águas serenas para chegar à presidência, e o mínimo que dele se esperava é que fosse grato à atuação de Sergio Moro. Ao provocar a saída do ministro por motivo torpe, o presidente demonstrou não cultivar sequer o sentimento da gratidão para com aquele que lhe abriu o caminho para chegar à presidência. Ao tomar e rasgar a carta branca que ardilosamente dera a Moro e forçar a sua saída, o presidente fez do amigo um jurista desempregado. Foi o cúmulo da ingratidão, sentimento que pode muito bem ser incluído como o oitavo na fileira dos pecados capitais.

Depois de tudo, incluindo o negacionismo e a inércia diante da pandemia que assolou o país, Bolsonaro passou a contar com o apoio apenas dos fanáticos sem noção ou senso crítico. Que infelizmente, para infelicidade geral da Nação, ainda são milhões.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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