Religião

09/03/2021 | domtotal.com

Jovens são mortos nos arredores de Catedral apesar dos apelos das freiras

Protestos pacíficos são motivados pelo golpe de Estado e reação militar é violenta

Imagem divulgada pelo Myitkyina News Journal mostra freira ajoelhada em frente à polícia para pedir que não disparem contra os manifestantes pró-democracia em Myitkyina, norte de Mianmar
Imagem divulgada pelo Myitkyina News Journal mostra freira ajoelhada em frente à polícia para pedir que não disparem contra os manifestantes pró-democracia em Myitkyina, norte de Mianmar (Handout/AFP)

"Não atirem contra as crianças!". A irmã Ann Rose Nu Twang se ajoelha, abre os braços em cruz e implora às forças birmanesas. Em vão, no mesmo dia, 8 de março, três manifestantes pró-democracia foram mortos.

Não se sabe com certeza de onde vieram os tiros, mas a polícia e o exército não hesitam em usar munição real desde que começaram as manifestações pacíficas contra o golpe de Estado que derrubou o governo civil de Aung San Suu Kyi, em 1º de fevereiro.

Neste 8 de março, centenas de pessoas, principalmente membros da etnia Kachin, tomaram as ruas de Mytkyina (norte), palco de manifestações desde o golpe. Entre os manifestantes, havia inúmeras birmanesas que se manifestavam pelo Dia Internacional da Mulher.

Elas marcharam agitando seus "Htamain" (os sarongues femininos típicos de Mianmar) em sinal de protesto e solidariedade ao Movimento que desafia pacificamente a Junta Militar. Entretanto, no início da tarde, o ambiente se degradou.

Para escapar dos espancamentos e prisões, alguns jovens manifestantes se refugiaram no complexo da Catedral católica de São Columbano. A polícia e o Exército lançaram gás lacrimogêneo e bombas de efeito moral para tentar dispersar a multidão, que responde lançando projéteis. Ao longe, é possível ouvir várias explosões. Os manifestantes se protegem atrás de barricadas erguidas às pressas com folhas, placas de madeira e tijolos, mas os militares começaram a atirar contra os jovens desarmados. O complexo da Catedral foi cercado pelo Exército.

Neste interim, intervieram o bispo emérito da Diocese, dom Francis Daw Tang, e a irmã Ann Nu Tawng, de 45 anos, a freira que se tornou um "ícone" da paz, ao se ajoelhar diante de uma linha de policiais, suplicando que não atirassem contra os jovens. 

Ela se ajoelha e dois policiais fazem o mesmo, juntando suas mãos em sinal de respeito pela religiosa. Já outros permanecem indiferentes, de acordo com imagens divulgadas por um veículo local, o Myitkyina News Journal.

"Eu supliquei que não atirassem [...], que em vez disso me matassem. Levantei as mãos em sinal de perdão", conta a freira. Apesar do apelo "para não prender e perseguir manifestantes pacíficos", não muito longe do local, outro grupo de policiais começou a atirar, conta, matando 3 e ferindo ao menos 7, além de se recusaram a deixar o local. 

"Não tive medo"

Algumas imagens divulgadas nas redes sociais mostram manifestantes imóveis e cobertos de sangue. Um deles está estirado de bruços no chão, com a cabeça meio arrancada.

"Foi um momento de pânico. Estava no meio e não podia fazer nada", explica, apesar de ressaltar: "não tive medo". Outras duas freiras chegam para apoiá-la. "Parem, estão torturando e matando as pessoas. É por isso que as pessoas estão com raiva e protestam", diz uma delas.

Três manifestantes morreram. Nesta terça-feira, uma das vítimas, Zin Min Htet, foi enterrada e uma multidão compareceu para prestar uma última homenagem, reunindo-se em volta de seu caixão, coberto de flores, e fazendo a saudação dos três dedos, símbolo da resistência.

O ato de coragem de Ann Rose Nu Twang foi muito compartilhado nas redes sociais do país, que é majoritariamente budista. Em 28 de fevereiro, a religiosa havia chamado a atenção ao ficar de joelhos em frente às forças de segurança para pedir prudência.

Ao menos 60 civis perderam a vida desde o golpe e mais de 1.800 foram detidos, segundo a Associação de Assistência aos Presos Políticos. O Estado nega qualquer envolvimento da polícia ou do exército na morte dos civis, e defende que as forças de segurança devem "conter os distúrbios tal e como dita a lei".

Ofensiva estatal

De acordo com observadores, o exército ocupou hospitais e campus universitários no último final de semana e intensificou os ataques noturnos em preparação à convocação de nova greve geral. Violência e prisões foram registradas nas maiores cidades, como Yangon, Naypyitaw e Mandalay.

"Recebemos relatórios confiáveis de hospitais ocupados em Mianmar hoje – disse na segunda-feira, 8, James Rodehaver, chefe da equipe de direitos humanos da ONU em Mianmar – incluindo pelo menos quatro hospitais em Yangon e pelo menos um em Mandalay". “Isso – afirmou com veemência – é completamente inaceitável. Os hospitais são protegidos pelo Direito Internacional Humanitário”.

Após o golpe, as forças de segurança perseguiram repetidamente os trabalhadores da saúde, que foram os primeiros a liderar o movimento pela desobediência civil.

Os sindicatos em Mianmar haviam convocado para a segunda-feira (8) uma greve nacional, como parte de uma campanha de desobediência civil contra o golpe. Dezoito sindicatos de grandes indústrias, nas áreas de agricultura, energia, mineração, construção, alimentação e transporte, pediram um "fechamento total e extenso da economia de Mianmar".


AFP/ Vatican News/ Dom Total



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