Cultura

09/03/2021 | domtotal.com

Lula livre, elegível e no ar

A campanha eleitoral 2022 já começou na TV

Lula foi solto em novembro de 2019 após 580 dias na cadeia
Lula foi solto em novembro de 2019 após 580 dias na cadeia (Henry Milleo/AFP)

Alexis Parrot*

A decisão do ministro do STF Edson Fachin pela incompetência de foro da Justiça Federal de Curitiba para julgar os processos do ex-presidente Lula no âmbito da Lava Jato sacudiu o país na tarde dessa segunda-feira (8). Lula imediatamente ganhou o palco para as eleições do ano que vem, ao contrário de Sergio 'não me lembro' Moro e Deltan 'Telegram' Dallagnol que amargaram a maior derrota desde o inicio das revelações da Vaza Jato. 

Era natural que os telejornais da noite dessem a notícia com destaque, e assim foi; porém, com grande diferença de tratamento sobre o fato - a começar pelo tempo dedicado ao assunto.

Band e Cultura usaram, respectivamente, 9,3 e 8,3 minutos de seu tempo total no ar para apresentar e discutir o assunto, mostrando equilíbrio e responsabilidade jornalística. A Record dedicou apenas 5,45 minutos ao tema, embora quase a metade tenha sido de críticas ao despacho de Fachin, ouvindo apenas juristas contrários à decisão e fechando a matéria com os esbravejos de Bolsonaro, desqualificando o ministro do STF.

De maneira surpreendente, o Jornal Nacional destinou mais de 23 minutos para destrinchar (até demais) clara e didaticamente o caso - um contraponto ao Repórter Brasil da estatal EBC, que vergonhosamente, ofereceu apenas uma entrada ao vivo de uma repórter em stand up acanhado de pouco mais de um minuto de duração.

Parece pouco mas estes números dizem exatamente onde cada emissora se encontra hoje no tabuleiro da política nacional. Enquanto Record (leia-se Edir 'nada a perder' Macedo) e TV Brasil seguem como assessoria de imprensa do presidente, a Globo mostrou preferir até uma volta de Lula ao Planalto do que a reeleição de Bolsonaro - e já mostrou que está disposta a se tornar cabo eleitoral do petista.

Feitas as contas, quem sofreu mesmo o maior golpe com os acontecimentos de ontem foi o próprio jornalismo.

Entre androides e replicantes

Wandavision (Disney+) teve seu grand finale disponibilizado na última sexta-feira e já deixa saudades. A série, uma história de amor e luto movimentando a Feiticeira Escarlate e seu amado androide Visão, eleva o gênero filme de super-heróis para outro patamar e nos faz ter esperança por um futuro mais adulto no UCM.

Até então, o Universo Compartilhado da Marvel nos cinemas comprazia-se apenas em olhar para o próprio umbigo, enchendo suas narrativas de gracejos e easter eggs apontando para crossovers de personagens e dando pistas para filmes vindouros.

Não se engane: os momentos de ação seguem firmes e fortes, as cenas pós-créditos finais continuam presentes e o melodrama ainda é a tônica no desfecho sempre apoteótico. Mas algo de diferente aconteceu dessa vez.

No finalzinho do último episódio, após todos os nós da história desatados, surge uma agradável surpresa. Estampada no painel do cinema da cidadezinha de Westview, chama a atenção o anúncio da próxima atração: Tannhauser Gate. Trata-se de uma citação ao monólogo final do personagem replicante de Hutger Hauer em Blade runner.

Até então mais autorreferente que a extinta banda É o Tchan em suas músicas de axé, o Estúdio Marvel finalmente começa a conversar com outras obras que não apenas as próprias HQs. Além de sofisticar tramas e a construção de personagens, esta expansão narrativa enriquece simbolicamente o produto final, despertando no público reflexões mais robustas e interessantes.        

Apesar de tudo, o ponto negativo é de ordem ideológica, uma constante no gênero. A premissa instigante não esconde o pecado original americanófilo. Ao homenagear a televisão a partir da sitcom, produz uma elegia ao american way of life, fingindo rir daquilo que de fato enaltece.

Ainda assim, o saldo é positivo e deve reverberar nas próximas produções da Marvel. Apesar de ter ganhado vários detratores na imprensa e junto ao público, Wandavision provou ser bem mais do que meras lágrimas na chuva.

Muita fé, Pocah sorte

O paredão falso do BBB está formado e o público deve escolher quem irá para o quarto secreto. O felizardo poderá assistir a doze horas com áudio do desenrolar do jogo durante sua ausência na casa - uma vantagem inestimável sobre os outros competidores.

Ao vencer a prova bate e volta, Pocah perdeu a chance de concorrer a esta regalia. Se aconteceu mesmo o que ela disse e foi de fato a voz de Deus que a guiou, tudo leva a crer que o Cara lá de cima está torcendo por outra pessoa na corrida pelo milhão e meio.

E por falar em Deus...

Após ter sido entoada por Juliette em momento deprê, a música Deus me proteja, parceria de Chico César e Dominguinhos, ganhou nova vida. A canção, composta em 2008, saiu direto do quarto colorido do BBB para a parada de sucessos virtuais da internet, alcançando, por exemplo, o playlist do Top Brasil no Spotfy.

O próprio Chico César postou um vídeo nas redes sociais enaltecendo a conterrânea, "fã de paraibanos e porque a música tem tudo a ver com o momento". Apesar de nunca ter assistido ao Big Brother, o compositor declarou a torcida por Juliette e o desejo de conhecê-la pessoalmente.

Serve de argumento para derrubar mais uma vez a opinião daqueles que ainda duvidam da força e alcance da TV aberta no Brasil.  

Sympathy for the devil

As recentes declarações de Sarah em defesa de Bolsonaro podem ser o tiro pela culatra que a brasiliense não precisava ter dado. Até então uma das grandes favoritas para chegar à final do BBB, a loira começou a ser criticada nas redes sociais pelo jeito, digamos, bolsominion de encarar a vida. Ainda que de forma sucinta, abriu o jogo sobre sua preferência política apenas para, ato reflexo, causar a decepção de boa parte de sua torcida.

Se a preferência do público por Sarah continuar a derreter, ficará provado que o presidente significa para o BBB o mesmo que Mick Jagger é para o futebol: um pé frio que time nenhum quer ver no estádio em dia de jogo.

Frase da semana

Do governador baiano, Rui Costa, em entrevista para o Jornal da manhã, da TV Bahia, sobre a propagação cada vez mais rápida do coronavírus:

"Enquanto alguns acharem que podem ir para os bares encher a cara de cachaça, ir para balada e festas, sem nenhum peso na consciência de quantas pessoas estão morrendo, nós não vamos vencer essa doença".

*Alexis Parrot é crítico de televisão, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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