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09/03/2021 | domtotal.com

Riscos globais em 2021

O maior desafio é o desafio político e a luta desenfreada por poder e hegemonia

O Relatório de Riscos da WEF classifica as mudanças climáticas como a maior ameaça global
O Relatório de Riscos da WEF classifica as mudanças climáticas como a maior ameaça global (Fabrice Coffrini/AFP)

José Antônio de Sousa Neto*

Em janeiro deste ano de 2021 o WEF (Fórum Econômico Mundial) divulgou seu já tradicional Relatório Sobre Riscos Globais. Aqui é importante fazer uma distinção entre incertezas e riscos. A incerteza, em diversos níveis são muito difíceis de mensurar. Os riscos por sua vez, mesmo que de forma aproximada, podem ser geridos porque, em princípio, são mensuráveis mesmo que de forma aproximativa. Aos riscos pode-se alocar uma probabilidade de ocorrência e combinar esta probabilidade de ocorrência com os impactos que podem gerar caso de fato ocorram.

O documento produzido pelo WEF (Fórum Econômico Mundial) trata dos resultados da Pesquisa de Percepção de Riscos Globais (GRPS) e faz a análise da interconexão entre as divisões globais que temos hoje e a capacidade de resolver riscos globais.

Riscos são probabilidades e não certezas. Não significa a priori que necessariamente se materializarão. Por outro lado, a compreensão destes riscos e de seus impactos permite não só ações preventivas e proativas, mas tem também um papel educativo da mais alta importância.

De forma bem sumarizada a previsão é de que a crise covid-19 provavelmente agravará as desigualdades e a pobreza, entre outras coisas. De fato, o aumento do desemprego, a perturbação dos comportamentos sociais e a mudança nos mercados pode ter uma influência negativa nas oportunidades da maioria das pessoas. Isto terá outras consequências, especialmente nas próximas décadas: as divisões que aparecem nos campos políticos, geopolíticos e sociais provavelmente terão um impacto nas tomadas de decisões sobre as outras principais ameaças de décadas, ou seja, mudanças climáticas, ataques cibernéticos e armas de destruição em massa. A seguir, reproduzimos os principais tópicos apesentados no relatório:

Percepções gerais de caráter global

Os riscos de maior probabilidade nos próximos dez anos são sobre mudanças climáticas e problemas digitais como a segurança cibernética ou a desigualdade, mas os riscos de maior impacto neste período são as doenças infecciosas, falhas ambientais, armas de destruição em massa e múltiplas crises sociais / econômicas / digitais.

Estes riscos poderão se materializar nos próximos dois anos, por meio de crises sociais e econômicas (desemprego, desilusão, desigualdade, dano ambiental ...). Então, em 3-5 anos, poderão ter então uma natureza de ordem mais econômica não apenas com crises de dívida, mas também com um viés geopolítico. Em 5-10 anos, a principal ameaça será ambiental com crises de recursos naturais devido ao fracasso da ação climática. Nós também seremos tocados por novas armas, o lado ruim da tecnologia e o colapso das instituições políticas.

Fragilidade econômica e divisões sociais devem aumentar

Alguns países sofrem mais do que outros com problemas nas áreas da saúde, da educação e problemas relacionados a estabilidade financeira. As consequências econômicas e de saúde podem piorar a longo prazo. O desemprego e a desigualdade podem explodir e causar a perda de coesão social.

O crescente fosso digital relacionado à adoção de novas tecnologias é uma grande preocupação. A crise da pandemia forçou / acelerou a mudança para a tecnologia digital. Os jovens desenvolveram uma certa flexibilidade e adaptabilidade na forma como trabalham e estudam. Esforços para educar e familiarizar-se com o digital devem ser feitos. As consequências da má adaptação podem dar origem às desigualdades digitais. As pessoas devem estar cientes dos novos desafios digitais, tanto em suas vidas profissionais como em suas vidas privadas.

Uma geração duplamente perturbada de jovens está emergindo em uma era de oportunidades perdidas

O congelamento das contratações e a profunda mudança nas habilidades adquiridas / requeridas após a crise deixaram os jovens trabalhadores em dúvida e inseguros. Novos desafios surgem hoje em termos de saúde, prosperidade econômica e educação. Essa perda de significado, a falta de oportunidades e as dificuldades de visualizar o médio e o longo prazo (as vezes até o curto prazo) podem criar problemas reais, incluindo a perda de confiança nas instituições.

O clima continua a ser um risco crescente à medida que a cooperação global enfraquece

O GRPS (Global Risks Perception Survey – Pesquisa Global de Percepção de Riscos) prevê uma fratura entre os países e dentro dos países devido ao aumento da ansiedade do público em relação ao clima e às crescentes tensões entre os países em suas buscas por recursos (recursos naturais  e alimentos dentre outros – grifo meu). Os riscos de colapsos nas cooperações internacionais e problemas de estabilidade dentro dos países são ameaças claras a longo prazo. Considerando que cooperação seria o que a Terra realmente precisa, a mudança climática é de fato um risco iminente.

Uma paisagem industrial polarizada pode surgir na economia pós-pandemia

Os efeitos do covid 19 sobre as práticas de negócios abalaram o cenário econômico. Em oposição ao ir e vir da evolução econômica natural, na verdade esse abalo foi imensamente danoso para os pequenos negócios e os deixaram ainda mais distantes das características normalmente associadas com o desenvolvimento sustentável.

Por outro lado, como a mudança da emergência para a recuperação ainda está para ser feita, esta é uma oportunidade de promover um crescimento limpo e inclusivo para os negócios.

Melhores caminhos estão disponíveis para gerenciar riscos e aumentar a resiliência

A pandemia acabou por fazer com que os países do mundo tivessem de lidar com os aspectos e a importância de se estar preparado para a gestão de crises. Na pesquisa que fundamenta o relatório do WEF lições puderam ser extraídas e cinco áreas / domínios devem ter um papel central agora e no futuro:

  1. Tomada de decisão governamental
  2. Comunicação pública
  3. Recursos para os sistemas de saúde
  4. Gestão de lockdowns
  5. Assistência financeira para os vulneráveis.

Finalmente e por outro lado, segundo o relatório, a pandemia "oferece quatro oportunidades de governança para fortalecer a resiliência geral de países, empresas e da comunidade internacional":

  1. Formular / criar estruturas analíticas que tenham uma visão holística e baseada em sistemas, para melhor entender e melhor gerenciar os impactos dos riscos.
  2. Investir em "campeões de risco" (pessoas capazes de capitanear e influenciar esta discussão) de alto perfil para incentivar a liderança nacional e a cooperação internacional.
  3. Melhorar a comunicação dos riscos e combater a desinformação.
  4. Explorar novas formas de parceria público-privada na preparação para riscos.

A soluções existem e a maior parte das tecnologias necessárias ou já estão disponíveis ou tem um potencial de desenvolvimento que em grande medida já está a nosso alcance. O maior desafio é o desafio político e a luta desenfreada por poder e hegemonia. Quase sempre a qualquer custo!

*Professor da EMGE (Escola de Engenharia e Computação)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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