Economia

07/03/2021 | domtotal.com

Economista aponta negligência e reafirma necessidade de vacinação em massa no país

Avaliação de renda per capta é de que o país empobreceu nos últimos sete anos

Investimento em máquinas foi um ponto positivo do desempenho da economia em 2020
Investimento em máquinas foi um ponto positivo do desempenho da economia em 2020 (José Paulo Lacerda/CNI)

Após a queda de 4,1% no PIB no ano passado, o Brasil deve começar 2021 com nova retração, segundo o ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore. O economista avalia que, com o descontrole da pandemia da Covid-19, a atividade deve voltar a recuar no primeiro trimestre deste ano. "O governo foi negligente com a vacinação, está expondo as pessoas a morrerem na linha do tiro. Isso tudo derruba o PIB. A perspectiva é de contração no primeiro trimestre."

Para ele, o único modo de reverter essa tendência a partir do segundo trimestre é acelerando a imunização da população. A seguir, confira os principais trechos da entrevista.

Como o senhor avalia o resultado do PIB?

Do lado da oferta, os resultados dos setores de serviços e da indústria saíram como esperado. A indústria teve uma queda menor e os serviços, mais afetados pelo afastamento social, uma queda maior. A surpresa veio do lado da demanda, composta por gastos do governo, consumo das famílias e formação bruta de capital fixo (investimentos em maquinários e peças, por exemplo). O consumo contraiu como a gente imaginava, mas teve um aumento grande da formação de capital fixo. É isso que quero comentar. Muita gente vai julgar que isso foi bom, mas praticamente todo o aumento veio da importação de bens de capital, de uma massiva importação da Petrobras de plataformas de petróleo.

Houve um desaquecimento na economia no fim do ano passado e este ano começa difícil, com a pandemia acelerando. O que podemos esperar para 2021?

Eu calculei a renda per capita do país. Como a população cresce, a renda per capita hoje está 2,9% abaixo da do último trimestre de 2019, quando começou a recessão da Covid. Com relação ao início da recessão de 2014, estamos 9,4% mais pobres. A menos quem ganhou no mercado financeiro, que está mais rico. O resto da população está mais pobre. A segunda coisa, estamos vivendo um ciclo econômico diferente de todos que o país já viveu, porque temos a pandemia. O governo negou essa pandemia o tempo todo. Tem um presidente que manda tirar a máscara. Estamos com uma segunda onda de contágio que é uma coisa apavorante. E isso não chegou ao fim. A pandemia faz com que as pessoas que tenham juízo e que podem se fechem em casa. Isso reduz o PIB. Quem tem juízo, mas não pode se fechar porque tem de sair para trabalhar não é inconsciente, é alguém que tem de continuar ganhando algo para sobreviver. Essas pessoas estão sendo empurradas para a frente da batalha. O governo foi negligente com a vacinação, está expondo essas pessoas a morrerem na linha do tiro. Isso tudo derruba o PIB. A perspectiva é de contração do PIB no primeiro trimestre. Só não consigo adivinhar de quanto. Não sei sobre o segundo trimestre. Mas, lembrando que a população cresce 0,8% ao ano, se a queda do PIB no primeiro trimestre for só de 1%, vamos chegar ao segundo trimestre com uma renda 4,1% abaixo da de 2019. Essa é a perspectiva que temos.

O senhor vê alguma saída? Alguma medida governamental que possa socorrer a economia?

O que os países que têm estadistas na presidência estão fazendo é acelerar a vacinação. O Joe Biden está comprando tudo que é vacina para os Estados Unidos. Os países da Europa estão fazendo a mesma coisa. Quando não se tinha vacinação, os países fizeram lockdown. Nós estamos hesitando em fazer lockdown, apesar das mortes na rua. A gente precisava acelerar a vacinação. Isso é o mais importante de tudo. Não adianta vir só com auxílio emergencial e blablablá de que somos liberais. Se não vacinar, não saímos desse problema.

Como avalia a deterioração das contas públicas e o impacto na economia? O governo planeja novo auxílio emergencial. Qual deve ser o resultado disso tudo?

Você pode dar o auxílio que quiser, se não tiver vacinação, a economia não recupera. Precisa de vacinação e da ajuda emergencial por duas razões. A primeira é evitar que pessoas morram de fome. Em segundo lugar, o dano que isso está causando sobre o ajuste fiscal é relativamente pequeno. O câmbio está a R$ 5,73 e o juro de longo prazo, quase acima de 8,5% por causa do prêmio de risco pela falta de confiança no governo, pela falta de confiança de que ele vai fazer as reformas necessárias para a consolidação fiscal.

Hoje o mercado está de cabeça para baixo. Ninguém do mercado sai criticando o Bolsonaro, porque eles têm responsabilidade com a empresa deles. Mas os preços, o câmbio e o juro, falam por eles e gritam muito alto. Isso não é por causa da ajuda emergencial. É por causa da negligência do governo em relação à covid. A segunda questão é a omissão plena da equipe econômica do governo no que diz respeito a um programa de consolidação fiscal que introduza confiança no País. Esse é o problema fiscal sério que temos.


Agência Estado/Dom Total



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